Em busca de singularidades

Para alcançar melhorias no ensino, Novo Horizonte (SP) priorizou o atendimento individualizado do aluno

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Imagine uma rede de ensino que tem o mesmo diretor há 10 anos, atravessando três mandatos de prefeito de diferentes partidos, tamanho o reconhecimento das mudanças realizadas nas escolas públicas. Uma rede em que todos os professores, coordenadores e diretores estudam juntos sobre temas da educação contemporânea, todas as quartas-feiras, e acompanham quase individualmente os alunos e suas famílias. Para os que têm dificuldades, aulas de reforço; para o que já vão bem demais, turmas de aprofundamento.

Esse lugar existe. É Novo Horizonte, cidade com 36,5 mil habitantes próxima a Ribeirão Preto, em São Paulo. Nas 14 escolas da cidade estudam 4,5 mil alunos de educação infantil, ensino fundamental I e ensino fundamental II.  Quando assumiu, a primeira providência do diretor da divisão de Educação municipal, o pedagogo Paulo César Magri, foi reunir as escolas de educação infantil, que eram dispersas pela região, com poucas salas de aula e sem qualquer estrutura. Ele optou também por adotar um sistema apostilado para a rede. “Não se trata de ser ideal, bom ou ruim, mas foi uma medida para que tivéssemos um maior controle e acompanhamento das escolas e isso era necessário”, diz. Em 2005, com o sucesso da primeira etapa e a pressão do Estado pela municipalização, Novo Horizonte incorporou a primeira escola de ensino fundamental, que ficava a 30 quilômetros da cidade e atendia a população rural – trata-se de uma região de usinas sucroalcooleiras e agricultura forte.

A partir daí, a população da cidade se tornou a principal interessada no processo, com o consenso de que a educação melhorava rapidamente, e novas escolas foram municipalizadas. Neste ano, forma-se a primeira turma de ensino fundamental II, que registrou melhorias consideráveis – o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) foi de 4 para 6,2, em alguns anos. Não é um caso isolado.  Os dados do Ideb revelam avanços globais da educação no município. A rede municipal apresentou em 2009 um índice de 6,5, no 5º do ensino fundamental (contra 5,0, em 2005), e de 6,1, no 9º ano (saindo de 4,1, em 2007). Com isso, o município atingiu patamares projetados para 2017, no primeiro caso, e já extrapolou as metas de 2021 projetadas pelo Ministério da Educação.

O diretor Magri conta que as políticas combinam formação continuada, envolvimento da família e metas elevadas de exigência acadêmica, em um processo que tem por base a avaliação. Basta dizer que, enquanto muitas escolas brasileiras nem sabem quando será a próxima Prova Brasil, Novo Horizonte já treina no Verifica Brasil, um simulado semanal que as escolas novorizontinas realizam com base nos descritores do exame do MEC, que vêm sendo estudados por todos os professores da rede.

A este instrumento soma-se outro, a Avaliação de Rendimento do Ensino Fundamental (Aref), um sistema local de avaliação aplicado bimestralmente a partir dos conteúdos trabalhados pelos alunos nas escolas. Os resultados do AREF servem de termômetro para o desempenho dos alunos nas provas oficiais. Além disso, a avaliação é aliada a uma política de formação contínua dos docentes. Os professores não têm cursos isolados – todas as quartas, das 18h às 20h, eles se reúnem, em um único local, para estudar e discutir os dados levantados nas avaliações. Quando são identificados problemas, imediatamente eles se tornam o foco do trabalho pedagógico. Além disso, quatro vezes por ano, as equipes recebem a visita de palestrantes renomados, como Cipriano Luckesi e Vasco Moretto. Este se tornou um fã declarado do trabalho de Novo Horizonte. “É a prova de que é possível mudar a educação pública”, diz Moretto, que visitou diversas escolas da cidade.

A rede municipal de Novo Horizonte, assim como a escola pública de todo o Brasil, atende a um público muito diversificado, desde a classe média de uma cidade próspera até filhos de imigrantes, que trabalham nas lavouras. “Não digo que não haja alunos com dificuldades, mas posso dizer que todos estão aprendendo e avançam juntos na escola”, diz Magri. Para isso, a Divisão de Educação montou uma estratégia global de atendimento. No plano acadêmico, mantém aulas de reforço de matemática e português, para onde os alunos são encaminhados tão logo apresentem dificuldades. Além disso, as escolas oferecem cursos complementares que ampliam a vivência cultural, como é o caso de pintura e violão. A cidade já possui uma escola que recebe 200 alunos em tempo integral, e a ampliação desse atendimento está nos planos.

Apoio
As famílias estão sempre por perto e recebem orientações gerais da equipe escolar para cuidar dos filhos e acompanhar a aprendizagem. “Dizemos para procurar a escola se identificarem qualquer coisa diferente”, conta o diretor. Da mesma forma, se a escola percebe que algo não vai bem, é ela que vai à família. Os coordenadores pedagógicos, impedidos de desempenhar funções administrativas para que se dediquem exclusivamente a apoiar o professor em sala de aula, fazem visitas domiciliares e, se for necessário, acionam uma assistente social. Se o diagnóstico requer atenção multidisciplinar, ele existe: há um Centro de Atendimento Especializado com fonoaudiólogo, psicólogo, neurologista, terapeuta ocupacional e outros profissionais.

No caso dos alunos portadores de necessidades especiais, o mesmo ocorre. A partir do diagnóstico, crianças e adolescentes nessas condições passam a ter aulas com os demais alunos. Contudo, o professor e o aluno recebem um apoio individualizado e materiais para serem utilizados em um espaço específico.

A conquista da comunidade veio não apenas pelo rigor no trato pedagógico. Magri apostou na valorização do espaço escolar, no que chama de ‘processo de humanização’. “Hoje, sinto que a população gosta da escola: são bonitas, bem arrumadas, com refeitórios e banheiros limpíssimos”, diz. Tudo isso permite à Divisão de Educação apertar o ritmo e elevar o grau de cobrança de envolvimento da comunidade como um todo – alunos, famílias e escolas. “O principal segredo é o grau de exigência”, diz Magri.

Alguém poderá dizer: é um universo pequeno, diante da imensidão do país. É verdade. Como também é real o fato de que a experiência desenvolvida nesse pequeno município traga à tona todos os elementos que os especialistas apontam como variáveis decisivas para corrigir os rumos da educação pública – que, no que diz respeito a todas as etapas da Educação Básica, com exceção do ensino médio, é atribuição dos municípios. Por fim, não se pode esquecer que nada menos do que 4,9 mil dos 5,5 mil municípios brasileiros têm população de até 50 mil pessoas. Ou seja, não há razão para cruzar os braços diante do desafio que marcará as gerações contemporâneas – a melhoria para a educação de milhões de crianças e jovens.

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