Em busca de respostas

Novela Senhora do Destino, da Globo, aborda ditadura no Brasil, mas consulta a livros é essencial para compreender melhor esse período histórico

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Laurindo Lalo Leal Filho*

Em seu principal horário para novelas, a Globo volta a falar da ditadura com a recente
Senhora do Destino

. Antes tarde do que nunca. Fiel aliada dos governos militares – e, por que não dizer, de todos os governos -, a emissora da família Marinho abre na dramaturgia algumas portas para uma visão um pouco mais crítica da história. Nada que substitua um bom livro de análises sobre o período repressivo, mas a força da televisão pode contribuir para estimular o debate. E aí entra em cena o professor, responsável por contextualizar aquilo que a novela dilui e fragmenta em nome do ritmo televisivo.




A saga da retirante nordestina em busca da filha levada dos seus braços pega o telespectador pela emoção e, com alguma ajuda, pode encaminhá-lo para uma compreensão racional e mais elaborada do momento em que esse fato ocorre. Com certeza, os alunos levarão para a sala de aula as aflições vividas pelos personagens na noite anterior e, entre elas, estará a dura repressão imposta aos que se opunham à ditadura. Como chegamos a esse ponto? O que levou o país a mudar de rumo, deixando a rota reformista para enveredar pela trilha da submissão ao capitalismo monopolista internacional? E, por que, restabelecida a democracia, os fundamentos econômicos foram mantidos?




Sem dar respostas a essas e outras perguntas semelhantes, cairemos na simplificação do folhetim eletrônico e a ditadura ficará para nossos alunos como mais uma trama policialesca, confrontando mocinhos e vilões. A vida real é uma pouco mais complicada. As respostas, é claro, não estão na TV. Para obtê-las é preciso ir aos livros nos quais poderemos decodificar a ditadura, explicando-a aos jovens de acordo com a compreensão de cada nível de escolaridade.



As Ilusões Armadas



(Companhia das Letras, em média 500 págs. e R$ 50, cada um), de Elio Gaspari, um conjunto de cinco volumes (quatro publicados até agora), é o trabalho mais abrangente sobre o período da história brasileira que vai do golpe de 1964 ao fim do governo Geisel, em 1979. Documentos inéditos guardados por alguns dos atores centrais da política da época são trabalhados pelo jornalista, resultando num texto de leitura agradável e atraente. Os livros nos conduzem com competência pelos escaninhos do poder, mas nos contam a história muito mais determinada pela vontade dos homens do que pela força das estruturas sociais. Por isso, para entender o período é preciso acrescentar análises mais aprofundadas.




Há várias. Aqui citamos três clássicas:
1964:


A Conquista do Estado

, de René Armand Dreifuss (Vozes, 814 págs., esgotado),
A Revolução Burguesa no Brasil

, de Florestan Fernandes (LTC, 414 págs., esgotado), e
O Colapso do Populismo no Brasil

, de Octavio Ianni (Civilização Brasileira, 192 págs., esgotado). São livros que permitem compreender as raízes do golpe, articulado por forças internas e externas interessadas na submissão do país à ordem internacional que se impunha sob a égide norte-americana.





Claro que a novela da Globo passa longe de tudo isso, deixando nos jovens telespectadores a impressão de que os fatos ocorreram num passado remoto, superado pela modernidade. Cabe-nos pôr as coisas no lugar, mostrando que, no essencial, nada mudou.




*Sociólogo, jornalista e professor na Escola de Comunicações e Artes da USP




laloleal@uol.com.br



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