Educomunicação, didática e razão de ser

No dia 20 de maio do corrente ano, Lúcia Araújo, diretora do Canal Futura, declarou diante de um público que lotava o auditório da …

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No dia 20 de maio do corrente ano, Lúcia Araújo, diretora do Canal Futura, declarou diante de um público que lotava o auditório da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), em São José dos Campos, SP: “A educomunicação não é uma das práticas do Canal Futura, é sua própria razão de ser”.

Semanas depois, no dia 7 de junho, foi entregue, na cidade de Sherbrooke, Canadá, a terceira edição do Prêmio Internacional de Educomunicação. A honraria, oferecida pela Union Catholique Internationale de la Presse (UCIP), com sede em Genebra, Suíça –  foi atribuída a três experiências, uma destacando o papel de um psicólogo e educador de Cuba, Pablo Ramos, criador da organização denominada “Universo Audiovisual del Niño Latino Americano”; uma segunda, destacando o papel de um portal africano (
www.journalismeafricain.com

), voltado para a formação ética de profissionais de imprensa num país onde são raras as oportunidades de preparar jornalistas para atender às necessidades da população, e uma terceira, para o Jornal da Tarde, periódico do Grupo Estado, na cidade de São Paulo, que, aos domingos, em associação com o Núcleo de Comunicação e Educação da USP (NCE/USP),  publica uma página inteiramente dedicada a uma pedagogia diferenciada, que abordada um tema transversal aos conteúdos escolares, propondo o uso dos processos e das linguagens da mídia em sala de aula, a partir da perspectiva educomunicativa (página “Pais e Mestres”).

Entre um acontecimento e outro, no dia 30 de maio, a Escola de Comunicações e Artes da mesma USP decidiu, em reunião de seu órgão máximo, a Congregação da entidade, criar uma Licenciatura em Educomunicação. O curso, com duração de quatro anos, provavelmente receberá seus primeiros vesti-bulandos em 2009.

O que há de comum entre essas ações, envolvendo uma ONG internacional (na Suíça); a mídia impressa (um jornal e uma emissora de TV), os produtores de um portal de internet, um agente cultural de Cuba, além de uma universidade, por sinal a mais importante do Brasil em termos de pesquisa científica? Todos estão sintonizados num único conceito: a educomunicação.

Mas, afinal, o que é “educomunicação”?

O NCE/USP a define como “um campo de ação e de intervenção social em espaços educativos que objetiva criar e manter ecossistemas comunicativos abertos e democráticos, facilitadores do pleno exercício da cidadania”. Como atividade profissional, reúne especialistas voltados para o estudo e o exercício das mediações existentes entre a comunicação, a educação e a cultura. Tem como meta ampliar o coeficiente comunicativo das ações humanas e está presente nos mais diversos setores da sociedade, incluindo o mundo do trabalho, a mídia, a escola, os centros culturais e as organizações não-governamentais.

À primeira vista, o termo parece estranho e abstrato. O que não deixa de ser verdade, por tratar-se de um neologismo desconhecido do grande público até os inícios dos anos 2000. O fato tem levado alguns a lhe emprestar significados particulares dentro das expectativas criadas no passado pelo que tradicionalmente aproximou os campos da educação e da comunicação.

Assim, alguns educadores costumam, por exemplo, identificar a educomunicação com as “tecnologias da educação”, referindo-se ao emprego dos recursos da informação no ensino. Outros a restringem ao esforço de formação de consumidores críticos da mídia, uma área conhecida também por  “educação para a comunicação” (media education).

Por seu lado, há os que entendem fazer educomunicação quando assumem como legítimo o discurso da responsabilidade social e investem no que se denomina como “comunicação educativa” para obter resultados rápidos de mudanças de comportamento junto ao público infanto-juvenil, mediante a atuação de ONGs que trabalham com a mídia.

Já o NCE prefere usar o conceito para designar o conjunto dessas ações, desde que realizadas sob alguns pressupostos, como, por exemplo, o da gestão democrática dos recursos da informação.

Essa foi a perspectiva que distinguiu, por exemplo, a formação oferecida pelo projeto Educom.Rádio a educadores e estudantes de 455 escolas do Município de São Paulo, entre 2001 e 2004: o que o NCE/USP buscou não foi simplesmente o uso do rádio enquanto tecnologia ou linguagem alternativa na escola, mas, sobretudo, o planejamento e a gestão das relações comunicativas entre os pólos formadores da comunidade escolar. Isso explica por que foi justamente uma escola que não havia recebido o equipamento de rádio em decorrência de sua participação no Educom a que mais se distinguiu, nos anos posteriores ao curso. Os professores e alunos, ao entenderem que o importante é o emprego dos recursos da comunicação de forma democrática e participativa, chegaram a criar uma ONG, a partir da qual passaram não apenas a capacitar os novos alunos, como também a assessorar outras unidades escolares em sua região.

Apesar dos exemplos arrolados, o conceito da educomunciação ainda não foi incorporado ao cotidiano de educadores e comunicadores. Prefere-se falar em dois campos que ora se confrontam (educadores condenando a qualidade dos produtores televisivos), ora se aproximam (meios de comunicação investindo em programas educativos), mas que jamais se unem, sob pena de descaracterização recíproca. O mergulho no mundo da comunicação tem sido muito mais uma opção das novas gerações. As mais recentes pesquisas sobre aproveitamento escolar têm mostrado que um número relativamente grande de estudantes abandona a escola por considerar obsoleta a sua didática, enquanto as escolas que ganham visibilidade nos exames do MEC são justamente aquelas que adotam o audiovisual e as linguagens midiáticas em suas práticas curriculares ou extracurriculares.

Para os professores que ainda duvidam da necessidade de uma real aproximação entre esses dois campos, lembramos as palavras de Geneviève Jacquinot, professora da Universidade de Sorbonne, em Paris, pronunciadas em congresso sobre educomunciação ocorrido em São Paulo, em 1998. Segundo ela, não há mais o que temer. A aproximação entre a escola e a comunicação tornou-se compulsória, por várias razões, entre as quais “o fato de que as teorias da comunicação, como as teorias da aprendizagem, atualmente convergem para substituir o paradigma da “transmissão” de conhecimentos, como valores, pelo da “mediação”, compreendida como modelo interpretativo e relacional de apropriação de conhecimentos”.



Ismar de Oliveira Soares é coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da ECA/USP



ismarolive@yahoo.com


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