Educar para…ou na cidadania?

Para atingir tal desiderato, as escolas têm de ser lócus de aprendizagem de cidadania

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Na década de 1970, participei de um encontro de professores no dia seguinte a um ato eleitoral em Portugal. Não conseguia evitar a discussão dos resultados. Perguntei: caros colegas, não quero que me digais qual foi o vosso voto, pois é secreto, mas que citeis propostas dos candidatos que tenham influenciado a vossa escolha. O silêncio foi a resposta. E voltamos ao trabalho…

Nas semanas anteriores a este episódio, no decurso do ato eleitoral para a Assembleia da Escola, os jovens da Ponte analisaram as propostas (as “promessas”) das diversas “chapas” e as debateram. Para terem direito a votar, teriam de provar conhecer as “promessas”. Um jovem de oito anos, candidato à presidência da Assembleia, ofereceu balinhas aos colegas. Quando um dos jovens acabou de depositar o seu voto na urna, eu perguntei: Votaste no colega que te ofereceu as balinhas? O jovem respondeu: Professor Zé, eu aceitei as balinhas que ele me ofereceu, mas não votei nele. Porque não concordo com as “promessas” que ele fez. E, também, porque ele andou a oferecer balinhas…

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Na semana que precedeu o ato eleitoral de outubro, gastei muito tempo a tentar conciliar amigos, que se gladiavam por via de diferentes opções de voto, crentes de que o exercício da democracia se esgota no ato de votar. Visitei escolas onde alunos com capacidade eleitoral discutiam no nível mais baixo do senso comum, influenciados por notícias manipuladas. No final da tarde, expus a minha preocupação aos professores. Enjeitaram responsabilidade, referindo a existência de “uma hora semanal de educação para a cidadania, nas atividades de contraturno”. Talvez esses professores não saibam que não se educa para a cidadania, mas que se educa na cidadania, no exercício de uma liberdade responsável. E que, para atingir tal desiderato, as escolas têm de ser lócus de aprendizagem de cidadania.

Diz-se que o Brasil padece de resquícios de coronelismo, de escravagismo, do sarro de ditaduras. Talvez, mas algo mais determina atitudes como aquelas que presenciamos no decurso da campanha eleitoral e que motivaram o “desabafo” de um prefeito, de quem tenho recebido lições de cidadania: O que o Brasil precisa é de uma revolução ética. O jeitinho brasileiro tem de acabar, somado a esse vício de degradar o concorrente em vez de espalhar virtudes ou ideais em que acreditam.

Após as emoções eleitoreiras, a crise moral permanece e acentuam-se contrastes: cidades sem água versus a Cantareira se esvaindo; pobres poupando o precioso líquido para usufruir um bônus na fatura versus condomínios de luxo enchendo piscinas; o aluno que vai para a escola sem uniforme, porque não há água para lavar roupa, versus uma escola onde se lava a calçada com jatos de água. Antes e depois de eleições, o velho modelo de escola vai produzindo ignorância, reproduzindo injustiça, aprofundando o déficit democrático porque não existe democracia plena se não houver aprendizagem da democracia nas escolas.

No fazer da minha parte, acompanho educadores conscientes da necessidade de uma educação na cidadania, insisto na busca de projetos de erradicação da velha escola. Tenho encontrado muitos. Cada qual a seu modo, alimentam a minha esperança num Brasil melhor, de poder viver num país mais justo, mais fraterno, numa verdadeira democracia.

*José Pacheco
Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
josepacheco@editorasegmento.com.br

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