Educar na bolha

Desigualdade social brasileira e consumismo impõem desafios aos pais

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Cidadania e responsabilidade social são termos da moda. Aplicados ao ambiente escolar, sugerem o conhecimento do outro e o respeito à diferença. Mas como é possível pensar em cidadania quando, nas grandes cidades, os alunos dos colégios ricos vão à escola em carros blindados e desembarcam já dentro do pátio da escola, para evitar assaltos e seqüestros?

“Não adianta levar aluno rico à favela de vez em quando. Isolar não resolve. Tem de dar instrumentos para se defender. Adolescente tem de andar de ônibus, aprender a agir em situação de perigo”, afirma a educadora Olga Santana. “As crianças da classe média hoje estão sempre como medo. Com isso crescem mais bobos, com menos criatividade”, afirma a professora e mãe Paula Perito. “Minha filha tem medo de violência, está sempre insegura. E suas amigas demonstram ainda mais medo”, acrescenta.


A bolha dentro da bolha

A explosão do consumismo é a outra face da bolha. Pode, inclusive, criar uma espécie de bolha doméstica. É comum meninos e meninas de menos de 10 anos de idade terem celular, computador, televisão, videogame, som, tudo no quarto, onde se trancam, fechando-se para o mundo exterior.

Em tempos que associam felicidade a conquistas materiais, não é simples se entrincheirar numa espécie de cruzada contra o consumismo, em benefício da formação dos filhos. Psicólogos e educadores dizem ser possível resistir aos apelos do consumo. Basta dar o exemplo. É o que faz Paula Perito: “Quando minha filha me pergunta por que os coleguinhas todos têm esses aparelhos no quarto e ela não, digo apenas que sou contra. Não é fácil ficar lutando contra tudo isso, mas a gente tenta”, diz ela, referindo-se aos valores que compartilha com o marido, o cartunista Caco Galhardo. “Em casa não vemos televisão, só filmes. Não deixo minha filha assistir a novelas, digo que há coisas mais interessantes a fazer”, conta Paula. “E, como estamos sempre lendo, ela também desenvolveu gosto pelos livros, além do desenho, por ver o pai desenhando todo dia”, acrescenta.


Uma questão de atitude

Muitas vezes dar o exemplo é missão quase impossível. Em um artigo do livro Como Educar meu Filho? (Publifolha, 2003), Rosely Sayão conta a história de uma mãe que saiu para comprar sandálias para sua filha de cinco anos. Só encontrou modelos de um tipo: “Sandálias de salto alto para meninas de cinco anos são apenas um sinal de que a infância está sendo assaltada pelo mundo adulto por todos os lados”, avalia.

Para sair dessa bolha de consumo, talvez só mesmo criando uma nova bolha, em absoluta sintonia com os valores, os hábitos e as atitudes dos pais. É o que recomenda Rosely Sayão, no artigo “Como proteger os filhos da cultura trash”, do mesmo livro. “Não me canso de ouvir os pais dizerem que não dá para brigar com a onipresença desse tipo de música [trash] que está nas rádios, na TV, nas escolas! Na casa dos amiguinhos, nas lojas, nas ruas… E não me canso de dizer que isso não importa. O que importa para a criança é a referência que os pais lhes dão. Basta proibir em casa, não comprar roupas, discos etc. E que ofereçam outras opções aos filhos. O que importa é a ação educativa e coerente dos pais para que os filhos tenham uma referência familiar a esse respeito”, conclui.

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