Educação sobre rodas

Conheça projetos educacionais e culturais que circulam pelo País em carretas, caminhões e até em estações de trem

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Jéssika Torrezan



Em um país continental, educação e cultura às vezes precisam se movimentar para atingir o público. Algumas ações se identificam justamente por sua característica itinerante. Confira a seguir quatro projetos desenvolvidos em diferentes frentes de atuação. Eles visam atender populações carentes, no interior de Goiás, no Maranhão ou no Pará, na periferia de São Paulo e do Distrito Federal. Por meio dessas iniciativas, beneficiam-se brasileiros que não têm recursos para ir ao cinema; que nunca tiveram acesso a um computador; que viajam por 16 horas de trem e, muitas vezes, precisam abandonar as cidades em que cresceram para buscar melhores condições de vida.


Os realizadores desses projetos perceberam a necessidade de ultrapassar os limites das salas de aula, dos cinemas e das bibliotecas. “Muitas vezes, as pessoas que mais precisam da informação não têm como chegar a ela”, afirma Luís Bolognesi, cineasta criador do projeto Cine Tela Brasil, que leva o cinema para as periferias das cidades e para o interior do país.





O cinema amplia repertórios e favorece a reflexão






Com um nome novo, o projeto Cine Mambembe está de volta. Foi rebatizado como Cine Tela Brasil e promove a realização de debates em escolas. Conta agora com apoio empresarial e telas maiores, mas a proposta de alcançar um público que se situa além do circuito tradicional se mantém. Seus diretores são Luiz Bolognesi e Laís Bodanzky, diretora do premiado filme de longa metragem
Bicho de Sete Cabeças,

de 2000.






Em 1997, por meio do Cine Mambembe, o casal viajou durante seis meses pelo interior do País, exibindo filmes nos lugares mais inóspitos. “Eu a Laís pegamos o projetor e a tela emprestados de amigos e fomos para a estrada de picape”, conta Bolognesi. A idéia do projeto surgiu em 1996, quando ainda se dedicavam a produzir documentários. “Nossa maior angústia era saber que a maioria da população não teria acesso ao nosso trabalho. Eles eram exibidos nas mostras, nossos amigos assistiam, mas e aí? Nós queríamos mais, precisávamos dessa interação com as pessoas”.





Essa interação foi vital para a concepção do filme
Bicho de Sete Cabeças

. O roteiro foi escrito pelos dois durante as viagens, que prosseguiram em 1998 pelo Norte e Nordeste. “Acho que o sucesso desse trabalho tem a ver com o contato que tivemos com o público”. Após a exibição de cada filme eram promovidos debates com a platéia. Segundo Bolognesi, o projeto lhes permitiu sentir de perto o que as pessoas esperam de um filme e as diferentes maneiras de interpretá-lo.






Essa viagem também se transformou em documentário. Escrito e dirigido pelo casal,
Cine Mambembe – O Cinema Descobre o Brasil

, de 1999, ganhou prêmios no Brasil e no exterior. Entre eles o de melhor documentário no festival
É tudo Verdade

, que acontece anualmente em São Paulo.






Após a exibição dos documentários nas periferias da grande São Paulo, os diretores constataram que muita gente nunca foi ao cinema, nem assistido a um filme em tela grande. “Nas escolas públicas de São Paulo, 70% das crianças nunca tinham entrado numa sala de cinema”, conta Bolognesi. “No interior do país, esse número chegava a 90%”.





Em 2004 o projeto foi interrompido, mas o casal saiu em busca de parcerias para conseguir reativá-lo. Obteve, então, o apoio da CCR (Companhia de Concessões Rodoviárias), que reúne concessionárias de rodovias como Bandeirantes, Anhangüera e Presidente Dutra. Foi em novembro, ao longo dessas estradas, que o novo projeto
Cine Tela Brasil

teve inicio. Diferentemente do Mambembe, ele possui uma estrutura com telas maiores, além de uma tenda que possibilita a exibição de filmes durante o dia, com capacidade de exibição para mais de 200 pessoas.






A primeira etapa do projeto vai percorrer as cidades do interior de São Paulo, ao longo das estradas Anhangüera e Bandeirantes. “O cinema amplia o repertório, favorece a reflexão, apresenta novas sintaxes e leva as pessoas a lugares que elas talvez nunca teriam imaginado”, afirma Bolognesi. “Achamos essencial democratizar este meio de comunicação”.






Gestão ambiental e turismo: fatores de desenvolvimento






A preocupação com a consciência ambiental e a formação de pessoas que não têm acesso a escolas profissionalizantes motivaram a fundação Pró-Cerrado a desenvolver, desde 2002, o seu projeto itinerante de educação. Trata-se de um projeto multidisciplinar, desenvolvido no interior de Goiás e Tocantins, abordando temas, como educação, ecologia e desenvolvimento sustentável. As unidades móveis do projeto atenderam 4 mil pessoas nestes dois anos.





Seu objetivo é estender aos habitantes da periferia das cidades e à população do interior desses Estados a possibilidade de completar seus estudos ou de acompanhar cursos profissionalizantes. “A dificuldade estas pessoas enfrentam é imensa”, afirma Adair Meira, secretário-geral da Fundação Pró-Cerrado. “Por isso a importância social desta iniciativa”.





A estrutura atual é composta por três carretas, de 15 metros de comprimento cada, nas quais cabem duas salas de aula ao mesmo tempo. “Além das salas de aula, o maior benefício do projeto é a interação com o ambiente, que oferece mais oportunidades de aprendizado”, explica Meira. O coordenador cita como exemplo as aulas de ecoturismo, gestão ambiental e turismo rural. “O ensino torna-se muito mais fácil quando a realidade dos alunos é incorporada ao conteúdo das aulas”.





A conscientização ecológica se torna muito mais importante quando abordada na periferia. “Para os indivíduos com maior poder aquisitivo é até mais fácil uma relação com o meio ambiente”, avalia Meira. “No interior e nas periferias, porém, muita gente não tem noção dos motivos pelos quais é preciso preservar a natureza”.





O desenvolvimento regional e sustentável é um outro aspecto do projeto. Segundo Meira, apesar de poderem continuar os estudos nos locais em que moram, muitas pessoas partem para as capitais em busca de melhores condições de vida. “Tem gente que prefere um sub emprego nas capitais a continuar como pequenos produtores em suas cidades. Por intermédio dessa capacitação, estimulamos o desenvolvimento local. Nós provamos que tanto a região como seus habitantes são capazes de prosperar”.





O impacto da chegada das carretas na cidade funciona como chamariz para as atividades: “As crianças geralmente vêm na frente, querendo saber do que se trata. Logo, os pais descobrem que também há cursos para eles e trazem os outros filhos”.





Meira define o projeto como uma possibilidade de ampliar os horizontes. “Os cursos podem ser definidos como uma forma de mostrar que as pessoas podem fazer o que gostam na vida”.







Nova tecnologia para a inclusão digital






As cidades satélites do Distrito Federal abrigam um projeto-piloto de inclusão digital bancado pelo MEC. Por meio de uma parceria entre o Ministério da Educação e a Intel, empresa de telecomunicações, um caminhão leva a alunos e professores da rede pública computadores de tecnologia avançada, com internet sem fio, a chamada tecnologia
wif

– em que os computadores não precisam de cabos para se conectar.






“Os laboratórios de informática da maioria das escolas não atendem às necessidades dos alunos”, explica Flávio Freddi, gerente de programas de marketing da Intel Brasil. “Além das aulas específicas de informática, o projeto possibilitou aos professores o emprego da tecnologia para dinamizar as disciplinas curriculares”.





O caminhão transportando os computadores circulou por cerca de 45 dias entre as cidades-satélites. Onde parava causava alvoroço. “Muitas pessoas tomaram contato com um computador pela primeira vez”, conta Freddi. Ele lembra que o projeto não era exclusivamente educacional. “Queríamos ressaltar também a parte cultural, a possibilidade das pessoas poderem acessar a internet, baixar jogos, música e também aprender”. Além disso, com esta nova tecnologia a conexão fica muito mais rápida e com menos chances de falhar.





O uso dos computadores nas salas de aula, segundo o gerente, favorece uma interação maior com o assunto. “Para aprimorar o aprendizado, altera-se a tradicional disposição com professor falando na frente da sala e o aluno ouvindo na carteira”. Os mais de 15 mil alunos que passaram pelo projeto concordam e apóiam a iniciativa.





Por enquanto, esta tecnologia de conexão sem fio é muito recente e não existem planos de utilizá-la em larga escala no Brasil, mas, num futuro próximo poderá se tornar uma das ferramentas para promover a inclusão digital da população, especialmente a de baixa renda. “Essa nova tecnologia nos permite chegar a lugares que um cabo de internet não chegaria”, diz Freddi.






Uma televisão interativa sobre trilhos






Uma estação de trem, um canal de televisão, uma das maiores empresas mineradoras do mundo e a idéia de um funcionário de juntar todas estas coisas para promover a educação de uma parcela específica da população do Maranhão e do Piauí. Assim nasceu o projeto
Educação sobre Trilhos

, uma parceria da Companhia Vale do rio Doce e do Canal Futura, que utiliza cinco estações de trem nos dois Estados para desenvolver projetos educacionais.






“As pessoas não tinham o que fazer enquanto esperavam o trem”, lembra Ana Paula Gaspar, gestora de projetos da Fundação Vale do Rio Doce. “A partir desta idéia daquele funcionário, começamos a definir as ações”.




O projeto atua em três etapas: na estação de trem, dentro do trem e nas cidades, registrando o cotidiano dos moradores, nas estações de



São Luís, Santa Inês e Açailândia no Maranhão e Marabá e Parauapebas, no Pará.










Na primeira fase, chamada de “Estação do conhecimento”, os passageiros de trem desenvolvem atividades lúdicas, oficinas e debates baseados no conteúdo apresentado pela televisão. “São elaborados programas que tratam de temas como saúde, educação, cidadania”, explica Ana Paula. Na segunda fase do projeto, o “Teletrem”, são exibidos programas do canal Futura, durante as 16 horas de viagem. “Nossa intenção não é estritamente educacional, mas também de entretenimento”, explica Ana Paula.






Com o desenvolvimento do projeto, vieram as reclamações: as pessoas que fizeram os programas não eram as mesmas que assistiam. “Os passageiros consideravam os programas muito ‘sulistas”, afirma João Ferraz, responsável pelo projeto no Canal Futura. “Nós decidimos, então, realizar novos programas que abordassem a realidade e a cultura destas pessoas, que é muito rica”. Assim nasceu a terceira etapa do projeto: os programas “Recortes do Brasil”, que estão incluídos na programação do canal.





“Com isso conseguimos registrar culturas muito ricas, às vezes desconhecidas do resto do País”. O projeto
Educação sobre Trilhos

também está presente, desde o ano passado, em outras cinco estações de trem em Minas Gerais e no Espírito Santo


: Belo Horizonte, Governador Valadares e Aimorés (MG), Baixo Guandu e Cariacica (ES).



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