Educação portátil

Projeto UCA testa viabilidade de se distribuir laptops para alunos e, assim, fazê-los participar de redes de estudo e conhecimento fora das salas de aula

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Alunos de escolas públicas do Rio de Janeiro manipulam laptop do Projeto UCA e o modelo Classmate, no detalhe: em busca de novos modelos para incorporar a tecnologia à educação

No próximo mês de maio, cada um dos 398 alunos do Centro Integrado de Educação Pública Rosa da Conceição Guedes, localizado no município de Piraí (RJ), vai receber um laptop para utilizar nas atividades em sala de aula e em casa. Eles fazem parte de um grupo de estudantes de quatro Estados – São Paulo, Rio Grande do Sul, Tocantins e Rio de Janeiro – e do Distrito Federal que estão participando de uma nova experiência para o uso da tecnologia em educação: o projeto UCA (Um Computador por Aluno).

Como o nome sugere, o projeto consiste na distribuição de computadores a estudantes para uso pessoal. Os professores das turmas envolvidas também receberão unidades pessoais, criando-se um ambiente para aprendizagem diferente daquele baseado na lousa, no giz e no caderno. "Estamos testando um novo princípio pedagógico para verificar os impactos do uso da tecnologia na educação em um modelo diferente do tradicional", explica José Luiz Maio de Aquino, assessor especial da Presidência da República e membro da equipe de coordenação do projeto.

A idéia, no entanto, não é unanimidade. Alguns críticos acreditam que deriva de uma forte pressão de corporações para a venda de computadores (leia entrevista de Gilson Schwartz na página 23). Outros, como o empresário do setor de informática Carlos Rocha, que participou de duas reuniões de apresentação do projeto a convite do governo, dizem que não há objetivos definidos. "Não há orçamento e a eficácia dos princípios que o orientam não foram testadas em nenhum lugar do mundo. Os recursos a serem destinados a este projeto seriam mais bem aplicados em capacitação de professores e em outras iniciativas para melhorar a qualidade do ensino", defende.


Laboratórios versus mobilidade

Normalmente, os alunos têm acesso a computadores nos laboratórios de informática. Dentro desse modelo, as máquinas são usadas de maneira coletiva em horários limitados e para atividades determinadas. "Apesar de se ter avançado bastante no Brasil, o investimento em laboratórios ou salas de informática, que era o modelo global, não apresenta os benefícios esperados. Esses laboratórios acabam funcionando como se informática fosse mais uma disciplina que não interfere no currículo", afirma Léa Fagundes, pesquisadora do Laboratório de Estudos Cognitivos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora do projeto no Estado. "Desse modo, não se constrói uma educação voltada a um mundo de mídias digitais, para a cidadania numa sociedade do conhecimento", analisa.

Como explica a professora de ciência da computação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenadora do projeto UCA em Piraí, Maria Helena Horta Jardim, a distribuição de laptops faz parte de uma outra estratégia, que prevê o uso do computador como uma ferramenta didática que favorece o estabelecimento de uma relação mais ativa do aluno com o conhecimento, ao mesmo tempo em que viabiliza a criação de uma cultura digital de fato na sala de aula, na escola e na comunidade. "É uma experiência que pode contribuir para melhorar a situação do Brasil na área da educação, porque obriga a repensar o desenho da escola enquanto espaço de aprendizagem, assim como o papel do professor e do aluno", comenta Maria Helena.


Instrução ou construção?

Para a professora Léa, o que está em jogo é a superação da "escola instrucionista", que se preocupa em ensinar os conteúdos programáticos do currículo. "Estamos propondo a ‘escola construcionista’. O que os alunos vão aprender nela? A construir conceitos e sistemas de conceitos novos, a inventar, a desenvolver continuamente sua inteligência, a julgar com ética, a fruir a estética, a expressar-se, a comunicar-se, a conviver. Isso se dá aprendendo a pensar agindo e operando sobre os objetos do conhecimento", explica. Nesse contexto, defende a pesquisadora, o laptop é um "objeto privilegiado", pois favorece a interação entre alunos e destes com professores e outros sujeitos. "Sua curiosidade deve ser continuamente despertada para que eles possam fruir a liberdade de inventar, de descobrir e reinventar."

Os computadores usados no projeto UCA não são laptops convencionais. São plataformas desenvolvidas especialmente para o uso educacional, conforme o conceito desenvolvido pela organização não-governamental One Laptop per Child (em português, Um Laptop por Criança), criada pelo pesquisador Nicholas Negroponte, um dos fundadores do Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT). A OLPC desenvolveu o XO, uma plataforma modelada para o uso educacional e para o manuseio de crianças, que tem no baixo custo seu maior atrativo: US$ 150. A idéia é viabilizar o acesso de crianças de países pobres a uma educação de qualidade por meio do uso da tecnologia.


"É preciso aprender a pensar agindo e operando sobre os objetos do conhecimento", diz Léa Fagundes, do Laboratório de Estudos Cognitivos da UFRGS

No projeto UCA estão sendo testadas, além do XO, outras duas máquinas desenvolvidas para a educação: o Classmate PC, da Intel, e o Mobilis, do grupo indiano Encore, ambos elaborados a partir dos motes da inclusão digital e da melhoria da qualidade da educação por meio da tecnologia. "As novas tecnologias de baixo custo permitem rever o modelo de laboratório que prevalece na educação", analisa Carlos Luzzi, diretor de Programas Estratégicos da Intel Brasil.

O XO será utilizado em São Paulo e no Rio Grande do Sul. O Classmate, no Rio de Janeiro e em Tocantins. No Distrito Federal, será testado o Mobilis. Os três laptops têm características comuns: são compactos, leves e resistentes. Não possuem disco rígido, mas cartão de memória. Estão ligados a um servidor localizado na escola (que armazenará os dados). Também se conectam à internet de banda larga sem fio, sendo interligados por meio de uma rede própria chamada "mesh". Através dela, os alunos podem compartilhar atividades.


Aulas monitoradas

Os equipamentos também contam com softwares e aplicativos educacionais. O Classmate PC tem um sistema de gerenciamento de aulas que permite ao professor controlar o uso que os alunos fazem dos computadores – o docente pode, por exemplo, definir os sites aos quais os alunos terão acesso, além de monitorar o que cada estudante está fazendo. O XO possui recursos para a realização de experimentos científicos: podem ser adaptados sensores nas entradas de som para recolher e registrar dados sobre seres e fenômenos da natureza.

Dependendo dos resultados da experiência, que durará até o fim do ano, o governo brasileiro poderá comprar laptops em larga escala para alunos das escolas públicas. "O número de computadores a ser comprado ainda não está definido. Pode ser um milhão, pode ser um número maior ou menor. Depende dos testes", afirma o assessor da Presidência, Aquino. "O que pretendemos, com certeza, é ampliar a experiência no próximo ano."

De acordo com o diretor do Departamento de Infra-Estrutura Tecnológica da Secretaria de Educação a Distância (Seed/MEC), Espartaco Madureira Coelho, o projeto testará a funcionalidade pedagógica da máquina em sala de aula. "Será possível avaliar questões como capacitação de professores, funcionalidade, condições de uso, interatividade entre os alunos e segurança dos aparelhos na escola."

Serão feitos testes para avaliar os aspectos técnicos – resistência, durabilidade, entre outras coisas – e pedagógicos. Também se levará em conta a infra-estrutura necessária para implantar o sistema nas escolas  – é preciso ter desde tomadas capazes de carregar as baterias dos laptops até uma antena para viabilizar a conexão sem fio com a internet. Essas são questões importantes quando se pensa na implantação de um projeto desse tipo em larga escala, afinal, muitas escolas terão de ser adaptadas para o projeto.

No âmbito pedagógico, será avaliado o impacto sobre o processo de aprendizagem e a qualidade do ensino. O resultado, afirmam os pesquisadores e técnicos envolvidos no projeto UCA, ainda é uma incógnita. "De antemão, sabemos que o projeto não terá um impacto negativo sobre a educação. A questão é saber se vai melhorar e quanto", afirma Aquino. Mas, como lembra a professora Maria Helena, é necessário arriscar e experimentar. "O desenho da escola tem de ser pensado em função do futuro. A revolução é muito rápida, por isso é preciso ousar", assevera a educadora.



Aposta no conteúdo local




Para o coordenador da Cidade do Conhecimento, centro de pesquisa da USP, a educação crítica pode levar a uma vida digital emancipada


Gilson Schwartz

Gilson Schwartz, economista e sociólogo, é coordenador da Cidade do Conhecimento, um centro de pesquisa e extensão da USP que promove desde 2000 a incubação de redes de projetos por meio de sistemas de informação para a inteligência coletiva, desenvolvimento de mídias como TV digital e telefonia celular, educação a distância e governo eletrônico. A seguir, ele fala sobre a importância de incluir a emancipação digital na agenda política brasileira.


Qual o papel da inclusão digital na educação?

O uso de mídias e ferramentas digitais tornou-se um novo paradigma na sociedade contemporânea. Surgem a cada momento novas formas de "vida digital". Na educação, as novas possibilidades convivem com velhos desafios, as falhas herdadas – da alfabetização ao ensino superior – parecem amplificadas e mais complexas sob o filtro das mídias e ferramentas digitais. A educação tem um papel a cumprir nessa reinvenção das nossas formas de vida, de aprendizado e criação. Ao mesmo tempo, somente a educação "contra o digital" – ou seja, uma educação crítica, contextualizada, consciente dos riscos – poderá levar a uma vida digital emancipada, ou seja, com autodeterminação dos indivíduos no processo.


O senhor prefere "emancipação digital" a "inclusão digital". Por favor, explique.

Emancipação digital é a inclusão que se faz pelo e para o conhecimento, visando a produção de conteúdo em contextos locais. Emancipação é colocar o conteúdo local em primeiro plano, em vez de apostar em xaropes universais supostamente infalíveis. É algo mais que a mera generalização de modelos do tipo "elixir do faroeste", caso da solução One Laptop per Child (OLPC), que tem sido propagada pelo Media Lab do MIT. Felizmente, ela ainda não foi colocada em prática pelo governo brasileiro, apesar do intenso lobby realizado por algumas empresas e grupos com interesses imediatos no projeto. A Índia, por exemplo, recusou esse projeto. A China, que acaba de comprar a fábrica de PCs da IBM, está muito interessada em vender computadores a preço de banana para o mundo todo. Podemos incluir digitalmente os pobres num modelo de negócios como esse. Mas seria mera inclusão. Prefiro pensar grande, colocando em primeiro plano as agendas locais e nacional de uma política brasileira de emancipação digital. É uma réstia de utopia que ainda resta.


Quais os mitos em torno da inclusão digital?

O maior mito é o de que o "digital" constitui um "novo mundo". Não, o mundo é o mesmo. O digital às vezes até aprofunda as mazelas atuais. De outro lado, ficar totalmente de fora disso é uma forma nova de suicídio.


De que maneira a inclusão digital pode melhorar a vida das pessoas?

Propiciando oportunidades de conhecimento. Defendemos a inclusão das pessoas no conhecimento, não no digital em si. O digital é um meio. As pessoas serão ajudadas se tiverem clareza dos fins.


A inclusão digital pode melhorar um país?

Creio que sim. Sistemas mais descentralizados e transparentes são o ideal de uma democracia participativa. Pelas características de portabilidade, ubiqüidade, interatividade e colaboração, a emancipação digital pode contribuir para a emergência de uma sociedade mais informada, consciente e civilizada. Ao mesmo tempo, os riscos são igualmente monumentais: perda de privacidade, quebra de contratos, ocultação ou manipulação de informações e muitas outras novas formas de quebra da integridade cívica das pessoas e organizações.


Na prática, o que lhe parece mais adequado: grandes políticas nacionais ou  iniciativas específicas?

Nem oito nem oitenta. Fala-se muito em agir local e pensar global. O pensar global é também uma ação. E o agir local exige também um novo pensamento, que seja mais pragmático, focado num ponto mais atento ao contexto; situacional mas, em alguns casos, muito inovador e até revolucionário.


Qual é sua opinião sobre as políticas públicas de inclusão digital?

No Brasil e no mundo, estamos na "proto-história" em termos de inclusão digital. Em 2006, depois de muitos anos, percebeu-se que a sociedade da informação não vingará sem uma economia do conhecimento. Houve um aprendizado importante, nos últimos anos. Há esforços de sistematização, pesquisa, experimentação e crítica. Os grupos de pesquisa, de militância e de gestão pública associados a essa agenda são cada vez mais numerosos no Brasil e em outros países. Infelizmente, essa evolução tem sido muito lenta. Ao mesmo tempo, o aprendizado ocorre. No Brasil falta ainda uma estratégia nacional para o desenvolvimento socioeconômico com base no conhecimento. Ainda estamos na "fase oral", ou seja, a fase das declarações genéricas e retóricas de apoio ao "tudo pela educação". Países como o México, e principalmente os asiáticos, estão muito à frente.

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