Educação no pódio

Jonathan Grix sugere fazer do esporte uma oportunidade de negócio

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Professor de políticas do esporte explica como a Universidade de Birmingham transformou o investimento no setor esportivo em oportunidade de negócios a partir da realização dos jogos olímpicos em Londres

por Melissa Becker, de Birmingham (Inglaterra)

183_15A conquista de uma medalha olímpica também pode passar pelo ensino superior, agregando valor tanto à trajetória do aluno quanto à instituição universitária. Quem atesta é o professor Jonathan Grix, de políticas do esporte da Universidade de Birmingham. A instituição, que está localizada na região central da Inglaterra e é referência naquele país na área esportiva, conta com diversos atletas olímpicos entre seus estudantes e chegou a servir de local de pré-treinamento para a equipe jamaicana de atletismo na época dos jogos de Londres em 2012.

Para Grix, com o investimento nas estruturas certas as instituições de ensino superior são capazes de promover o esporte em todos os níveis – do escolar ao de alta performance. “A educação superior tem um grande papel a cumprir para o desenvolvimento do esporte no futuro”, garante o professor.

A experiência da Universidade de Birmingham tem inspirado o governo brasileiro na preparação do legado que a realização das Olimpíadas no Rio de Janeiro poderá deixar para o país. Parceiros por meio de um termo de cooperação assinado em 2012, o Ministério do Esporte no Brasil e a universidade inglesa, discutem formas de aprimorar o desempenho do Brasil, enfocando na base do projeto a educação. Na pauta das discussões estão a política de esporte nas escolas e como o legado das Olimpíadas irá impactar as quadras dos colégios brasileiros.

Grix ainda faz parte de um grupo de especialistas de diversos países (sendo metade de perfil acadêmico e a outra proveniente da área de políticas públicas) para debater as melhores práticas relacionadas ao esporte empregadas ao redor do mundo e como o Brasil poderá usar as Olimpíadas para dar seu pontapé inicial numa política educacional desportiva.  “A prioridade é ter o esporte nas escolas resolvido. Uma vez que se tem um sistema para isso, é possível começar a pensar em identificação de talentos”, explica o professor britânico.

Na entrevista a seguir, Grix comenta o trabalho da Universidade de Birmingham na área esportiva, que, além da parceria com o governo brasileiro e entre outros projetos, também mantém um acordo com a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Para o professor, as Olimpíadas Rio 2016 podem representar ainda uma boa oportunidade de negócio para as universidades privadas brasileiras.

Ensino Superior: Qual a perspectiva quanto à educação superior em sua parceria com o governo brasileiro?
Jonathan Grix: Quando estivemos no Ministério do Esporte, a pergunta que ouvimos foi: como o Brasil pode se posicionar entre os dez primeiros medalhistas olímpicos? Além de muito investimento, uma coisa que pode ser feita é usar as universidades. Essas instituições estão se tornando um centro efetivo para o desenvolvimento, não apenas de esportes olímpicos, mas de atividades físicas para a comunidade e, no caso da Universidade de Birmingham, para escolas locais. Então, é algo que perpassa todos esses níveis. O futuro que vejo é: o papel da universidade no desenvolvimento do esporte será cada vez maior. Não há muita pesquisa sendo feita nisso.

Quando o senhor menciona as universidades como um centro para esporte, quer dizer globalmente?
Vejo isso em certos países que vão muito bem nos esportes. Os Estados Unidos, obviamente, porque fazem isso há anos, mas também o Reino Unido, a Austrália, o Canadá – esses países usam, cada vez mais, as universidades como um “hub” para alcançar esses três níveis. Em longo prazo, aqueles países que desejam ser muito bons em esporte irão provavelmente seguir um modelo semelhante.

Esse tipo de investimento, na verdade, leva anos para mostrar resultados na tabela de medalhas olímpicas.
Sim, com certeza. E dependem de investimentos públicos também.

Haveria planos para a criação de uma universidade do esporte no Rio, e o governo brasileiro se interessou no modelo da Universidade de Birmingham. Em quais aspectos os representantes do Ministério do Esporte buscam inspiração?
O que atraiu o governo brasileiro é o modelo que a Zena Wooldridge [diretora de Esporte da Universidade de Birmingham] gerencia aqui, que necessita apenas de um pequeno subsídio de fora. Desenvolvemos um sistema cujas estruturas necessárias utilizadas podem ser pagas por outros, numa espécie de financiamento, e então se pode canalizar esses recursos para a alta performance. Nosso novo centro esportivo em construção irá beneficiar os alunos-atletas, atletas de elite que ganham uma bolsa para estudar aqui. Ou seja, pessoas que irão para as Olimpíadas. Atletas que moram próximo ao campus pagam para usar nosso equipamento antigravitacional, onde, por exemplo, quem tem uma lesão pode correr. Isso é um pequeno negócio dentro de um maior. Também há atividades para quem quer se manter em forma e para crianças. Cada aula custa £ 5 (cerca de R$ 20). Se a estrutura existe e o investimento já foi feito, a questão é como se usa. A ideia da Zena é que, com qualquer quantia economizada, se pode atrair um atleta de ponta para a universidade, como Hannah England, uma corredora britânica que treina com a gente. Outros atletas sabem disso e querem vir também. É um jeito de promover a universidade. Em termos de reputação, o efeito é quase imediato, mas no momento é difícil dizer em quanto tempo teremos o retorno financeiro. É mais sobre assegurar seu lugar no mercado agora.

Isso pode ser aplicado no contexto brasileiro?
André Arantes [diretor do Departamento de Esporte de Base e de Alto Rendimento do Ministério do Esporte] ficou muito interessado em nosso sistema, e não disse que não poderia ser feito no Brasil. Não consigo ver por que não poderia funcionar.

De que forma você vê isso como uma oportunidade para as instituições de ensino superior privadas no Brasil?
Não sei como são as instalações esportivas dessas instituições. Visitamos uma delas, com estrutura fantástica, mas ninguém estava usando. A falta de aproveitamento do espaço prejudica o modelo de negócio. Nosso centro é projetado para funcionar em toda sua capacidade todos os dias, das 6h às 22h. Consegue-se o número máximo de pes­soas, o que é bom para mantê-las ativas e também para o negócio. Se as universidades privadas puderem fazer isso, há chances de terem um papel maior no desenvolvimento do esporte no Brasil, pois tenho certeza de que, também, há problemas com obesidade ou de falta de exercício físico, que poderiam ser resolvidos com essas atividades. São mais de duas mil universidades brasileiras, então, se houvesse esse número de instituições oferecendo estrutura esportiva para os estudantes, muita gente seria beneficiada.

Difícil dizer sem conhecer profundamente o sistema. Não sei se é permitido, mas se eu fosse uma instituição privada no Brasil, tivesse uma estrutura nova e dinheiro para investir, usaria a animação gerada por esses jogos para ter pessoas usando minhas instalações. Talvez, para isso, seja necessária uma mudança de mentalidade. No lado social, os moradores de favelas não podem usar estruturas existentes. Se você pensa na parte de negócios primeiro, você pode pensar no lado social depois, porque provavelmente se poderá gerar recursos suficientes para permitir subsídios.

O que as Olimpíadas de Londres trouxeram de positivo para as universidades britânicas?
As universidades foram usadas mais no alicerce para as Olimpíadas e se beneficiaram disso. Serviram como locais de aclimatação para atletas, devido às suas instalações. Os voluntários foram treinados na Universidade de Loughborough, a instituição britânica top para esporte. O que vemos pelo Reino Unido, e há um longo caminho para o Brasil, são institutos financiados pelo governo e centros de treinamento sendo alocados em universidades. Na Universidade de Birmingham, temos um grupo especializado em corrida a distância. Clubes de corrida tradicionais estão se tornando menores, enquanto as universidades estão ficando maiores. Em uma tarde de quarta-feira, há 100 pessoas na nossa pista de corrida. Esse tipo de sistema, em alguns aspectos, está competindo com clubes tradicionais.

Devido ao tamanho do Brasil, outras regiões podem sentir que não se beneficiam tanto com as Olimpíadas quanto o Rio. Pode ser uma oportunidade para instituições em todo o país?
Pode ser, mas a realidade é que quanto mais próximo da sede, melhor. Se sou uma equipe estrangeira, não vou querer estar longe, viajar cinco horas de avião. Preciso estar próximo de onde ocorrerão os jogos. Mas depende da universidade, da estrutura e dos fundos que se tem. Por razões não geográficas, como uma universidade especializada em corrida a distância, por exemplo, pode acontecer.

Qual é o tempo estimado para vermos os resultados da parceria com o governo brasileiro?
É algo mais em longo prazo do que as Olimpíadas no Rio em 2016. O desejo é enfocar o esporte nas escolas, porque esta é a base. Os resultados finais levam de 10 a 15 anos, se começarmos amanhã mesmo e com o investimento certo. Os megaeventos oferecem uma via rápida para problemas, questões ou políticas. Eles fazem coisas acontecerem em quatro ou cinco anos, quando normalmente se levaria muito mais tempo. No entanto, há esses momentos no ciclo das políticas que podem realmente acelerar os processos.

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