Educação é tarefa da escola

A educação dos pobres não é impossível, mas indispensável. Se a educação não for melhor do que o país, não sairemos do lugar

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Comecemos esse diálogo desconstruindo alguns mitos. O mais nocivo destes sobre a educação brasileira é a crença de que a nossa triste situação na área se deve à pobreza do país. A idéia é de que, a partir de um certo nível de pobreza familiar, a criança seria irrecuperável. A única saída seria melhorar seu entorno social. Ato contínuo, o professor se desobriga da função de ensinar ou, pelo menos, torna-se mais complacente com o próprio fracasso, já que o problema seria sistêmico.

O
Perfil dos Professores Brasileiros

, levantamento da Unesco, atesta isso claramente: 78,3% dos entrevistados apontaram apoio e acompanhamento familiar como fatores determinantes para o ensino. Só 31,9% mencionaram a competência do professor. O excepcional
A Escola Vista por Dentro

, de João Batista Araujo Oliveira e Simon Schwartzman (Alfa Educativa Editora), mostra que a principal razão pela qual os alunos não fazem o dever de casa, segundo os professores, é que os “pais não ajudam e atrapalham”. Segundo 77% dos professores da rede pública, a repetência é causada pela “falta de interesse do aluno”; 67% culpam sua “falta de base”. E a responsabilidade do professor? Ínfima, segundo os próprios. Só 5,5% atribuem a reprovação à “má qualidade do ensino”.

Essa é uma visão totalmente invertida do problema. A educação não é impossível em condições de grande pobreza. Os milhares de casos de sucesso nas escolas públicas das áreas mais pobres do país que o digam. Pra quem gosta de exercícios de lógica, basta pensar que, em algum momento, mesmo as sociedades mais desenvolvidas começaram do zero. Nem os países europeus vieram ao mundo com sistemas de ensino massificados. Também lá os primeiros alunos tinham pais analfabetos e pobres.

Há exemplo mais recente. Na década de 70, o Brasil tinha renda per capita muito maior que a dos Tigres Asiáticos. Isso não impediu que esses países, então paupérrimos, desenvolvessem em um par de décadas aquele que é hoje um dos melhores sistemas de ensino do mundo. A educação de pobres não é impossível. É indispensável. Para o brasileiro pobre, a escola é a única linha de salvação da barbárie à qual ele foi condenado no berço. Se não recebe educação de qualidade, encerra-se sua chance de ascensão social.

É mais difícil o ensino de crianças pobres, sem acesso a bens culturais, sem o apoio dos pais? Sem dúvida. Mas isso não torna o professor descartável – torna-o imprescindível. Quanto pior a situação, mais importante o professor e a escola. Sempre que digo isso, alguém responde que não se pode esperar milagres da educação. Que se o país todo vai mal, não é a educação que conseguirá ir bem. Ora, se a educação não for melhor que o país, o Brasil nunca sairá do lugar. E, a bem da verdade, hoje a educação brasileira vai bem pior do que o país como um todo. Não precisamos de nenhum “milagre”. Basta, por exemplo, se comprometer com uma meta simples: todo aluno alfabetizado no final da primeira série. Já seria um enorme começo.




Gustavo Ioschpe é mestre em desenvolvimento econômico pela Universidade Yale, com especialização em economia da educação.

e-mail:



desembucha@uol.com.br



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