Doutor Didi

Embaixador do Unicef, formado em advocacia e eterno Trapalhão, Renato Aragão usa sua figura pública em defesa dos direitos de crianças e adolescentes.

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Por Faoze Chibli



No Brasil, basta ter um terno, um carro ou um diploma para ser chamado de doutor. Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgina Mufumu não é nome de doutor. Nem o personagem de Renato Aragão tem cara de doutor. Mas Antônio Renato Aragão é doutor, sim. Ainda mais na pequena Sobral (CE), onde nasceu em 1935. Aragão é formado em direito pela Universidade do Ceará. “Era advogado, mas abandonei a profissão para não comprometer a classe. Decidi ser palhaço”, ironizou o trapalhão em entrevista concedida nos anos 70 a Carlos Heitor Cony, jornalista e escritor, para a falecida revista Manchete.

O lado advogado, devidamente inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, revela a personalidade banalizada pela tela massiva. Quando se escava um pouco, emerge um sujeito que, de um lado, é comparado a Charles Chaplin e, de outro, acusado de fazer filmes de baixa qualidade. “Chaplin é Chaplin. Eu sou Renato Aragão, de Sobral”, rebateu na Manchete. Aragão relatava o grande problema que arrumara por levar um parafuso à boca em um de seus filmes. O público de Didi são crianças e os pais ficaram irados. Cony havia provocado, dizendo que Carlitos comera o cadarço do sapato em um filme.

“A resposta dele foi boa. Mas eu podia argumentar, lembrando que Chaplin também foi esnobado por muita gente. Shakespeare era apenas um ator circense que escrevia suas peças em cima da perna para ter um texto qualquer na hora do espetáculo. (…) Em todo caso, não era minha obrigação corromper a inocência do Renato Aragão – humilde palhaço eletrônico que distrai as crianças de hoje”, emociona-se Cony no prefácio do livro de Aragão, lançado em 2004, Amizades sem Fim (Mondrian, 216 págs., R$ 26). Na obra, o escritor não brinca. Conversa com adultos e fala de religião, drogas e outros assuntos. Embora o cearense se considere apenas um cômico, aquele que encena uma piada, as semelhanças entre Didi e Carlitos não se restringem à subjetividade jornalística.

Chaplin percebeu a subjugação dos artistas frente ao poder das produtoras e criou a United Artists (Artistas Unidos), estúdio de produção e distribuição de filmes. Antonio Renato Aragão também decidiu fazer os próprios filmes. Abriu, em 1976, a Renato Aragão Produções Artísticas Ltda. Além dos longa-metragens, a empresa cuidaria dos negócios dos integrantes dos Trapalhões. O incentivo para que Aragão abrisse sua própria empresa é explícito: desde 1966, ele faz em média mais de um filme por ano, contabilizando 43 trabalhos até o momento.

Chaplin era crítico de uma era. Isso lhe custaria ser extraditado dos EUA nos anos 50, quando os norte-americanos encontravam comunistas debaixo da cama. Apesar de basear trabalhos seus em autores como Shakespeare e Leon Tolstoi, ele não é exatamente um artista político. Seu humor fácil agrada crianças e o erotismo de seus quadros humorísticos cativa adultos. Críticos como Eron Fagundes consideram os trabalhos de Aragão repetitivos, dirigidos a um público “sem capacidade para uma elaboração maior do pensamento”, como disse no portal DVD Magazine, na internet.




Herói atrapalhado


O próprio Fagundes, entretanto, cita Fatimarlei Lunardeli, ensaísta que defende Didi como expressão cultural brasileira. Já Cony louva o Trapalhão por tratar de maneira simples temas complexos, como espiritualidade. É notável o fato de Aragão ter sido condecorado com a admissão na Ordem Nacional do Mérito Educativo, em grau de oficial, por indicação do Ministério da Educação, em 1994. Heróis têm medalhas e Renato Aragão tem um quê de herói atrapalhado. Escalou o monumento do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro (RJ), sobreviveu a uma queda de avião quando estava na faculdade.

Isso pesa no imaginário do brasileiro, que não tem Super-Homem ou Agente 007. Aliás, Roger Moore, famoso 007 e embaixador do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), esteve na solenidade em que Aragão foi empossado como embaixador da entidade, em 1991. O Criança Esperança, campanha do Unicef e da Rede Globo pela arrecadação de verbas para entidades assistenciais, existe há 18 anos e tem a imagem de Aragão a sua frente. O ator visita ainda programas do Unicef em todo o Brasil e no exterior – foi à Angola apoiar ações pelas crianças vítimas da guerra.

Por trás da aura de figura pública, Renato Aragão não deixa de ser um caso de rebeldia educacional. Se um presidente sem diploma suscita debates, um palhaço advogado deveria fazer pensar também. A trajetória de Aragão é, de certa forma, uma resposta à chatice da tradição, inclusive no ensino. O artista foi contra a própria família, que se sacrificou para que ele estudasse. Apenas a esposa o apoiou de início. Para quem conseguiu atingir certa estabilidade ainda jovem, ele ousou bastante. E se deu bem.



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