Dos conventos ao século 21

Histórias do São Luís e do Lourenço Castanho resumem processo de ocupação de espaço de muitas escolas

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Em plena Avenida Paulista, o Colégio São Luís tem de dosar os elementos contemporâneos que advêm de novas demandas ao estilo dos seus edifícios, construídos em épocas diferentes. Abaixo, o laboratório, que foi reformado e ganhou conforto e áreas de circulação

Fundado por jesuítas há 140 anos, o paulistano Colégio São Luís resume muitos dos movimentos da educação brasileira e de suas relações com os espaços educacionais. Nascido sob o signo do ensino religioso na cidade interiorana de Itu, o São Luís migrou para São Paulo na segunda década do século 20, período em que a cidade começava a tomar ares de grande centro urbano. Saía, assim, de um prédio do final do Império para outro especialmente construído para a educação, já no período republicano.

Sua nova sede, inaugurada em 1918, situava-se na avenida símbolo da pujança resultante do café: a Paulista, aberta em 1891. Ali, os jesuítas passaram a ocupar um quarteirão, em cujo terreno foram aparecendo novas edificações: em 1936, a capela; nos anos 40, os prédios do ginásio e da recém-criada Faculdade de Economia São Luís (num tempo em que a preocupação com a oferta de ensino superior começava a ser fundamental para o país); nos anos 60, com a valorização da região e a verticalização da avenida, que começa a se transformar em centro financeiro, houve a reconstrução dos espaços da escola, com piscinas, ginásios cobertos e quadras de futebol; nos anos 70, o colégio ganha uma área de circulação interna de veículos, já em função do caótico trânsito paulistano.

Nos anos 80, em conjunto com a Associação dos Colégios Jesuítas, a escola passou por uma atualização pedagógica, considerando o aluno “o centro do processo [educacional] e autor de seu próprio aprendizado”. Em paralelo, a Sociedade Brasileira de Educação, que administra o complexo educacional, conseguia dar forma a um antigo projeto, gestado nos anos 70: o de erguer um moderno edifício comercial de frente para a Avenida Paulista, que ficou pronto em 2000.

E é justamente a concretização desse sonho que coloca a identidade do colégio em xeque. Segundo relatam os arquitetos Alberto Barbour e Alexandre Liba, convocados para projetar um teatro que cumprisse a função de reaproximar a instituição com a população do entorno, pois muita gente começou a pensar que a escola havia se mudado.

Em função do custo, o teatro ainda não foi construído. Porém, desde então os arquitetos fizeram várias intervenções na escola e propuseram um plano diretor. Com a missão de modernizar instalações e resgatar a identidade perdida, Barbour e Lima constataram a mesma realidade de muitas outras escolas: as reformas são sempre pontuais, pouco planejadas, sem levar em conta a totalidade do espaço. “Encontramos muitas áreas subutilizadas, que formavam labirintos. Havia salas com quatro ou cinco tipos de pisos, um colocado sobre o outro”, conta Barbour.

A dupla promoveu mudanças nas quadras esportivas, na rua interna em que os pais pegam as crianças da educação infantil, na cantina e nos laboratórios, entre outras áreas. No caso da educação infantil, a eliminação de uma cozinha pouco utilizada resultou numa área adequada para as crianças esperarem os pais. Nos laboratórios, o novo desenho corrigiu um problema básico: os alunos não podiam sentar-se de frente para os balcões, pois havia armários fechados em baixo. As peças foram abertas e diminuídas e ganharam curvas, ampliando o espaço de circulação.


Lourenço Castanho

Outra história que ilustra o modo como as escolas particulares brasileiras crescem é a da Lourenço Castanho, fundada, com o nome de Pequeno Príncipe, por um grupo de sócias em 1964 no bairro do Itaim, em São Paulo. Quatro anos mais tarde, mudou de endereço e assumiu o nome da rua da nova sede, na Vila Nova Conceição. Com o rápido aumento da demanda, começou a expandir-se em 1971. As sócias compraram algumas casas e alugaram um terreno para uma quadra de esportes a seis quarteirões da sede. Anos mais tarde, em 1990, construíram um prédio de quatro andares para o ensino médio, onde puderam, pela primeira vez, programar espaços como laboratórios, biblioteca, quadra esportiva e academia de ginástica para meninas.

Segundo Marilu Aidar, sócia-fundadora da escola, a principal preocupação da época foi com a funcionalidade do prédio.

“Poderia ter ficado mais bonito, mas não pensamos nisso na época, então ficou um prédio comum, meio quadradão”, diz.


Porquinhos-da-índia e patos mandarins passaram a fazer parte do convívio diário das crianças da educação infantil da Escola Lourenço Castanho após a mudança para o novo espaço desse nível de ensino. Uma casa tombada no Parque do Ibirapuera foi reformada, com a preservação de seu estilo original

O mesmo não ocorreu com a mudança do espaço destinado à educação infantil, inaugurado em julho deste ano. As sócias procuravam um novo imóvel, pois não havia nada disponível perto da sede da Lourenço Castanho e as crianças estavam numa área muito confinada. Até que surgiu uma casa, tombada pelo patrimônio público, que fica dentro da área do Parque do Ibirapuera.

Foi a oportunidade de atender um anseio crescente: o de proporcionar às crianças maior contato com animais, flores e frutas. A casa foi reformada, com a manutenção dos tipos de portas e esquadrias originais, dos anos 40, e as salas de aula foram projetadas de modo a que tivessem uma abertura para os jardins. Como o tombamento se deve mais à questão da ocupação do solo do que ao imóvel, houve a possibilidade de construção de uma segunda casa para ampliar a oferta de vagas.

 “Os projetos pedagógicos agora interagem com o espaço. Fizemos um minizôo e as crianças podem acompanhar o tempo das floradas, das frutas. Esse contato ajuda a fazer com que elas desenvolvam desde cedo uma cultura de preservação ambiental”, conta Marilu.

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