Dois professores do século 19

O tédio é em boa parte resultado de nossa postura. Tchéckov capta o momento em que professor e alunos se cansam de si mesmos

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No conto O professor de letras, o escritor russo Anton Tchéckov (1860-1904) retrata dois professores do seu tempo. Um deles, Nikítin, dá aulas de literatura, oratória, retórica, redação, em suma: o cultivo da palavra. Em russo, o termo que designa a disciplina que ele ministra é slovesnost. Termo de difícil tradução. Não é só “literatura”, ou “letras”. Engloba isso e tudo o que suponha habilidade verbal e imaginação.

Nikítin mora e trabalha numa cidade pequena. Seus alunos possuem poucos talentos linguísticos. Mas sua carreira está só começando. Nikítin acabou de completar 26 anos de idade, anseia casar-se, tem um futuro a construir. E sabe que precisa crescer na profissão. Para sua vergonha, não leu ainda, por exemplo, A dramaturgia de Hamburgo, texto clássico do pensador alemão Lessing, leitura obrigatória em sua formação docente.

O outro personagem é o professor Ippolít Ippolítich, cujo modo de expressar-se é irritante. Ippolít, professor de história e geografia, tem a mania de dizer coisas que nada acrescentam às conversas. Suas observações são óbvias, sem originalidade: “A noite está magnífica”, “em breve chegará o verão”, “o casamento é um compromisso muito sério”, “os homens não podem viver sem comer”, “os cavalos nutrem-se de aveia e de feno”.

A questão essencial do conto é o tédio. O mesmo tédio que rodeia as nossas atuais salas de aula e questiona obsoletas práticas e “desafios” como aquelas frases a completar (“a girafa tem o ……………… comprido!”), ou exercícios que provocam bocejos homéricos (“escreva do número 50 ao número 100, sem rasurar e sem pular!”).

O tédio é em boa parte resultado de nossa postura. Tchéckov capta o momento em que professor e alunos se cansam de si mesmos:

Por ter dormido vestido e desacomodado, a cabeça lhe doía e seu corpo estava amolecido de cansaço. Os alunos, esperando as despedidas que precedem os exames, nada faziam, afogavam-se no tédio ou, então, simplesmente brincavam. Nikítin também se entediava, não tomava conhecimento de suas brincadeiras e aproximava-se a todo instante da janela. Via a rua vivamente iluminada pelo sol e, sobre as casas, o céu azul, transparente. E o voo dos pássaros e, mais longe, além dos jardins, uma extensão infinita, com seus bosques verdejantes e a fumaça de um trem, passando…

A paisagem descrita (rua, luz, sol, céu azul, pássaros voando, bosques, o trem tão distante…) leva o personagem para longe. Longe do mundo enfadonho da escola. Sua visão pula a janela e mata a aula!

Aliás, tinha o professor esse hábito, na tentativa de fugir ao tédio. Especialmente diante dos alunos que lhe pareciam atrasados:

Nas classes mais atrasadas, confiava o ditado a um dos alunos e, enquanto as crianças escreviam, permanecia junto à janela, os olhos fechados e sonhando.

A antiga avaliação

Professor Nikítin apaixonou-se por Masha Shelestov, bela jovem casadoira. Ao comentar com seu amigo Ippolít, recebe como informação “pertinente” essa avaliação:

– Foi minha aluna. Conheço-a bem. Era muito boa em geografia, não em história. E não muito atenta às aulas.

Curiosa avaliação. Como pode alguém ser bom em geografia e não em história? O que haverá de errado? Se a aluna não era “muito atenta” às aulas, como conseguiu ter bom desempenho numa disciplina e em outra não? E que tipo de atenção terá dedicado a ela o nosso avaliador?

O professor que se contenta com seus próprios veredictos deixa o dito pelo não dito. O não dito está nas entrelinhas do dito. Se conhecesse tão bem assim a sua aluna, o professor talvez superasse as avaliações sumárias.

No meio da história, Ippolít morre (talvez de tédio, ou de irrelevância…), e os que vão ao sepultamento comentam que ele era, na verdade, um modesto trabalhador, um homem simples e humilde, “sem encantos”. Nikítin registra em seu diário que, afora a morte do colega, não houve naquele ano letivo nenhum outro evento digno de nota! Não é isso assombroso?

A alma de um professor seguiu seu caminho, mas sua partida fez a do outro despertar do seu sono. Vendo o fim inglório e anódino de Ippolít, Nikítin sente-se inquieto:

Nikítin […] não sentia vontade de dormir, nem de ficar deitado. […] Pensava que para além da doce claridade da lâmpada, e da tranquila felicidade familiar, para além desse mundo em que vivia, despreocupado e mimado como o gato branco, havia um mundo diferente. E, de súbito, apaixonadamente, com desesperada angústia, desejou viver nesse outro mundo, trabalhando em uma fábrica, ou em uma grande oficina, falando do alto de uma cátedra, escrevendo, imprimindo, fazendo ruído, fatigando-se, sofrendo…

Com os olhos grudados no teto da sala, deitado no chão, sobre o tapete, o professor confessa a si mesmo que se tornou apenas um funcionário pacato, sem personalidade, sem conhecimento pedagógico (e sem vontade de adquiri-lo!), fingindo que está tudo bem, desconhecedor do sentido verdadeiro daquilo que ensina.

Este conto foi publicado há 120 anos. Parece que foi ontem!

*Gabriel Perissé é professor e pesquisador do NPC – Núcleo Pensamento e Criatividade – www.perisse.com.br

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