Do tempo da vitrola

Gravações históricas da MPB chegam gratuitamente ao público por meio da internet

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Alexandre Pavan*


As primeiras músicas gravadas no Brasil, registradas de maneira rudimentar e até então relíquias conservadas em raros discos de 78 rotações por minuto, acabam de ganhar a internet. Qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, pode ouvi-las gratuitamente no site do Instituto Moreira Salles (IMS), que contém cerca de 13 mil gravações de sambas, lundus, choros e marchinhas.



Todo esse material faz parte da coleção montada durante os últimos 50 anos pelo fotógrafo e pesquisador carioca Humberto Franceschi que foi doada ao IMS e depositada no Centro Petrobras de Referência de Música Brasileira, em 2002. Os discos de 78 rpm surgiram juntamente com a indústria fonográfica brasileira, em 1902, e foram fabricados até 1964, quando passaram a ser substituídos pelo
long-play

(LP). Nesse inventário, tem-se, por exemplo, as primeiras gravações de Pixinguinha (1897-1973), todas as músicas de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) e ainda um solo do flautista Patápio Silva (1881-1907), considerado a primeira gravação instrumental feita na América Latina, em 1902.



Todos os fonogramas passaram por um processo de tratamento sonoro que eliminou ruídos e chiados típicos. É possível pesquisar o autor, intérprete, título e ano de cada gravação. Um lembrete: as músicas estão disponíveis apenas para audição (nos formatos MP3 e/ou WMA), como se o computador fosse um rádio. Por questões de direitos autorais, não é permitido realizar cópias dos arquivos.



Em breve, ao acervo de Franceschi, o IMS pretende somar em seu site a valiosa coleção do jornalista paulista José Ramos Tinhorão, que também está sob sua responsabilidade. O arquivo de Tinhorão, o principal historiador de música popular do país, conta com 80 mil gravações, entre 78 rpm, LPs, cassetes e fitas de rolo. Ali estão as vozes e os instrumentos de Carmem Miranda, Orlando Silva, Mário Reis, Isaura Garcia, Luis Americano, Dino 7 Cordas, Jacob do Bandolim, enfim, a trilha sonora de mais de um século de história do Brasil.



Juntos, os acervos de Tinhorão e Franceschi contemplam 70% dos discos de 78 rpm produzidos no país. Embora tenha sido criado um mito em torno de Tinhorão, por seu embate ferrenho contra bossa nova e Tom Jobim, a coleção do pesquisador não é excludente – abrange os mais variados períodos musicais, do samba à bossa nova, do choro ao baião. Tem-se um panorama da transformação por que passou a música brasileira.



A previsão é que, até 2005, o site armazene 100 mil músicas. Além das coleções citadas, o IMS também administra os acervos do radialista Walter Silva e do músico Antonio D’Auria, mais os documentos e as partituras do espólio de Pixinguinha, Ernesto Nazereth e Elizeth Cardoso. Todo esse material sairá do fundo do baú e irá para a tela do computador.




*Jornalista e co-autor do livro
Populares e Eruditos






apavan@uol.com.br




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