Do que eles são capazes

O ato educativo, onde quer que ocorra, é sinônimo de destreza, força e beleza

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“Dessa vez são 41. É praticamente impossível lidar com tanta gente no mesmo espaço, ainda mais adolescentes. Muito hormônio, muito barulho, muita agitação. Com o tempo, a gente acaba ficando refém deles. Hoje em dia, são eles que mandam. Antigamente não era assim. As coisas eram bem diferentes.

É inacreditável o tumulto que causam quando se reúnem. Não param quietos um segundo sequer. Pulam, batem os pés e as mãos, se arrastam pelo chão, se empurram, se amontoam, até brigam feio de vez em quando. E alguém acha que são só os meninos? Ledo engano. Com as meninas é igual. Hoje em dia já não há diferença entre eles. Às vezes, chegam a simular atos libidinosos em público. Parece que fazem isso só para chocar. A gente tenta controlá-los, mas é inútil. Param por um segundo e, se viramos as costas, recomeçam em outro canto. Quanto mais a gente chama a atenção, mais eles querem nos desafiar. Adolescente em bando é fogo.

Uns não se penteiam direito; outros deram para fazer trança no cabelo. Cabelo duro, pixaim. As roupas? Às vezes, aparecem com trapos pendurados. E as músicas que cantam? Não se consegue entender direito do que se trata, ainda mais quando todos resolvem cantar na mesma hora. Ensurdecedor. Tem aqueles batuques, tem
hip hop

, tem até uma tal
isicathamiya

– a nova moda entre eles.

Mas o mais impressionante é a movimentação constante. Sempre inquietos, ficam se provocando o tempo todo. Não sossegam. São atormentados. Um excesso de energia acumulada.  A gente não sabe mais o que fazer para acalmá-los. E não se cansam nunca. Montam um em cima do outro, se jogam uns sobre os outros, dão piruetas, passam rasteiras, caem e levantam como se nada tivesse acontecido. Às vezes, é o grupo inteiro que se agita. Às vezes, são dois ou três – ‘aqueles’ de sempre. Parece que têm o diabo no corpo.

Se bem que, coitados, não se pode esperar coisa muito diferente deles. Vêm da periferia. Vivem naquelas condições difíceis. Muito complicada a vida deles. O que será desses jovens quando crescerem?”

Quem quisesse descobrir uma resposta plausível para a questão-clichê acima não poderia ter perdido a chance de testemunhar
Milágrimas

, espetáculo levado a cabo pelo
Projeto Dança Comunidade

sob o comando de Ivaldo Bertazzo. Uma mostra extraordinária do que são capazes 41 jovens habitantes da periferia paulistana quando lhes é oferecida uma chance concreta de mostrar a que vieram – eles, os mesmíssimos personagens que pululam nas salas de aula estatais e que são alvo de discursos idênticos ao exposto acima.


Milágrimas

é um exemplo cabal não de um milagre, mas de uma conquista em que a prática da disciplina é alimentada por uma vontade pública. Uma ocasião, enfim, para relembrarmos que o ato educativo, onde quer que ocorra, é sinônimo de destreza, força e beleza. Basta arriscar. 




Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP

E-mail:



julio.groppa@editorasegmento.com.br



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