Do declínio da autoridade docente

Reconhecer o esfacelamento de alguns valores sociais é fundamental para refletir sobre o tema

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Dias antes das eleições de 2008, um candidato relembrou, emocionado, seus anos de escola. Com nostalgia, relatou o respeito que ele e seus colegas tinham por seus professores e a autoridade de que estes eram portadores.

Essa cena, real, é um indício de que o tema da autoridade docente – ou a constatação de seu desaparecimento – ultrapassou as preocupações de acadêmicos e profissionais da educação e tornou-se um problema público. Mas, se quisermos superar imagens melancólicas e a retórica da nostalgia, faz-se necessário compreender algumas características das relações educativas fundadas na autoridade e dos fatores implicados em seu declínio.

Uma relação de autoridade resulta em obediência, mas nem toda obediência é fruto do reconhecimento da autoridade. A ameaça e a coerção, por exemplo, não se confundem com a autoridade, pois produzem obediência a partir da força e não da confiança que uma autoridade inspira naquele que a obedece. Aquele que acata a autoridade o faz de forma a guardar a sua liberdade: age conforme um conselho que crê ser valioso, e não a partir de uma ordem à qual deva meramente conformar-se. Não se trata, tampouco, de uma forma de persuasão ou convencimento, recurso característico das relações entre iguais. A relação de autoridade, diferentemente, implica o reconhecimento de uma hierarquia que separa os dois pólos e por ambos é reconhecida como legítima. Por isso, ainda recorremos à noção de autoridade para descrever tipos de relação como a de um sacerdote com seus fiéis ou a de um médico com seu paciente.

Historicamente, o conceito de autoridade surgiu no âmbito político: visava designar um tipo específico de relação que a nação romana tinha com seu Senado; que não detinha o poder (potestas), mas a autoridade (auctoritas). Os senadores deveriam encarnar os princípios da fundação de Roma, por eles zelar e os atualizar historicamente, por meio de seus ajuizamentos e conselhos. A autoridade de que eram investidos não repousava no carisma pessoal, mas no fato de serem tidos como portadores de uma herança histórica de princípios capazes de iluminar as decisões e dilemas do presente. Não se tratava de repetir o passado, mas de nele se inspirar para pensar o presente e torná-lo digno da tradição a que pertenciam.

Recorro às origens romanas do conceito de autoridade por seu potencial esclarecedor em face da crise contemporânea. A autoridade que associamos aos professores de ‘antigamente’ é, como no caso dos romanos, menos decorrente de supostas competências individuais do que fruto de uma imagem social da escola. Concebida como uma instituição portadora dos princípios republicanos de igualdade de oportunidades e de compromisso com o bem comum, a escola representava o templo sagrado da moderna sociedade laicizada. E aos professores cabia encarnar seus princípios. É exatamente essa imagem que, por uma série de fatores, não mais encontra eco em nossa sociedade. Enquanto negarmos essa transformação, toda retórica sobre a autoridade docente tende a não ultrapassar as fórmulas de auto-ajuda e a responsabilizar sujeitos individuais, sejam eles alunos ou professores, por um problema fundamentalmente político-social.


José Sérgio Fonseca de Carvalho

Doutor em filosofia da educação pela Feusp

jsfc@editorasegmento.com.br

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