Do campo para o campo

Modelo francês de escola agrícola gera bons resultados em RO

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Marcos de Moura e Souza

Agência Repórter Social





Ali, o dia começa às 5h40. Antes do café da manhã, eles limpam os quartos, o refeitório e ainda dão uma geral nas salas de aula. Tomam uma café ligeiro e, às 7h, já estão mais do que despertos para a primeira aula. Começa assim a puxada rotina dos alunos de ensino médio da Escola Família Agrícola (EFA), baseada em modelo de educação rural fundado na França, no início do século passado, com o objetivo de ajudar o homem do campo a permanecer no campo, e que há quase 40 anos está presente no interior agrário do Brasil. Sem propaganda ou alarde, a escola se transformou em um caso de sucesso entre filhos de pequenos produtores rurais, principalmente nas regiões norte e nordeste do país.



A reportagem de Educação esteve em uma dessas escolas, em Ji-Paraná (RO), onde só há turmas do ensino médio. Meninos e meninas de 15 a 17 anos, nascidos e criados em sítios e fazendas. Um dos diferenciais da EFA é que ela funciona sob o regime de alternância. Os estudantes passam 15 dias na escola e 15 dias em casa. Nos períodos em que estão internados, começam a estudar às 7h e vão até 17h30. Nas temporadas em casa, os pais assumem o controle e registram em uma caderneta escolar todos os passos dos filhos: quantas horas estudou, como colocou em prática o que aprendeu, de quais atividades comunitárias participou e assim por diante.



“Quando a gente vai para casa, os pais fazem a avaliação dos filhos. Se trabalhou, se participou da comunidade, se é responsável em casa. E, além disso, tem a visita que os monitores às vezes fazem na nossa casa”, conta Tiago Souza Duarte, de 15 anos, aluno do 2º ano. “São três anos na linha”, completa, sorrindo, sua colega Marcela Possmozer da Silva, de 17.



O estilo linha-dura não parece assustar aos jovens. Ao contrário. Em Ji-Paraná, há sempre uma fila de espera de candidatos. Até grandes produtores rurais da região tentam uma vaga para seus herdeiros, tamanho o prestígio que a escola conquistou. O público-alvo, no entanto, é bem definido: moradores das zonas rurais, filhos de pequenas propriedades agrícolas que tenham participação na vida da comunidade – seja em igrejas, associações ou até em partidos políticos. Garotos como Tiago e Marcela, engajados na vida comunitária. Seus pais, como o de todos ali, têm uma participação indispensável. “A escola não funciona sem a família. Temos três reuniões com os pais por ano para avaliar, estipular metas e repassar a parte pedagógica. Eles são cobrados a controlar as atividades escolares dos filhos”, diz Alcir Almiro da Costa, diretor da unidade.



O ensino é gratuito. Os pais pagam apenas uma taxa mensal para a alimentação dos alunos. O valor varia de escola para escola. Em Ji-Paraná, está em R$ 70. A média, porém, é bem mais baixa: R$ 20. As EFAs são mantidas por meio de parcerias e convênios com governos estadual, municipal e federal, além de ONGs e das próprias famílias. Os princípios pedagógicos no Brasil continuam os mesmos de quando a Maison Familiale Rurale foi criada pelo padre Abel Granerau em 1935, na região de Pruniu, interior da França.



“O objetivo principal é proporcionar uma formação integral do jovem, preparando-o para a vida e para o exercício da cidadania, a partir da sua realidade e do meio em que vive, para um desenvolvimento sustentável, não exclusivo, mas de modo especial no campo”, diz Davi Rodrigues, secretário-geral da Unefab, a entidade nacional que reúne as escolas no País. Pelo menos em Rondônia, a atenção dada à vida no campo encontra eco.



“Eu não pretendo sair da nossa propriedade. Até porque na cidade a gente não tem como trabalhar. Ou vou trabalhar em uma casa agropecuária, ou no comércio. Eu não quero sair. Na cidade, tudo o que você quer, você tem de comprar. No sítio, tem essa vantagem de não precisar comprar”, diz Cristina Ovane Apolônio, de 16 anos, cuja família vive numa propriedade no município de Jaru, cuidando do gado e da plantação de café. Se Cristina sonha com uma faculdade? “Tenho vontade de fazer agronomia para ficar na propriedade.”



Trazida para o Brasil em 1986 pelo padre Humberto Pietrogrande, a escola tem hoje 240 unidades, os chamados Centros Familiares de Formação por Alternância , que incluem as EFAs e as Casas Familiares Rurais (CFRs), que seguem o mesmo modelo. As escolas estão em 21 Estados – em Rondônia, são cinco unidades – e a maioria delas oferece cursos de 5ª a 8ª séries. Cerca de 30 oferecem o médio e algumas já realizam formação superior de seus monitores por meio de convênios com universidades. Este ano, 25 mil alunos estão matriculados. As EFAs já foram objeto de uma série de teses e dissertações de educadores feitas no Brasil e, de modo geral, são analisadas de modo francamente positivo.  



Como toda escola agrícola do país, elas seguem uma grade curricular determinada pelo Ministério da Educação. Na unidade de Ji-Paraná — onde é oferecido o curso médio regular juntamente com o técnico profissionalizante em agropecuária -, além das disciplinas comuns como história, matemática e português, os alunos estudam temas específicos sobre criação animal e culturas vegetais. As aulas são em sala ou ao ar livre, no terreno da escola. Ao longo do curso médio, os alunos seguem um plano de estudos, acompanhado de perto por um tutor, compartilham com colegas e professores exemplos reais de suas propriedades, assistem a palestras, visitam fazendas e centros de pesquisa.



Antes de se formarem, precisam ainda cumprir 250 horas de estágio trabalhando geralmente em grandes propriedades e desenvolver um projeto profissional aplicável em seu sítio ou fazenda. “Uma das nossas preocupações durante o curso é saber se eles estão aplicando o que aprendem aqui”, diz o diretor. Muitos alunos admitem que essa realmente não é uma tarefa fácil. Afinal, como convencer os pais, proprietários rurais acostumados a tratar o gado ou cuidar da plantações de café a sua maneira, de que existem formas melhores de se trabalhar?  



Gisele Francioli Simoni, 15 anos, aluna do 2º ano, repetiu tanto do que aprendera na escola que, em casa, as mudanças começaram a aparecer. “Antes de eu estudar aqui, minha família passava agrotóxico nas plantas. A partir do momento em que entrei na escola, consegui pelo menos mudar a cabeça da minha mãe e estou tentando mudar a cabeça do meu pai, para fazer com que ele se conscientize para não usar”, conta Gisele, cuja família cultiva café em uma propriedade no município de Nova União.



“Por exemplo: ali, em volta do quintal, na horta, no pomar, já não passam mais agrotóxico. Tem muitas opções. Eu fiquei até surpresa com o meu pai. Ele andou pedindo para mim umas sugestões, para a gente começar a fazer controle biológico da lavoura – usar uma praga para combater aquela praga que está atacando a lavoura. Acho que ele está se abrindo”, diz Gisele, com um sorriso, exibindo os aparelhos que usa nos dentes.



Mais do que levar exemplos como esse para casa, os alunos da EFA de Rondônia procuram multiplicar o aprendizado com a comunidade onde vivem. É o que diz Gilliard Felisberto da Costa, da turma de Tiago e Marcela. “A gente não conscientiza não só a família da gente. A gente trabalha com a comunidade, com quem convive. Eu moro no sítio e eu passo o que eu aprendo aqui não só para a minha família, mas para comunidade, quando está reunida na Igreja, quando tem uma reuniãozinha, em qualquer momento a gente está passando uma informação.”



No meio rural de Rondônia, onde a maioria dos pequenos e médios produtores não teve muitas chances de concluir os estudos, os alunos da EFA desfrutam de um status entre os adultos que poucos adolescentes conhecem. “As pessoas param para ouvir, fazem perguntas para você”, diz Gilliard, sem esconder uma ponta de orgulho.



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