Divulgação problemática

Pouco acesso aos resultados da Avaliação Nacional da Alfabetização é empecilho e objeto de crítica por parte de especialistas

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Um dos pilares do Pacto, a Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) acabou envolta em polêmicas desde o princípio por não ter seus resultados amplamente divulgados – apenas os diretores das escolas têm acesso ao sistema. Este ano, após o cancelamento da prova, que deveria ser anual, mais uma vez ela voltou ao foco da sociedade e virou alvo de críticas.

“A gente acreditou que a ANA seria um indicador para mostrar a evolução da meta 2 (ter todas as crianças alfabetizadas até os 8 anos), o que não aconteceu”, afirmou Ricardo Falzetta, do Todos pela Educação. A entidade cancelou a realização da Prova ABC, aplicada pela última vez em 2012, por considerar que o exame oficial seria um instrumento melhor, por ser censitário.

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#R# O Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pela ANA, alega que o cancelamento do exame este ano ocorreu por motivos pedagógicos, para que as escolas possam se “apropriar” dos resultados e tenham tempo de estruturar estratégias de resposta ao que foi avaliado nos anos anteriores. No ano passado 2,5 milhões de crianças participaram da ANA, ao custo de R$ 150 milhões.

“A importância de ser anual é que dá um retrato de um aluno que ainda está na escola, no fundamental. Assim, daria tempo de corrigir as deficiências encontradas, antes de o aluno chegar ao próximo ciclo”, afirmou César Callegari.

Outra crítica é o fato de a ANA não ter chegado sequer aos secretários municipais e estaduais de ensino. “Ela é uma avaliação complementar e muito bem pensada, estruturada; seria importantíssimo chegar aos dirigentes, para poderem dar apoio necessário às escolas”, diz o ex-secretário do MEC.

Retrato preocupante

Embora o Inep tenha divulgado os dados da ANA de forma restrita, o Conselho Nacional de Educação pediu para ter acesso e foi atendido. A revista Educação obteve cópia desses resultados, referentes à prova de 2013 (veja abaixo). Os dados de 2014 ainda estavam sendo consolidados e devem chegar aos diretores este mês.

Em leitura, 42,77% dos alunos de 3º ano encontravam-se no nível de proficiência 3 ou 4. Isso significa que eram capazes de encontrar informações explícitas no texto, e também inferir assunto, relação de causa e efeito e reconhecer o significado de expressões de linguagem. Um em cada quatro alunos estava no nível mais baixo, 1, o que significa que não conseguiu sequer identificar informações explícitas em textos de até 5 linhas.

Na prova de escrita, 53,39% chegaram aos níveis 3 e 4, ou seja, conseguiram no mínimo produzir textos narrativos com mais de uma frase, com poucas inadequações relativas à segmentação e concordâncias. Quase 28% não conseguiram pontuar ou ficaram no nível 1, quando são capazes, no máximo, de escrever palavras soltas. A ANA também avaliou o desempenho em matemática, em que 42,14% dos alunos foram enquadrados nos níveis 3 e 4.

O que a ANA revela mais uma vez é a imensa diferença de desempenho entre as regiões do país, com os alunos do Norte e do Nordeste mostrando um rendimento bastante inferior. Nos extremos da leitura, o Nordeste tinha 26,53% dos estudantes nos níveis 3 e 4 e o Sudeste, 55,34%. Mas mesmo dentro das regiões a desigualdade é grande. Enquanto apenas 22,68% dos alunos do Piauí foram classificados nos níveis 3 e 4 de proficiência, no Ceará esse número chegou a 47,93%.

Nem todos, porém, acreditam que o exame padronizado anual e bem divulgado seja essencial à melhoria da aprendizagem. Caminhamos progressivamente para uma política educacional cada vez mais pautada por avaliações oficiais sempre parciais e incompletas”, criticou Maria Sílvia Cintra Martins, do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCcar) e coordenadora do Pnaic.

Maria Sílvia explica que, por ainda estarem em formação, as crianças têm seus altos e baixos, momentos de produção excelente e outros nem tanto. “Em função disso, a avaliação necessita ser contínua, de teor qualitativo, e não pontual e focada em medições quantitativas.”

Mesmo sem dados de uma prova padronizada, Maria Sílvia sabe que a realidade é muito heterogênea, e os resultados do Pnaic variam de escola para escola, de sala de aula para sala de aula. “É possível termos o mesmo professor até o 3º ano sempre com a mesma turma. Se esse profissional frequentou sempre nossos cursos, trocou experiências, levou-as para sua sala de aula, trabalhou com as mesmas crianças, os resultados devem ser mais facilmente quantificáveis e visíveis. No outro extremo podemos ter a realidade de uma escola em que houve rotatividade de professores, sendo que o professor que frequentou nosso curso em 2013 não trabalha mais nos anos iniciais”, exemplifica.

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