Distorção de qualidade

No momento em que classe C busca a rede particular, Prova ABC aponta que desempenho de escolas privadas não é uniforme no país

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Gustavo Morita
Alunos do primeiro ciclo do ensino fundamental foram avaliados pelo exame


A ascensão social da chamada nova classe média é responsável pelo incipiente movimento de migração de matrículas da rede pública para a particular. A mudança se justifica, entre outros motivos, pelo desejo de melhor qualidade de ensino por parte dessas famílias. Discutido na edição 173 de Educação, o fenômeno encontra eco em uma pesquisa recente do Data Popular que aponta: a chamada “classe C emergente” enxerga na educação o melhor meio para alcançar um bom futuro. Entretanto, a Prova ABC, avaliação instituída neste ano por uma parceria entre Todos pela Educação, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Fundação Cesgranrio e Instituto Paulo Montenegro/Ibope, trouxe um questionamento incômodo: e se a qualidade de ensino das escolas particulares espalhadas pelo país não for tão boa quanto se pensa?


Criada com o objetivo de medir os níveis de aprendizagem em português e matemática no ciclo inicial do ensino fundamental, a Prova ABC foi aplicada no primeiro semestre em cerca de seis mil alunos que concluíram o 3º ano em escolas municipais, estaduais e particulares de todas as capitais do país. A avaliação mostra que a discrepância nas notas de escolas privadas entre regiões do país é significativa e começa já nos anos iniciais do ensino fundamental.  A mesma situação foi apontada pelas edições mais recentes do Sistema de Avaliação Brasileiro (Saeb), exame aplicado de forma amostral nos 5ºs e 9ºs anos pelo Ministério da Educação.


Enquanto a média de matemática das particulares no Nordeste é de 186,92, na região Sul o valor sobe para 224,87.  É importante lembrar que o Todos pela Educação definiu a pontuação de 175 na escala como esperada para os 3ºs anos. A diferença de pontos entre as regiões é da ordem de 37,95 – em outras palavras, há um atraso de mais de dois anos escolares entre elas. Isso porque, a partir da interpretação da série histórica da escala Saeb, é possível afirmar que, no ensino fundamental, cada ano escolar agrega 15 pontos por ano na escala. Em termos percentuais, se 55% dos estudantes do Sul matriculados em particulares alcançaram pontuação igual ou superior a 175, somente 32% dos nordestinos estavam no mesmo patamar.


Os resultados de leitura apontam para o mesmo quadro. O Sul obteve média 228,35, e o Nordeste, 191,08. Se 64% dos alunos apresentaram média igual ou superior a 175 no Sul, o percentual cai para 42% no Nordeste. Em coletiva de lançamento da Prova ABC, Priscila Cruz, diretora-executiva do Todos pela Educação, afirmou que os dados são importantes face ao contexto de migração das crianças da classe C para a rede particular. “Os números mostram que a escola particular, em si, não é melhor do que a pública. Um pai que coloca seu filho na escola privada não tem garantia de que terá uma qualidade de ensino melhor”, ressalta.


Para a professora Nilma Fontanive, coordenadora do centro de avaliação da Fundação Cesgranrio, a discrepância entre regiões se explica pelo fator socioeconômico. “Esse quadro é resultado das diferenças regionais. O PIB per capita do Nordeste revela uma região menos desenvolvida”, explica. A fala de Nilma indica que mesmo a rede particular, que supostamente conta com mais recursos para alcançar a boa qualidade de ensino, não consegue inibir totalmente o fator socioeconômico. Para a pesquisadora, o envolvimento dos pais, assim como sua própria escolaridade e interesse por bens culturais, é um dos principais fatores que explicam os bons resultados.


O que diz o ponto 175 na escala Saeb
Em leitura
, os alunos, entre outras tarefas, conseguem identificar temas de uma narrativa, localizar informações explícitas, identificar características de personagens em textos como lendas, contos, fábulas, histórias em quadrinhos e perceber relações de causa e efeito contidas nestas narrativas.
Em matemática, os estudantes têm, por exemplo, domínio da adição e da subtração e conseguem resolver problemas envolvendo notas e moedas.

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