Discutindo a relação

As famílias passaram a ser convocadas – mais do que convidadas – a participar do processo educativo de seus filhos. Mas a pergunta que deve anteceder a parceria é: o que cada escola realmente quer quando procura o envolvimento da família?

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Ilana Bar
Ana Teresa na escola dos filhos, onde tem participação efetiva

Parece a velha imagem da propaganda de margarina revivida no ambiente escolar: os pais chegam juntos à escola e se encontram com o professor aos sorrisos. Nos livros, nos projetos pedagógicos, nas políticas públicas, encontra-se uma criança feliz na sala de aula e na vida doméstica. Já nos estudos acadêmicos, nas pesquisas de opinião, no portão da escola ou na sala dos professores, surge o reverso caricatural da imagem: uma relação de conflito, incompreensão, ressentimento, onde um lado culpa o outro por alunos que não se parecem com o retrato esperado – nem na escola, nem na vida. Entre as idealizações frequentes na educação, a tão falada parceria entre escola e família briga para sair do plano da teoria e do discurso para um diálogo honesto, explícito e prático sobre o que vem a ser esta palavra que parece resumir tudo, sem explicar nada: participação.

Só no site> O educador português João Barroso diz que a desvalorização dos professores não reflete a opinião da maioria das pessoas

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Não faltam motivos para a sensação de urgência em discutir essa relação. Há um conjunto de transformações de valores que coloca em xeque visões cristalizadas de família; crianças e jovens que vivem em novos contextos sociais e culturais e antigos problemas catalisados pela tecnologia, trazendo perguntas que as velhas respostas não atendem mais.

A escola a quem os pais entregavam cegamente a educação acadêmica dos filhos  – até para o castigo físico – não existe mais. Assim como ruiu o mundo das famílias numerosas de classe média que construíam relações duradouras (felizes ou não), íam à igreja e ao clube aos domingos, almoçavam e jantavam juntos nos dias de semana e à noite assistiam aos programas na única TV da casa. Nesse mundo, que ainda resiste no imaginário dos professores, escolas instruíam; famílias educavam.

“Agora as cartas estão embaralhadas”, explica a pesquisadora Maria Alice Nogueira, professora-titular de Sociologia da Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde participa do Observatório Sociológico Família-Escola. “Os professores esperam dos pais um auxílio até mesmo para a tarefa de preparar, fixar ou estender as aprendizagens, como se a família devesse agora funcionar como  um complemento do trabalho pedagógico. Por outro lado, as famílias também querem que a escola assuma funções de formação de valores, de condutas e até de desenvolvimento emocional dos alunos”, diz ela, que também é autora e organizadora de Escola & Família: Novas Perspectivas (Editora Vozes, 2011). Em outras palavras, nunca um lado precisou tanto do outro. Mas, como pares que não se entendem, os conflitos são evidentes e estão ancorados em muitas incompreensões sobre o papel e as responsabilidades de cada um.

Desencontro de expectativas
Do lado dos professores, basta escolher qualquer uma das muitas pesquisas que levantam as opiniões­ docentes como, por exemplo, o questionário da Prova Brasil 2011. Para explicar as causas das dificuldades de aprendizagem dos alunos, os docentes não se apertam e empurram o abacaxi portão da escola afora. Para 95% dos professores de ensino fundamental, a causa é a falta de assistência e acompanhamento da família nos deveres de casa e pesquisas dos alunos; para 82% dos docentes, as causas estão relacionadas ao meio em que o aluno vive, e ainda para 74% têm a ver com nível cultural dos pais.

Na visão dos professores, o retrato da família brasileira é o de pais descomprometidos com o sucesso escolar dos filhos e desconhecedores da realidade dos professores e da educação. Os estudos também são unânimes em demonstrar que os mestres se sentem desvalorizados e desrespeitados.

Mas não é isso o que se vê quando as pesquisas ouvem os pais. Um recorte exclusivo, feito a pedido da revista Educação de uma pesquisa aplicada em 18 países, cujos resultados iniciais foram divulgados no final de 2012 pela Organização dos Estados Iberoame­ricanos (OEI), mostra que a sociedade tem uma visão mais crítica e madura do que muitos pensam.

O estudo, conduzido no Brasil pelo Ibope com mais de 2.000 entrevistas aplicadas nacionalmente, mostra que os pais não estão satisfeitos com a qualidade do ensino recebido pelos filhos, nem na rede pública, que recebeu nota 5,2; nem na rede privada, que levou 6,7. Mas não jogam a culpa sobre os professores. Mais de 80% dos pais acreditam que os professores têm conhecimento bom ou muito bom das disciplinas e 73% que são bons ou muito bons mestres. O mais interessante é que os pais se colocam ao lado dos professores: para 57% dos brasileiros – o maior índice entre os países participantes – o principal a ser feito para mudar a educação é melhorar o salário dos docentes.

É, entre outros motivos, devido a esse desencontro de expectativas que a relação entre famílias e escolas vive à beira de um ataque de nervos. “É um momento de redescoberta. A escola sabe que deve se abrir para a família, a família é cobrada a participar e sabe que isso é relevante, mas a forma ainda não foi bem estabelecida e isso gera tensões”, acredita a pesquisadora Kátia Smole, diretora do Instituto Mathema, que forma professores e atua diretamente em escolas da rede pública e privada.

Diálogo difícil
A questão é que esse diálogo não é fácil. Como em qualquer relacionamento, a comunicação precisa acontecer – mas, antes, é preciso ter clareza do que um lado pode esperar do outro. “A pergunta que deve anteceder a parceria é: o que cada escola realmente quer quando procura o envolvimento da família? Não estou bem certa de que os próprios educadores tenham isso claro”, diz Maria Alice Nogueira.

Diversos exemplos dessa pergunta ficam claros na pesquisa feita por Sandra Dedeschi, doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sandra estudou os bilhetes e circulares enviados por escolas públicas da região de Campinas para as famílias. Além de constatar uma falta de expressões de cortesia nas comunicações e de um tom que invariavelmente expressava queixas sobre os alunos, havia bilhetes com frases como: “sua filha não para sentada”. “Ora, parceria não é transferência de responsabilidades”, analisa a pesquisadora Adriana Ramos, também da Unicamp.

Evidentemente, o enfrentamento de situações que envolvem o comportamento necessita de um entendimento entre escolas e família. Isso não significa que a escola possa lavar as mãos sobre aquilo que deveria, como acreditam os professores, ser papel dos pais.

“Em nenhum momento da história a escola foi responsável exclusivamente por ensinar conteúdos curriculares. É um engano dizer que os pais e mães transferem para a escola funções que seriam suas”, defende a autora Marília Pinto de Carvalho, da Universidade de São Paulo (USP), que recentemente fez um levantamento de todas as teses e dissertações que abordam o tema.

Segundo Marília, o modelo original da escola como a conhecemos é o internato, que formava integralmente as crianças – inclusive suas boas maneiras. Hoje, explica a pesquisadora, muitas famílias, em especial as que têm filhos em escolas públicas, sabem ser incapazes de, por exemplo, ensinar os filhos a falar corretamente ou ter posturas sociais adequadas. “Não são capazes porque não aprenderam isso também e esperam que a escola o faça. Essas famílias não querem que a escola ensine apenas a ler, escrever e contar. Querem que ensine também a se portar adequadamente, a ser organizado, ter desenvoltura nos espaços públicos”, diz.

Para Maria Alice Nogueira, é muito importante que os professores tenham em mente o público da escola em que trabalham. Não há um só modelo de família, de escola ou de parceria. “Os cursos de formação de professores deveriam ter, entre seus conteúdos, conhecimentos sobre a família. Por incrível que pareça, nossos futuros professores desconhecem ou conhecem muito mal o usuário da instituição de que são profissionais. Daí, toda a fonte de mistificações, condenações, idealizações e outros mal-entendidos”, analisa.

Indisciplina: problema de quem?
A epidemia de problemas de disciplina que marca a escola nos últimos anos vem promovendo um ambiente de maior comunicação com os pais. Os problemas comportamentais motivam reuniões, palestras e projetos que facilmente são encontrados nas escolas. Contudo, embora a voz predominante dos palestrantes leve ao consenso de que as responsabilidades precisam ser compartilhadas, tudo desmorona quando o dia a dia traz as questões concretas.

Nos casos cotidianos fica evidente a incerteza sobre até onde vai o papel de cada um. Nas pesquisas, uma das principais queixas dos pais e dos professores é a crescente rebeldia dos jovens. Para os pais, as escolas não sabem lidar com as novas gerações. Já as escolas se queixam de que os pais frequentemente “passam a mão na cabeça” dos filhos quando a instituição chama para apontar problemas graves, como consumo de drogas, pequenos furtos e violência.

“A primeira reação sempre é a de duvidar da escola e do professor; depois, de procurar uma desculpa e, por fim, há a tentativa de contemporizar. O que importa fica de lado: os eventuais erros cometidos não têm nenhuma consequência relevante para o jovem em casa”, analisa o diretor de uma escola de classe alta de São Paulo, que prefere não se identificar. Um caso típico é quando alunos quebram deliberadamente mesas, carteiras, extintores, vidros. Nesse caso, não é incomum que os pais acreditem que pagar pelo prejuízo elimina o problema para todos, inclusive para os diretamente envolvidos.

Para muitos autores, como José Marcelino Pinto, da Universidade de São Paulo, um dos nós da questão é o que se entende por respeito. “O conceito moderno de respeito tem a ver com reciprocidade; o antigo remete à obediência. Os educadores gostariam que os pais ajustassem seus filhos às demandas da equipe escolar. A escola gostaria de reprovar mais e  gostaria que os pais tornassem seu filhos mais obedientes, quando a indisciplina muitas vezes tem a ver com práticas pouco democráticas e aulas pouco motivadoras”, analisa.

Problemas de aprendizagem
A observação de José Marcelino Pinto aponta para outro grande campo de tensões entre família e escola – em especial um ponto sensível para os educadores: a ação pedagógica, cada vez mais questionada diretamente pelos pais, para arrepio geral dos docentes.

Ocorre que, na escola do passado, crianças e jovens que não aprendiam eram naturalmente responsáveis pelo próprio fracasso. No Brasil, essa cultura alimentou índices alarmantes de repetência e reprovação, que ainda persistem acima das médias mundiais, mesmo com a introdução de iniciativas como os ciclos e a aprovação automática.

No contexto contemporâneo, a mudança de ótica é radical: o objetivo da escola não é mais apenas o de ensinar, mas de fazer efetivamente que todos aprendam. Aprender não é mais uma possibilidade, mas um direito que começa a ser cobrado.

“Quando as crianças gostam da escola, da professora, dos colegas e aprendem, as famílias ficam satisfeitas com a  escola, não é?”, lembra a pesquisadora Maria Eulina de Carvalho, da Universidade Federal da Paraíba, atualmente desenvolvendo projetos na Universidade de Barcelona. Mas, quando maus resultados se sucedem, abre-se um campo de conflitos e desconfiança, repleto de zonas de sombra.

Num tempo em que indicadores como o do Enem ou mesmo o Ideb estimulam as famílias a construir opinião sobre o trabalho educativo, criou-se um ciclo de aumento da exigência escolar, o que fez crescer campos de conflito também na área pedagógica. Aqui, as escolas esperam das famílias que o aperto em sala de aula corresponda a um aperto em casa, por exemplo, na garantia da execução das tarefas escolares ou na busca de reforço extra.

Já muito pais se queixam de que, de repente, seus filhos passaram a ser maus alunos, depois de permanecerem a vida escolar inteira dentro de uma mesma instituição. Especialmente nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, torna-se cada mais frequente que alunos sejam aconselhados a mudar para escolas menos exigentes diante da iminência da reprovação.

A diretora Nívea Fabrício ouve casos semelhantes todos os dias, como diretora do Colégio Graphein, especializado em casos de inadaptação escolar. “Ouço queixas de pais que acreditam não ter sido ouvidos ou de terem rotulado seus filhos”, relata. Nívea acredita que as formas e os limites da participação necessitam de uma calibragem fina. “Depende de cada família, cada escola, cada comunidade, do quanto cada um se dispõe a participar”, avalia. “Nossos casos de sucesso sempre têm a ver com a parceria com as famílias”, diz. Para ela, o fundamental é que os pais deem suporte para o trabalho proposto.

Assim, no campo da aprendizagem, pais e professores esperam mais do outro lado – e, novamente, o ponto de equilíbrio é o diálogo e a comunicação.

Para muitos pesquisadores, pais não devem participar tomando lições, corrigindo textos ou agindo como se fossem professores. “Há uma exigência supervalorizada do papel da família. Pais não precisam saber pedagogia, assim como eu não preciso saber medicina para ir ao médico. Sou contra iniciativas escolares que acham que vão fazer o pai participar dando aulas para ele como se ele fosse ser professor”, diz Kátia Smole.

Maria Eulina vai ainda mais longe. “É claro que os pais participam pouco: trabalham no mínimo oito horas por dia, podem gastar muito tempo em deslocamento casa-trabalho, têm seus próprios problemas. Não podem tornar seu lar uma extensão da escola”, diz. “A tarefa básica da família é entregar à escola uma criança em condições de aprender e só. Se a escola quiser promover a equidade deve ‘descontar’ e não contar com a contribuição dos pais”, completa.

Cuidados
A pesquisadora é uma das únicas que se dedica a estudar o tema do reforço escolar no Brasil. Para ela, esse expediente, do qual muitas escolas particulares lançam mão, serve para resolver um problema que aparentemente é da família, ou seja, do aluno ou aluna, mas que de fato é da escola. “Como instituição especializada, contando com profissionais formados, a escola deveria realmente garantir a aprendizagem de todos os alunos, em sua diversidade, com quaisquer dificuldades ou deficiências”, diz.

Para Tereza Peres, diretora do Cedac, organização não governamental que atua na formação de professores, a participação das famílias é importante em outro âmbito, o do cuidado percebido pela criança. “As famílias precisam estar junto com seus filhos em todas as atividades e isso acontece pelo interesse que uns têm em relação aos outros. Perguntar como foi na escola demonstra interesse pelo outro. Garantir que a roupa de ir para escola esteja em ordem, que o estojo esteja completo, que as demandas da escola, como as lições, possam ser realizadas em casa, num ambiente tranquilo, demonstra cuidado”, diz.

Não há estudos científicos que apontem correlações diretas entre a presença dos pais na vida escolar e o desempenho dos alunos. Contudo, principalmente para os sociólogos, a aprendizagem é sim afetada pela família. “Há muitas décadas que nós sabemos que o patrimônio da família, isto é, o conjunto de suas posses culturais, econômicas, de rede de relacionamentos, tem uma alta e direta relação com os resultados escolares”, explica Maria Alice Nogueira.

Na avaliação de Kátia, do Mathema, a parceria entre pais e escolas cresce se as instituições educativas tomam providências simples para enriquecer a vida cultural, promovendo idas a museus e outros espaços públicos de conhecimento, sempre num caráter de convite e de sensibilização.

Construindo parcerias
É nesse ambiente tumultuado, contudo, que vêm acontecendo iniciativas de aproximação entre escolas e pais. “Os pais valorizam a escola e gostariam que ela correspondesse às expectativas. Que os filhos gostassem de frequentá-las, que aprendessem, que se sentissem motivados para continuar aprendendo, que tivessem projetos interessantes para desenvolver”, diz Tereza Peres, do Cedac.

Se há uma disposição de participação, é preciso aproveitar. Há uma lição de casa que as escolas precisam fazer imediatamente, que independe de grandes ações. Uma delas é aprimorar as tradicionais reuniões de pais. “Muitas vezes, as reuniões servem apenas para que a escola dê avisos e apresente suas reclamações”, diz Maria Eulina. Mais disso, para José Marcelino, a presença dos pais dos “alunos-problema” é mais rara porque estes sabem que vão ouvir falar mal do filhos e sofrer cobranças que não têm como atender.

Falar é preciso
É importante também investir em formas de comunicação direta mais frequentes. Ao invés de chamar os pais quando os resultados ruins se concretizaram, é fundamental que as escolas ajam em caráter preventivo, lembra a autora Débora Vaz, diretora do Colégio Castanheira, em São Paulo. “É muito importante que a escola comunique aos pais como ela está vendo o processo de seu filho e sobre o que e como a família poderia fazer para ajudar. Se a escola ficar silenciosa pode estar acontecendo uma inversão de papéis. Aos pais não cabe avaliar e sim reagir frente à avaliação proposta pela escola. Contudo, conversamos pouco sobre o que real­mente importa na educação”, diz.

Para Débora, a tradição brasileira de participação ainda é incipiente e precisa ser construída. Na sua visão, é importante que o foco da parceria não seja a defesa de uma posição de cada envolvido, mas o de um lugar comum: o projeto. “Pais e escola devem defender um princípio em que acreditam”, lembra. Para que isso se materialize na prática, a autora crê ser necessário abrir mais espaços para que os pais participem das rotinas. Em vez de ir assistir a festas e eventos, trabalhar juntos na realização, ter atividades sociais conjuntas. “As escolas precisam perder o medo de que os pais invadam tudo e interfiram no trabalho dos professores”, diz Débora.

No entender de Katia Smole, a construção de uma parceria em bases sólidas deve partir de um pré-requisito fundamental: o realismo. “A escola idealiza demais a família e cobra pelo sonho, não pela humanidade das pessoas que devem ser parceiras na educação”, lembra. Até porque se trata de uma mudança inevitável e histórica. Segundo Maria Alice Nogueira, o que há de novo no processo é que as famílias passaram a ser convocadas – mais do que convidadas – a participar.

“É em nome desse princípio que os educadores hoje se arrogam o direito de penetrar na mais profunda intimidade dos lares, informando-se das crises, doenças, desavenças, separações”, lembra. Ao mesmo tempo, as famílias começam a enxergar sua participação na vida da escola como um direito democrático, e não apenas como um dever.

Pela diversidade de experiências, de pessoas, de expectativas e interesses, não há como esperar relações sempre harmoniosas. “Isso não deve nos impedir de buscar um grau superior de consonância”, diz Maria Alice Nogueira. E, assim, como em qualquer relacionamento, o avanço acontecerá a partir do convívio e do diálogo. Afinal, se a parceria não é uma panaceia, como alerta Maria Alice, o aluno nada tem a ganhar quando os adultos da relação não fazem força para se entender melhor.

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