Diretoras…

…e diretores: é a primeira vez que me dirijo diretamente a vocês

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Rubem Alves










 Antonio Larghi




Há uma razão para isso. Dei-me conta, repentinamente, da sua importância. E isso porque fui frustrado por uma diretora.

Foi assim: visitei uma escola. Passei o dia conversando com as crianças. Uma zorra deliciosa…

Contei estórias. A interação era total. A todo momento as crianças me interrompiam para contar algo que lhes vinha à cabeça. Se na minha estória tinha um cachorro, elas logo se lembravam dos seus cachorros. Se eu falava sobre os três porquinhos, elas se apressavam a contar o fim da estória. Nessa idade, a cabeça das crianças ainda não foi treinada para fazer silêncio enquanto o adulto fala.

Elas têm o que dizer.

Comecei então a contar como aquela cidade havia sido, muitos anos atrás. Os rios eram cristalinos.

Havia imensas matas de araucárias. Muitos animais silvestres. Aí comecei a contar o que os homens estão fazendo, cortando árvores, florestas, espantando os bichos – tudo por causa do dinheiro e por aquilo a que eles dão o nome de progresso.

Propus então que começássemos a reflorestar. Eu lhes daria sementes de araucária, pinhões. Elas plantariam os pinhões num saquinho de plástico. Regariam.

Veriam as mudinhas botar a cara para fora da terra. Cuidariam delas no seu crescimento. Quando estivessem grandinhas, iríamos juntos plantá-las. Há tantos espaços que precisam de plantas! Eu cumpri a minha promessa. As crianças cumpriram a delas. Enviaram-me fotografias, elas sorridentes e os seus pinheirinhos. Aí, quando chegou a hora do plantio, a diretora me escreveu dizendo que estava complicado plantar as mudinhas e que, por isso, ela as havia dado a cada criança para que as plantassem no quintal… Mas todo mundo sabe que uma araucária é árvore muito grande, não pode ser plantada num quintal.

Disse que eu fiquei frustrado. Mas que importa a minha frustração? O que importa é a frustração das crianças. Elas haviam sonhado… Havíamos combinado que cada árvore teria o nome da criança que havia cuidado dela… As crianças aprenderam duas lições: quem manda na escola e que é, de fato, muito difícil reflorestar…

Aí fiquei pensando no seu poder. Diretores e diretoras têm poder… Vocês têm o poder para dizer “sim” e para dizer “não”. Como diz o livro de Eclesiastes: para plantar ou para arrancar o que se plantou.

Existe em sociologia um conceito que se chama “outros significativos”. Todas as outras pessoas são “outros”. Mas “outros significativos” são aqueles outros que levo em consideração no que penso e faço.

Diretores e diretoras, em virtude de sua posição, são tentados a ter como seu outro significativo a burocracia e suas regras.

Mas a diretora que não é burocrata, que é uma educadora, tem como seus outros significativos as crianças. Por isso ela passa pouco tempo no escritório e muito tempo ouvindo e conversando com as crianças.

Quais são os seus “outros significativos”?





Rubem Alves



Educador e escritor
rubem_alves@uol.com.br




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