Diga-me onde moras

Estudo revela influência positiva da mistura social em escolas, e relaciona a segregação econômica e cultural ao bairro onde se vive

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Faoze Chibli


Há indícios de que a convivência escolar entre jovens de classes sociais distintas melhora o desempenho dos estudantes, notadamente dos pobres. Uma pesquisa inédita mapeou níveis de evasão (abandono dos estudos) e de atraso (quando a idade do aluno não corresponde à série que deveria cursar). Constataram-se menores percentuais, em ambos os critérios, nos bairros onde há maior interação entre cidadãos ricos ou de classe média e de baixa renda.



Ainda há lacunas na apuração e interpretação dos dados, pois se trata de um trabalho em andamento, intitulado
Metrópoles, Desigualdades Socioespaciais e Governança Urbana

. Mas as conclusões já tiradas podem apresentar direções importantes para as políticas públicas, como se observa na explicação de Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro (
leia entrevista à pág. X

), professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador do Observatório das Metrópoles, um programa permanente de investigação de grandes cidades e formação de pesquisadores.



Uma metodologia própria foi desenvolvida para cruzar dados dos censos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O foco principal dos cientistas é descobrir como o espaço urbano reflete e, ao mesmo tempo, cria desigualdades. Por exemplo, descobriu-se existir uma hierarquia sócio-espacial em relação aos níveis de aproveitamento escolar. As taxas de atraso no Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP) e Belo Horizonte (MG) são maiores nos bairros pobres, entre jovens de 8 a 15 anos de idade (
leia na tabela abaixo

).



Percepções subjetivas corroboram a tese de que a mistura é benéfica. Sueli Csermak, vice-diretora do colégio estadual Fernão Dias, que fica no bairro paulistano de Pinheiros, de classe média, afirma observar em sua escola a situação descrita na pesquisa. “Os que vêm da periferia procuram uma escola melhor”, analisa Sueli. E a “classe média falida”, brinca ela, procura a escola em peso. Não só pela questão financeira, porque o Fernão Dias é considerado um colégio modelo na rede estadual.



Outro cenário, mesmo enredo: colégio estadual Rui Bloem, em Mirandópoles (SP), bairro de classe média, onde Sueli foi vice-diretora em 2003. Lá, a situação se repetia, narra ela. “Os mais pobres tentam incorporar os hábitos, freqüentar os lugares, de uma classe média que mantém um padrão, mora em casa alugada, usa marcas e grifes, mas não tem mais o dinheiro da escola particular”.



Dentro desse novo contexto, o aluno de baixa renda que sai da periferia para estudar em colégio público nos bairros de classe média está mais motivado, “disposto a tudo”, continua Sueli. Ela pondera, ainda, sobre os efeitos de uma maior exigência do colégio com o aluno. Na opinião da educadora, isso também conta para incentivá-lo a se equiparar culturalmente àqueles que têm maior bagagem.



Mas isso não é regra, ao menos na capital paulistana. A assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Educação esclarece que há grande procura por parte da classe média nas escolas públicas localizadas em bairros de classe média. Com isso, a mistura social é pequena. O mesmo ocorre nas escolas da periferia, onde predominam estudantes de baixa renda. Além disso, a distribuição das instituições de ensino não acompanha a concentração populacional, bem maior em bairros pobres. Só para ilustrar: de acordo com a Secretaria, há seis escolas estaduais no bairro paulistano periférico Perus, com 9.640 alunos, e oito escolas na Vila Mariana, bairro de classe média, com 11.150 estudantes.



Outras variáveis foram analisadas pela equipe de 75 pesquisadores de 23 instituições que integram o Observatório das Metrópoles. Um dos fatores percebidos foi o efeito da composição familiar sobre os resultados dos alunos. Quando os pais são separados, o desempenho dos filhos piora. Também há influência do chamado clima educacional dos lares. Esse conceito observa, entre outros detalhes, os anos de estudo dos membros de um determinado grupo familiar. E nas casas onde a escolaridade dos pais é menor, o aproveitamento dos estudantes tende a cair.



Os professores têm papel fundamental no processo, preconiza Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, do Ippur. Em bairros onde há maior mistura social, eles podem se sentir mais pressionados. Ao mesmo tempo, mais motivados a desenvolverem um trabalho melhor. Até pelas condições materiais ao alcance da escola e dos alunos. Mas também por uma perspectiva de vida melhor para os estudantes. Prova disso é que a região onde se mora tem grande impacto sobre a renda dos cidadãos, e não apenas sobre a escolaridade, como também aferiu a pesquisa. Podem existir diferenças salariais de até 70% entre moradores de bairros e de favelas, mesmo entre pessoas com o mesmo nível de estudo. Apesar de paradoxal, isso justificaria maior otimismo dos professores em bairros mais ricos.


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