“Diferentes”

Em tempos de inclusão, há muita aparência e discriminação

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Quando da realização de um debate, um prefeito pediu-me colaboração e justificou: “Porque o professor trabalhou naquela escola diferente, não foi?”. Efetivamente, tive o privilégio de ter trabalhado 30 anos numa “escola diferente”. A Ponte é “diferente” porque sempre acolheu alunos a quem outras escolas recusaram o direito de matrícula, ou expulsaram. Também é “diferente” porque mantém as portas abertas para todos quantos queiram visitá-la, estudá-la (ou até mesmo devassá-la.).

Mesmo em tempos de crise, a Escola da Ponte jamais se fechou na sua concha. Aliás, é útil para quem a visita que compreenda que não há escolas perfeitas. E que a Ponte é feita de belezas e de misérias humanas. Como qualquer outra escola. E que não inventou nada. Em educação, está tudo (teoricamente) inventado. Para melhorar as práticas da Ponte, andei por muitos países, visitando escolas, cujas práticas nos ajudaram a trabalhar com alunos “diferentes”. Mas também deparei com exceções, ou, melhor dizendo, decepções.

Há cerca de 20 anos, ouvi falar de uma escola estrangeira, considerada modelo de “integração”. Quis ver, para aprender. Cheguei. Fui conduzido para um salão amplo. No meio do salão, um piano. No piano, um velho de estatura imponente (soube, depois que seria o diretor) tocava uma marcha. Os alunos entravam no salão, em duas filas, marchando a compasso. E lá vinham, na cauda do pelotão, os ditos alunos “diferentes”. Finda a cerimônia, os alunos voltaram às suas salas.

Não me foi dado ver o que lá dentro acontecia. Fui muito bem recebido, bem tratado. Findo o “
meeting

“, fui espreitando, através dos vidros (discretamente), para as salas que ladeavam o corredor que conduzia à porta, onde me despedi do simpático diretor. Em nenhuma das salas consegui vislumbrar a presença dos alunos “diferentes”. Ter-se-iam evaporado?… Já longe da vista do diretor, dei uma volta ao edifício e encontrei resposta: ligada por um longo corredor ao edifício principal, lá estava uma sala repleta de “diferentes”. Bem longe dos “normais”.

Numa outra ocasião, fui fazer uma palestra, a convite de uma escola. Cheguei cedo. Aguardei na sala dos professores. Chegado o intervalo, escutei conversas sobre alunos “diferentes”: “Tem algum jeito, colega, que os deficientes, agora, também venham para a escola? Puseram dois na turma a que dei aula. Ficaram o tempo todo lá no fundo, que eu não tenho preparação para trabalhar com deficientes!”.

Em nome da “inclusão”, tenho visto muita aparência e muita discriminição. Ainda nem os professores foram “incluídos” e, talvez por isso, perguntem a uma mãe: “O seu filho é TDA, não é?”. A mãe não percebeu, claro está. E para os leigos, devo acrescentar o decifrar da sigla: “transtorno de déficit de atenção”. Ou pior: “Eu acho que ele vai ser hipercinético!”. E, entre a Ritalina e a mesmice de uma escola organizada para “normais”, se vai mitigando a “diferença”.


José Pacheco


Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)



josepacheco@editorasegmento.com.br

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