Dias melhores virão

Fornecedores de material para laboratórios escolares apostam no crescimento do mercado no setor público em 2005

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Patrícia Gil


O fim de 2004 deve encerrar um período amargo para fornecedores de equipamentos e materiais para laboratórios de ciências nas escolas. Depois de dois anos em que o setor experimentou a paralisia nos novos pedidos da educação básica, algumas empresas começam a fazer planos otimistas para 2005. O sinal de dias melhores vem principalmente dos cofres públicos.




São exatamente as movimentações nas Secretarias de Educação que roubam a atenção até das empresas que não participam diretamente dos processos licitatórios, mas que aproveitam o momento para acompanhar a concorrência. Já as escolas privadas correm o risco de perder um dos diferenciais sobre a rede pública. Em tempos de fuga das altas mensalidades, os pais ganham um argumento para transferir seus filhos para colégios municipais e estaduais à medida que vêem o aparelhamento de novos laboratórios como um indício de qualidade na educação.




Esse conjunto de percepções pode levar a uma reação em cadeia capaz de motivar novos contratos de fornecimento nas escolas privadas. É o que esperam algumas empresas do setor.




Incentivo internacional – A primeira peça desse dominó foi lançada em 2000, quando o Ministério da Educação assinou convênio com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a liberação de US$ 150 milhões num prazo máximo de seis anos. O dinheiro é destinado ao
Programa de Melhoria e Expansão do Ensino Médio

e é empregado conforme a política de cada governo estadual, explica o MEC.




Nos primeiros anos do convênio, parte dos recursos ficou mais restrita a reformas prediais e a investimentos em informática. Desde o ano passado, no entanto, alguns governos abriram concorrência para materiais e equipamentos na área de ciências. Entre eles, Espírito Santo, Santa Catarina, Sergipe, Alagoas, Mato Grosso e Rio Grande do Norte. Os efeitos foram sentidos mais recentemente, quando as compras foram efetivamente realizadas. Há processos de licitação em andamento.




No Espírito Santo, por exemplo, até o fechamento desta edição ainda não havia sido concluída a escolha do fornecedor dos 200 kits escolares (com aparelhos diversos), com custo unitário entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. Os kits contêm instalações móveis prontas, que dispensam obras físicas e que apresentam desde equipamentos como microscópios até materiais como frascos. Há ainda licitação de armários que chegam à escola devidamente preenchidos com material de estoque, além de equipamentos para uso em bancada.




Em Alagoas, houve pregão para a compra de 30 kits no início de 2004, que custaram R$ 545 mil. Somando as unidades que já faziam parte de um programa similar mantido pelo então
Projeto Alvorada

, também do governo federal, pouco mais de cem escolas alagoanas de ensino médio devem estar com os laboratórios de ciências devidamente equipados ainda em 2005. As informações são das respectivas Secretarias Estaduais de Educação.




“O mercado espera uma melhora significativa para 2005, mas essa expectativa vem toda do ensino público”, diz Célio Ferreira Oliveira, gerente de vendas da Com Ciência, de São Paulo (SP), que comercializa materiais para laboratórios de química, física e biologia. A empresa oferece desde vidraria até balanças e microscópios. Ela é um dos fornecedores que não estão interessados em participar das concorrências, mas acaba prestando consultoria a outras empresas. A Com Ciência atua em cerca de 6 mil escolas no Brasil, com mais pedidos no varejo. É exatamente essa base de colégios que lhe permite conhecer bem esse mercado.




Em São Paulo, empresas que trabalham na montagem de infra-estrutura de laboratórios confiam que o mercado dará um salto a partir da execução do contrato entre a prefeitura da capital e a Positivo Informática, de Curitiba (PR). A empresa venceu a licitação para aparelhar os laboratórios de informática na rede municipal. Para tanto, fará outra concorrência para escolher aqueles que realizarão o serviço.




“É por aí que o mercado tende a crescer”, conta Evandro Misson, diretor da Servline, que deve participar desse processo. A empresa, com sede em São Paulo, também se especializou em montar a estrutura para laboratórios de química. Nos últimos anos, porém, viu a participação do segmento escolar se limitar a 15% do seu faturamento total. “Na rede particular de ensino, ainda falta uma visão de valor quanto à importância de se ter uma infra-estrutura adequada para equipamentos modernos e interligados”, critica Misson.




Alternativa brasileira – A percepção de que o Brasil começava a entrar na rota dos países preocupados com qualidade de ensino público acabou por atrair uma empresa inglesa especializada em laboratórios para estudo de ciências. O Grupo Sangari aportou por aqui em 1998, depois de já ter chegado em outros países. Enquanto nesses lugares a empresa havia se especializado em projetos públicos – muitos dos quais na esteira de financiamentos do Banco Mundial para governos locais -, tal modelo de negócio foi adaptado no Brasil.




“Lá fora, costumávamos realizar projetos inteiros para montar laboratórios, da concepção até o fornecimento de materiais de uso cotidiano”, conta a gerente de marketing, Cristina Ikonomidis. Mesmo sem fabricar os equipamentos, a Sangari montava consórcios e realizava a obra completa. “Mas, no Brasil, nos deparamos com uma rede pública descentralizada demais e, em seguida, veio a explosão do dólar, o que dificultou a importação dos equipamentos com os quais trabalhávamos”, lembra.




Apesar das dificuldades visualizadas no setor público, foi justamente na rede municipal de São Paulo que a empresa acabou por experimentar o que se tornou não apenas uma alternativa, mas o carro-chefe para os negócios no Brasil. Se o problema estava em montar as estruturas mais trabalhosas do laboratório, a Sangari criou um programa pedagógico em que a experimentação é levada para a sala de aula, por meio de kits individuais para cada conteúdo teórico explorado pelo professor.




O programa
Ciência e Tecnologia com Criatividade

(CTC) foi concebido em parceria com a Escola do Futuro, da USP. O projeto-piloto foi implantado em 2002, em 15 escolas municipais da periferia da cidade, próximas das áreas de implantação de alguns Centros de Educação Unificada (CEUs). O CTC é apresentado em quatro módulos bimestrais para cada série do ensino fundamental. Em cada módulo, os professores lidam com um tema específico e os alunos realizam experiências práticas.




O trabalho resultou em livro lançado pela Unesco, mas não teve continuidade pela prefeitura. A partir de então, a Sangari passou a mirar o setor privado como seu principal foco. Além disso, desenvolveu um sistema de vendas por catálogo com aproximadamente 3 mil itens para laboratórios – de tubos de ensaio a microscópios. “A Sangari também sentiu, nos últimos dois anos, os reflexos da estagnação na economia, mas achamos que 2005 será o ano em que as escolas retomarão os investimentos em ações que dão visibilidade diante dos pais”, projeta Cristina.




Controvérsias – A sensação de alguns empresários do ramo é a de que as escolas privadas se limitaram, nos últimos tempos, a repor materiais usados. Aquelas que já passaram pela fase de trocar equipamentos antigos por novos costumam recusar a necessidade de investimentos permanentes. Para Edson Toledo Lazzari, gerente de vendas da Lafaiete – especializada em projetar e instalar mobiliário de laboratórios e consultórios especializados -, o mercado privado ainda ficará estacionado em 2005. Segundo ele, é tempo de acomodação nesse setor. Como a empresa acabou por se firmar principalmente entre faculdades e universidades – segmento que experimentou grande crescimento nos últimos anos, ao contrário das escolas de educação básica -, a projeção para 2005 é de que seu faturamento se mantenha no patamar atual.




Já no ramo de equipamentos, parece haver mais otimismo. A Indústria Brasileira de Laboratórios (IBL), uma das principais empresas especializadas na concepção e montagem de laboratórios, começou a sentir o aumento da procura de projetos. “Esse é um sinal de que esses pedidos poderão virar novos negócios a partir do início de 2005”, comemora Newton Cláudio Chinazzo, um dos proprietários. Há dez anos no mercado, a IBL exibe uma carteira de 250 clientes atendidos e, em alguns casos, com mais de um laboratório em cada escola. Diante da promessa de um mercado melhor no próximo ano, a IBL deve tirar da cartola lançamentos de produtos e serviços voltados principalmente para a segurança de equipamentos nas salas de ciências.




A Azeheb é outro exemplo de confiança na melhora do mercado. Com sede em Curitiba, ela fabrica equipamentos para laboratórios de física, além de comercializar outros produtos para biologia e química. Os sinais positivos vêm dos investimentos previstos do governo federal em escolas públicas – com aportes diretos, como nas universidades, ou indiretos, por meio de convênios com os estados. A empresa prevê vários lançamentos para 2005, incluindo a interface entre experiência manual e
softwares

para tratamento de dados, conta o diretor Rodrigo Azevedo Bukta.




No Rio Grande do Sul, o Centro Industrial de Equipamentos de Ensino e Pesquisa (Cidepe) acredita no crescimento do mercado justamente porque visualiza o quanto ainda há a ser feito pelas escolas. A empresa atua há 25 anos em desenvolvimento, fabricação, comercialização de produtos nas áreas de física, fisiologia, biologia e química. Ela atinge também o mercado externo. Segundo seu diretor, Luiz Antonio Macedo Ramos, o crescimento das faculdades particulares no Brasil estimulou o setor até o momento. As escolas pagas, de maneira geral, devem continuar alimentando novos lançamentos. E 2005, afirma ele, lhes reserva outro trunfo: será o Ano Mundial da Física, o que deve estimular o interesse pela disciplina.


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