Devagar, nem sempre

Especialista em educação a distância acusa professores de serem responsáveis pela lentidão com que inovações tecnológicas chegam à academia

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Faoze Chibli





Claude Frasson é um acadêmico pouco ortodoxo. Ph.D e doutor em educação e inteligência artificial, ele não hesita em criticar a própria classe quando o assunto é mudança: “O setor acadêmico está sempre se movendo lentamente por causa das hesitações dos professores”. Além de dar aulas na Universidade de Montreal, Frasson preside a Virtuel Age International (VAI), companhia canadense especializada em realidade virtual e educação a distância.

De olho em novos campos de atuação, o professor veio ao Brasil para um encontro na Secretaria de Ensino Médio Tecnológico do MEC. Achou o encontro positivo, mas prevê que uma possível parceria ainda deva levar “muito tempo”. Enquanto um acordo com o MEC não sai, ele busca uma proximidade maior com a empresa nacional Virtual Techknowledge, numa parceria que deve levar às instituições brasileiras de ensino ferramentas para aumentar o alcance de seus conteúdos.

Frasson também faz parte de grupos canadenses de pesquisa, como o Grupo Inter-Universitário de Pesquisa em Tutores Inteligentes (Griti), que desenvolve estudos multidisciplinares sobre a aplicação eficiente da tecnologia na educação. Uma intensa atividade intelectual faz parte da vida desse francês de Quebec: já publicou quatro livros e centenas de artigos científicos, além de fazer parte do corpo editorial de publicações científicas em seu país. Não é de se estranhar que ele considere a academia “lenta em relação às transformações do mundo atual”.


R




evista Educação – O que significa o conceito de
i-learning

preconizado pelo senhor?





Claude Frasson –



O maior erro da educação a distância tradicional (
e-learning

) é que você não “vê” o aluno. O
inteligent-learning

é uma evolução do conceito anterior, que procura exatamente corrigir esse erro e prover o estudante com soluções individuais. Essas soluções devem levar em conta a personalidade do aluno. Sem motivação, não há aprendizado eficiente. O tripé que forma o conhecimento é autoconfiança, motivação e performance. Se um desses aspectos não flui adequadamente, tem-se efeitos superficiais, que não fornecem os subsídios necessários no mundo atual. O conhecimento precisa ser transmitido de forma rápida, mas perene. É necessário “ver” o aluno.





A educação a distância substitui o ensino tradicional?





Não há substituição. A educação a distância surge da necessidade de acessar mais estudantes em momentos diferentes e de acordo com a disponibilidade deles. O foco da educação a distância é o aluno, não os professores – sinto muito por eles, mas eles têm de entender. Mas nesse tipo de educação também pode ocorrer aprendizado com a presença do professor. No ensino eletrônico, evita-se repetir diversas vezes a mesma coisa e o professor pode se concentrar em reparos específicos.





Então, a presença humana pode ser substituída, no sentido de trocar olhares, cheiros e tudo que é característico das pessoas?





Vários sentidos podem ser usados com o propósito de aprender – geralmente, nós usamos apenas dois. Na Virtuel Age International (VAI), nós desenvolvemos um acesso múltiplo com o toque e estamos desenvolvendo os cheiros. Será possível integrar todos os sentidos.





O modelo tradicional de escola corre o risco de desaparecer por causa das ferramentas tecnológicas?





O modelo tradicional de escola tem de ser adaptado, usando períodos de educação a distância e períodos presenciais. O professor deveria ter um panorama do que todos entendem ou não, para poder intervir com precisão.





Por que a falta de motivação do aluno leva ao esquecimento?





Há um provérbio chinês que diz o seguinte: mostre-me alguma coisa e eu esquecerei; conte-me alguma coisa e eu começarei a me interessar; envolva-me em alguma coisa e eu aprenderei. Como demonstra a psicologia cognitiva, nós temos dois tipos básicos de memória. Um deles é a memória superficial, que usamos para guardar pequenas tarefas – um número de telefone, por exemplo – e logo esquecemos. Quando o estudante não está motivado, somente esse tipo de memória é ativada. Todo conteúdo transmitido nessas condições desaparecerá ou restará muito pouco. É um esforço perdido, desperdício de tempo e dinheiro. Para ter resultados permanentes é preciso ativar uma memória mais profunda, que só vem à tona quando o aluno está motivado, pessoalmente comprometido com o conteúdo a ser absorvido. Se você está motivado, terá energia para aprender e agregar conhecimento. O conhecimento é uma descoberta, você precisa ser guiado para tal. Isso não é possível sem a interação entre aluno e professor, necessária para o sucesso de qualquer empreitada desse tipo.





Que papel o professor assume nesse contexto?





O professor é designado como um co-aprendiz. Isso porque ninguém “tem” o conhecimento. O conhecimento existe e precisa ser construído individualmente. É o aluno quem constrói o próprio conhecimento. O professor recebe essa denominação dentro desse contexto porque ele está o tempo todo aprendendo com seus alunos. Ele deve descobrir, com o auxílio de ferramentas didáticas, o que está na cabeça do aprendiz. Há uma diferença fundamental entre projetar o conhecimento e extrair o conhecimento. Projetar o conhecimento é inútil, despejar conteúdos sem reflexão e envolvimento. O papel do co-aprendiz é extrair conhecimento com auxílio de uma série de técnicas.





Quais técnicas?





Há inúmeras formas de otimizar o desempenho do aprendiz. O uso de cores, por exemplo, é bastante interessante. Há pesquisas que demonstram resultados positivos no sentido de reforçar o conhecimento com esse recurso. E também para evitar mal-entendidos na transmissão de idéias. Cada pessoa reage de forma diferente a diferentes estímulos visuais envolvendo cores. Usa-se essa característica para ajudar quem aprende. O estado de espírito também pode ser percebido pelas cores. Outro passo fundamental é descobrir qual o estilo de aprendizado de cada pessoa. Existem tipos bem distintos de pessoas, que percebem o mundo

com ênfase nos aspectos visual, auditivo ou sinestésico. Essas categorias não significam que a pessoa aprende apenas dessa ou daquela maneira. Apenas que possui maior ou menor afinidade com alguma forma de comunicação.





Como o ensino digital faz uso dessas tendências?





O retorno do aluno é imprescindível nesse tipo de ensino. E também as estatísticas e deduções. O
inteligent tutoring system

(sistema de tutoria inteligente) pretende criar uma democracia do aprendizado e tornar possível que a pessoa aprenda bem e rapidamente. É o que se chama de conhecimento
just in time

[
numa tradução livre, algo como “num prazo curto e definido”

]. Hoje, as pessoas não podem se dar ao luxo de levar muito tempo para se aperfeiçoar ou adquirir uma certa habilidade necessária desejada. A realidade é “semana que vem eu tenho que saber isso”. Mas não se pode aprender bem sem ser guiado adequadamente. A personalidade das pessoas influencia muito nesses resultados. Experiências constataram que a presença de um estudante muito contestador dentro de um grupo pode incomodar, mas também ajuda algumas pessoas. É um conceito denominado “aprender por incômodo”. Então, se constatamos que você reage bem a esse tipo de estímulo – levando em conta os dados que temos a seu respeito – podemos criar um aluno virtual com essas características para ser seu “colega”. Ou, então, desenvolver um colega virtual que saiba um pouco mais do que você e, portanto, possa ajudar.





Muitas das técnicas citadas pelo senhor são de metodologia de ensino. Por que aplicá-las no ensino digital?





orque assim pode-se aumentar a eficiência e, conseqüentemente, a velocidade. É possível atingir, em vez de uma sala de aula com espaço físico limitado, cem ou mil pessoas ao mesmo tempo. O que, claro, torna o custo mais baixo também. É por isso que nossos principais clientes na VAI são empresas. Porque custos, rapidez e eficiência são prioridades para eles. Estima-se que, só nos EUA, as empresas gastem, por ano, aproximadamente US$ 740 bilhões em treinamentos. O setor acadêmico está sempre se movendo lentamente por causa das hesitações dos professores. Mas eles não podem evitar essa tendência. Nossos alvos de atuação são escolas, universidades e aplicações industriais. A prioridade será as instituições que desejam economizar dinheiro. A indústria já compreendeu que é possível fazer isso com o ensino digital. Temos planos para ministrar um grande número de cursos pela internet. Harvard, Yale e outras universidades concluíram que elas precisam fazer isso. Uma instituição não pode evitar esse meio. De outra forma, ela estará obsoleta.





O senhor afirma que a academia se move lentamente, mas o senhor é também um acadêmico.





Acontece que a maioria tem medo. Eles têm de mudar seus hábitos e ser mais pedagógicos. Eles geralmente dominam seu assunto, alguns fazem o esforço da pedagogia, mas não a maioria. Eu me lembro de meu vice-reitor olhando para minhas ferramentas, alguns anos atrás: “Sr. Frasson, o senhor está definitivamente no caminho certo do futuro, mas como posso convencer meus 8 mil professores da Universidade de Montreal a mudarem de atitude?” É por isso que eu acredito que as pequenas universidades com boa visão podem se mover de maneira mais rápida para a educação a distância e, provavelmente, para o
i-learning

. Grandes universidades farão uma comédia do
e-learning

, dando as ferramentas para que todos possam falar com todos, como num e-mail generalizado. Uma completa ineficiência em termos do bom aprendizado. Estamos longe do
i-learning

.


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