Destapando a caixa negra

Se o maior aliado do professor é o outro professor, o maior inimigo do professor também é o outro professor

Compartilhe
, / 1046 0



José Pacheco









Perguntam: qual foi o maior obstáculo que a Ponte enfrentou? O ministério? Os pais dos alunos? Respondo: o maior obstáculo fui eu. Fui obstáculo, quando me assumi auto-suficiente e me mostrei incapaz de identificar na tibieza de alguns professores as minhas próprias fraquezas, fui obstáculo quando não ousei divulgar confidências de professores, que me pediam para destapar a caixa negra.

Muitas escolas são como caixas negras. As salas de aula continuam sendo mistérios por desvendar.

Pouco ou nada transpira dos redutos seguros das inseguranças.

Pouco ou nada do que lá dentro acontece extravasa para o domínio público. Mas há, nessas escolas, professores conscientes do drama, que, ao longo de mais de 30 anos, me confidenciaram denúncias e me pediram que as divulgasse.

Por que não o fariam eles próprios? Fácil é a explicação: se o maior aliado do professor é o outro professor, o maior inimigo do professor é o outro professor. Por que não o fiz? Fácil é a resposta: cedo compreendi que, também nesse capítulo, a Ponte não estava sozinha. Os professores da Ponte eram feitos da mesma massa, dotados das mesmas virtudes e dos mesmos defeitos de quaisquer outros professores.

Qualquer denúncia de humanas fraquezas em escolas alheias recairia sobre nós. Quem cospe para o ar…

No tempo em que a Ponte acolhia professores “concursados”, o primeiro dia de aulas era uma “animação”.

Os noviços saíam das salas e perguntavam: Quando toca a campainha?

– Não há campainha – respondia.

– Não há?… Mas… e pode? Então… e os horários?

– Também não há horários.

– Não há? E onde está o livro de ponto? Não consegui encontrá-lo.

– Não há livro de ponto.

Numa escola onde pontificava o valor da autonomia, não fazia qualquer sentido a existência de mecanismos de controle – onde houvesse diretor para se fazer obedecer, horários de padrão único para cumprir, livros de ponto para assinar, faltas para justificar, não haveria professores autônomos. E, porque eram pessoas inteligentes, os novéis professores compreendiam e adaptavam-se à nova realidade.

Testemunhei exemplos de elevado profissionalismo.

Em contraponto, professores havia que, a pretexto de não haver livro de ponto, se a hora de entrada era 8h30, chegavam às 9h. Dificilmente corrigiam vícios sedimentados nas escolas por onde antes tinham passado, chegando pontualmente atrasados. E, porque não havia necessidade de justificar faltas, ausentavam-se, dias a fio, a pretexto de um qualquer tio materno ter morrido… pela quinta vez.

Os 30 anos do bem-sucedido projeto da Ponte assentaram na reelaboração da cultura pessoal e profissional dos seus professores. Toda a mudança passa por aí. Se a pessoa não muda, como poderá mudar a escola? Dito de outro modo: onde não houver uma pessoa, será possível encontrar um professor?

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN