Desconfiança mútua

Pais com menor grau de instrução tendem a não dialogar com a escola por vergonha ou desconfiança; criança permanece esquecida

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Andréa Beltrão e Matheus de Sá em Verônica, de Maurício Farias: a realidade de estudantes que vivem em zonas conflagradas retratada pelo cinema

Um aluno que era tido como problemático em uma escola estadual é colocado para fora da sala de aula em razão da falta de uniforme. A ordem da diretora foi enfática: “enquanto o seu pai não vier falar comigo, você não pode retornar às aulas”. O pai tentou marcar um horário diversas vezes, mas nunca era possível. Aos poucos, foi se sentindo culpado. Só percebeu que não estava tão errado assim quando conversou com outros pais em um grupo de entrevistas promovido pela então aluna de doutorado da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto Daniela de Figueiredo Ribeiro.

“Uma das mães disse a ele que tudo que acontecia na escola era culpa do filho dele, por ele ser considerado problemático. Por isso, deve ter sido mais complicado”, lembra Daniela. Para ela, o relato resume os moldes da relação entre escola e família quando o assunto é a escola pública. “Muitas vezes, eles nem sabem como lutar pelos direitos, se estão certos ou errados. Ficam muito envergonhados diante da escola quando o filho é visto como problema”, diz.

Há um certo estranhamento quando os pais vão à escola pública. Em muitos casos, em função da pouca instrução, não estão habituados com o universo escolar. Acabam conhecendo apenas seu lado ruim, já que são convocados geralmente por problemas disciplinares de seus filhos. Maria Cláudia Vieira Fernandes, diretora da Emef Armando Cridey Righetti, em São Paulo, conta que pouquíssimos pais procuram sua escola – quando o fazem, é em razão da disciplina. “Temos famílias sustentadas pela mãe, que fica fora o dia todo. É difícil que apareçam”, diz. Mas ela enxerga outro fator para o distanciamento: a percepção que se tem da escola. Em outras palavras, Maria Cláudia acha que os pais não respeitam a instituição escolar e atribuem todos os problemas da inadequação do filho à escola, e não à família. “Há uma campanha forte na mídia contra educação. Quando aparece algo, é ruim. Isso não ajuda a criar um sentimento de colaboração”, acredita.

De um universo de 1.800 alunos, há seis pais que fazem parte do conselho escolar e seis pais que se revezam para acompanhar as crianças durante o recreio. Um dos pais é Manoel Soares de Freitas, comerciante cujo filho está na 7ª série. Ele confirma que não costumava frequentar a escola porque não sabia de sua importância. “Vi as dificuldades que eles têm e deu vontade de ajudar. Agora tenho conversado mais com o meu filho. Digo a ele que, se não estudar, o futuro vai ser difícil”, conta. A frase endossa a opinião da professora Maria Alice Nogueira, coordenadora do Observatório Sociológico Família-Escola da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG): esses pais relacionam a importância da escola com a possibilidade de um futuro melhor – o problema é que não encontram os meios culturais e econômicos de ajudar como gostariam. “As pesquisas já nos mostraram que omisso ele não é. O que a escola espera dos pais em geral é a participação de um pai de classe média com capital cultural. Que conhece o funcionamento, o filho, as regras, que se informa”, aponta Maria Alice.

Eduardo Garcia Amaral, professor de filosofia na EE Zuleika de Barros, concorda com a visão. Para ele, ao convocar os pais apenas por problemas de disciplina, a escola atesta não haver competência por parte deles para educar os filhos. “Há um discurso de poder aí: nós somos responsáveis pela educação do seu filho porque fomos formados para trabalhar com isso. Você não”, afirma. Ele acha que os problemas disciplinares deveriam ficar restritos ao ambiente escolar – caberia à escola repensar suas regras, para que os alunos começassem a respeitá-las. “Você tem professor que assume cada vez mais uma postura paterna por conta da ausência de regras”, diz.


Função social


Em outra entrevista, Daniela escutou a história de uma criança do primeiro ciclo do ensino fundamental que começou a morder os colegas e a assumir uma postura agressiva. A diretora chamou a mãe, que tinha acabado de se tornar viúva, e avisou: “dê um jeito no seu filho ou eu vou dar um jeito nele”. Ela ficou sem saber o que fazer. O relato levou a estudante de psicologia a se questionar de quem é esse papel. “Na medida em que trabalha com a camada popular, a escola deveria saber como ela é. Não resolve dizer: dá um jeito. A escola pública não tem se preocupado em servir essa população. Pelo contrário, parece que faz um favor de dar escola gratuita a essa população”, pondera.

É nesse sentido que a psicóloga Ana Cristina Nassif defende uma parceria entre escola e família. Para ela, a escola pública deveria deixar de lado essa postura que desqualifica o conhecimento do pai sobre o cotidiano daquela criança. “Somos tão especialistas assim que os pais não podem entrar na discussão? É possível haver uma troca de saberes”, diz. Para ela, quando uma diretora diz “eu sei o que é bom para o seu filho”, ela sabe em termos. Da mesma maneira que os pais sabem em termos. “São saberes diferentes que podem ser trocados para construirmos terceiros saberes”, pontua.

Outra sugestão de Ana Cristina é que a escola adapte sua linguagem quando for conversar com o pai. Já que não há conhecimento sobre as questões pedagógicas, os diretores poderiam tentar uma “tradução” dos conhecimentos que precisam ser passados aos pais. “Não quero sobrecarregar a escola, mas é uma questão de adaptação de linguagem. Dá para fazer”, diz. Na maior parte dos discursos dos especialistas ouvidos pela reportagem, houve o cuidado de não colocar a culpa na escola ou na família pelos problemas de seu relacionamento. “A verdade é que estamos perdidos. Há uma questão social muito mais ampla na qual a escola está inserida. A cultura escolar precisa ser repensada na maneira de entender os problemas e suas soluções”, defende Daniela. Logo depois que terminou sua tese de doutorado, ela ficou sabendo que o aluno problemático do início do texto havia falecido com um tiro na cabeça. “Ele foi sendo rechaçado pela escola e foi para a rua. A escola deveria ter um papel preventivo em termos de problemas sociais e violência e precisa ser acolhedora. Caso contrário, a situação se retroalimenta e quem perde é a criança”, finaliza.

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