Descatracalizar

As diversas catracas presentes dentro e fora das escolas

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Gilberto Mariotti
Numa cidade brasileira, agentes da autoridade deram caça a alunos que matavam aula. Capturaram-nos nos parques e nas ruas, ao estilo do bedel de outros tempos. De um lado, professores esforçados e sofridos, dando aula numa escola sem sentido; de outro, matadores de aula, que não as querem receber. Pelo meio, a caça aos matadores e a instalação de catracas.

Que feliz neologismo é o “descatracalizar”! Escutei-o na boca de um grupo de jovens conscientes do absurdo que consiste em muralhar as escolas. Escutei-o no mesmo dia em que outro jovem exclamava, durante a visita a uma escola sem catraca: “o portão fica aberto? E nem uma grade tem? Assim, todo o mundo pode fugir!”. Como diria John Kennedy, o conformismo é o carcereiro da liberdade e o inimigo do crescimento. Libélulas morrem sob o efeito do estresse do medo do peixe. Só de sentir a sua presença, elas morrem. As escolas não são apenas edifícios, muros, regulamentos. São as pessoas que nelas atuam e alimentam essas unidades sociais vivas. São estruturas organizacionais, que refletem um regime de vida em comum, uma cultura. E como se carateriza a cultura de muitas escolas?

Confesso um pecadilho, vício de velho professor: visito escolas, mesmo quando não sou convidado. E o que vejo? Inicio a visita, quando a confusão do recreio cessa por obra de um toque de sineta, ou pelo estridente grito de uma sirene, quando outros gritos se fazem ouvir, vindos das salas de aula. Entro no banheiro dos alunos. Observo. Por vezes, o vaso está quebrado e não tem descarga. Frequentemente, não há papel higiénico, ou está nas mãos de uma faxineira, que o distribui em conformidade com a sua estimativa da necessidade do aluno que quiser evacuar. Sabão para lavar as mãos é um bem escasso. E raramente encontro um espelho.

Passo à visita seguinte: a biblioteca. Em tempo de aula, três hipóteses são viáveis. Ou está fechada, protegida por grades, com cadeado. Ou está vazia, com uma bibliotecária, sentada num canto, a dormitar, ou a fazer malha. Ou vejo alunos de castigo, à espera de “audiência” com o diretor. Em suma: uma biblioteca é um depósito de livros que nunca serão lidos, ou uma antecâmara de tortura.

A terceira estação da minha via-sacra é a sala dos professores. Aguardo que regressem de dar aula. Escuto as reclamações, as queixas, as explosões de cólera: “esse merdinha nunca mais entra numa aula minha! Vai ser um lixo da sociedade!” (juro que esta foi uma das exclamações mais suaves entre as que já escutei). Concluo a visita convicto de que a escola se mantém cativa de múltiplas violências. Confirmei essa realidade quando descobri a existência de catracas mentais. Quando, no decurso de uma reunião, eu desocultava sutis formas de violência, o inusitado aconteceu: irritado e sem argumentos para contrapor à denúncia, o diretor da escola interceptava e fazia desaparecer papéis com perguntas, que os professores me dirigiam.

Para evitar fugas, ou impedir intrusões, muitas escolas completam a catracalização com a instalação de detector de metais, câmeras de vigilância e sofisticados aparelhos de leitura das impressões digitais. Ainda há quem creia que a conversão dos matadores de aula pode ser alcançada vigiando, punindo, tentando transmitir informação moral. Que se desenganem: os valores são construídos em práticas efetivas. Se o “matador” se sentir respeitado, se o vivido entre muros fizer sentido, verá significado em permanecer na escola. Se o não for, que motivos terá para não matar? Resta uma dúvida: a catraca prende o matador de aula dentro, ou fora da escola? A catraca serve para evitar entradas, ou para proibir saídas? Em suma: para que serve uma catraca?


*José Pacheco
Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
josepacheco@editorasegmento.com.br

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