Desafios reais para problemas reais

Superando o ceticismo de empresas e indústrias, instituições conseguem estabelecer parcerias com o mercado para alinhar o currículo às demandas de cada setor

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Há muito tempo que os alemães já perceberam a importância da interação entre escola e mercado e sua influência na formação de profissionais inovadores, eficientes e aptos a solucionarem problemas reais. Não foi à toa que o país europeu construiu uma das indústrias mais pujantes do mundo e conseguiu se reerguer depois de duas grandes guerras. A aproximação destes dois setores possibilita que o conhecimento acadêmico seja aplicado na prática e com isso fomente o empreendedorismo e faça a roda da economia girar.

Apesar de não ser uma prática necessariamente nova, aqui no Brasil a formação de parcerias entre instituições de ensino superior e empresas ainda dá seus primeiros passos, em parte pelo seu desenvolvimento tardio, por questões de afinação entre os dois modelos e, principalmente, pela desconfiança do mercado. Alguns reitores alegam que diversos empresários têm receio de fechar convênios por entenderem que o ‘tempo acadêmico’ não se adapta ao ‘tempo industrial’ – afinal, a esteira da fábrica não pode parar. E além de questões burocráticas como prazos, orçamentos e documentações, a principal desconfiança está na falta de entendimento sobre o real ganho gerado com as parcerias. Mas a boa notícia é que esse ceticismo pode sim ser desconstruído e, a partir de então, iniciada uma relação de confiança mútua.

Apenas para listar algumas das vantagens para as instituições, as parcerias com o mercado podem reduzir custos com tecnologia, trazer para a sala de aula o que há de mais moderno na indústria, tornar os cursos mais atualizados com problemas reais, fomentar novos negócios e soluções inovadoras e ofertar vivências únicas aos alunos, facilitando o acesso a empresas e criando maiores possibilidades de estágios e efetivações. Talvez a melhor palavra que descreva uma boa parceria seja ‘flexibilidade’. Dependendo de cada caso, conforme a participação de investimentos e de disponibilidade de recursos humanos, os contratos podem incluir cláusulas de sigilo ou ainda de patentes compartilhadas. Ou seja, os modelos de negócio são bastante variados.

Transferência de tecnologia
Esse formato de educação mais voltado para o mercado tem como um de seus principais expoentes o alemão Ferdinand von Steinbeis, um consultor comercial do século 18, que prestava serviços ao então Reino de Württemberg – atual estado de Baden-Württemberg. Um homem à frente do seu tempo, ele acreditava que as escolas deviam fornecer soluções práticas para os problemas reais das indústrias. Assim, Steinbeis desenvolveu o inovador conceito de transferência de tecnologia e ajudou a promover o desenvolvimento da região, que hoje abriga diversas multinacionais, entre elas a Mercedes-Benz, Porsche e Bosch.

Como referência ao antigo consultor, em 1971 foi criada na Alemanha a Fundação Steinbeis, um braço do Ministério da Economia que tinha por missão desenvolver a indústria do país utilizando o mesmo conceito de transferência de tecnologia. A instituição começou prestando consultoria a diversas universidades, nos anos seguintes criou institutos e centros de transferência e em 1998 foi fundada a Universidade Steinbeis. Atualmente é considerada a maior instituição de ensino superior privada da Alemanha, com cerca de 6 mil alunos e 700 professores. Além disso, está inserida em mais de 50 países, incluindo o Brasil.

O modelo praticado pela instituição é sustentável e bastante inovador. Com cursos de mestrado voltados principalmente às áreas de negócios e gestão, a Steinbeis é financiada inteiramente pelo mercado. A universidade utiliza o conceito de transferência de tecnologia e trabalha com foco no desenvolvimento de projetos. Aqui entram as parcerias, que são o diferencial do modelo adotado.

A instituição seleciona empresas que estejam interessadas em soluções reais e queiram firmar convênios para desenvolver projetos. Já os estudantes inscrevem-se gratuitamente nos diversos institutos da Steinbeis e passam a integrar um grande banco de candidatos. Para finalizar, o aluno com perfil mais adequado é escolhido para realizar determinado projeto. Ou seja, o formato é composto por uma tríade entre aluno, empresa e escola voltada a apontar soluções a um problema existente. E todas as partes saem ganhando. A empresa, que arca com os custos do processo, é beneficiária final do projeto. Com os recursos recebidos, são pagas as taxas da universidade e o aluno recebe uma bolsa de estudos.

Porém, o modelo de parceria utilizado tem um ponto frágil. Ele depende muito da condição econômica do momento e, principalmente, da disposição das empresas em assumirem os custos da inovação. Desta forma, o crescimento da instituição fica refém da boa vontade do mercado, o que restringe sua autonomia. O presidente da Universidade Steinbeis, Johann Löhn, reconhece que o formato dificulta o acesso dos alunos. “Nosso foco são os projetos, porém, não temos muitos. Por isso, não podemos aceitar todos os estudantes. Este é um modelo para poucos”, explica.

Interface com a indústria
No Brasil, algumas instituições se destacam por trabalhar em parceria com empresas. Talvez uma das principais seja o Instituto Mauá de Tecnologia, com sede na cidade de São Caetano do Sul (SP). Criada em 1961, a escola apostou forte no trabalho em conjunto com a indústria. E essa estratégia acabou dando certo. Localizada no polo industrial automotivo do Grande ABC, as multinacionais do setor aderiram à proposta e se tornaram parceiras da Mauá.

Atualmente com cerca de 4 mil alunos divididos entre os cursos de engenharia, administração e design, a Mauá se diferencia por ter o dobro de laboratórios em relação ao número de salas de aula – são 56 salas para 108 laboratórios. E isso só foi possível, em parte, devido à sua boa relação com as empresas. O objetivo inicial era claro, explica o reitor José Carlos de Souza Junior, e demandava aporte financeiro. Com foco em pesquisa aplicada de curto e médio prazo, a Mauá buscava ser referência na área e para isso precisava de uma moderna estrutura laboratorial. A saída encontrada foi fechar parcerias.

“É caro manter essa estrutura e não se justifica o pouco uso. Se tivesse de começar de novo seria procurando as empresas. O outro caminho seria cobrar uma mensalidade abusiva dos alunos. Ficaria muito caro sem as indústrias”, comenta o reitor.

Assim, para afinar as relações com o setor industrial, a Mauá criou em 1976 dentro de seu campus o centro de pesquisa, um órgão independente que responde à superintendência do instituto, porém, com forte interação com a esfera acadêmica. Ele é composto por cerca de cem funcionários, dentre eles 25 estagiários, diversos engenheiros com experiência de mercado e alguns professores que circulam entre os dois ambientes. “A ideia era criar uma interface com a indústria. É preciso falar a língua das empresas. Senão fica a coisa do acadêmico tentando se comunicar com o industrial”, justifica o reitor.

O centro de pesquisa mantém hoje parcerias com praticamente todas as montadoras de automóveis e diversos sistemistas para realização de ensaios, testes e avaliações de produtos. Além disso, presta serviços para diversas empresas em todas as áreas em que o centro universitário oferece cursos.

“Costumo compará-lo a um hospital universitário. Lá se têm professores e alunos que trabalham no dia a dia os problemas reais”, conta o diretor do centro de pesquisa, José Roberto Augusto dos Campos. É missão dele supervisionar os projetos em andamento e identificar novas oportunidades de negócio. O diretor comenta que para isso tem à sua disposição todo o corpo docente, com especialistas em diversas áreas que podem ser acionados de acordo com a necessidade. Campos explica que, nesta situação, o professor passa a responder diretamente a ele, e é acrescentado um aditivo ao contrato.

Já em relação às empresas, os convênios podem ser os mais variados. “Cada caso é um caso”, destaca o diretor. Em alguns, o centro de pesquisa é pago para desenvolver um projeto, como em um simples contrato de prestação de serviço. Já em outros, com empresas menores, pode não se ter uma relação comercial. Ou seja, sem troca de dinheiro. Nesta situação, a empresa auxiliaria no desenvolvimento e seria beneficiária dos resultados. Para a Mauá, o processo seria proveitoso, pois traria novas experiências aos alunos e professores que agregariam expertise ao currículo.

Da mesma forma, as regras para definição de patentes também são flexíveis. José Roberto explica que o centro de pesquisa utiliza basicamente dois critérios: quanto a Mauá conhecia do processo antes do início da parceria e qual o valor em recursos financeiros que irá aplicar. A partir destas respostas é traçado o percentual da patente que ficará com a instituição e com a empresa parceira.

Desafios reais
Outra instituição de ensino superior que entende a importância e aposta nos convênios com a indústria é a Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap). Fundada em 1992 com foco nas áreas de tecnologia, gestão e inovação, a Fiap se consolidou e hoje mantém pouco mais de 3 mil alunos divididos em seus quatro campi localizados nas cidades de São Paulo e Barueri. Desde sua fundação, a proposta era ofertar um modelo acadêmico em que os estudantes ultrapassassem a barreira da teoria e lidassem com questões práticas. Para isso, o primeiro passo foi ofertar o que havia de mais moderno em se tratando de tecnologia. O diretor acadêmico da Fiap, Wagner Sanchez, conta que a instituição firmou parcerias com os principais players do mercado, como Microsoft, Cisco, Oracle e IBM, para disponibilizar aos alunos as versões mais recentes de seus softwares e hardwares.

Mas foi com os chamados ‘desafios’, iniciados nos últimos anos, que a Fiap conseguiu inserir mais intensamente seus estudantes no dia a dia das empresas. Como o próprio nome diz, o programa leva aos alunos um problema de determinada instituição para que ele seja inserido e avaliado dentro de uma grade acadêmica. O resultado, segundo Sanchez, é bastante positivo. “Os alunos demonstram grande satisfação e identificamos que as empresas aumentaram o interesse pelos nossos estudantes”, revela.

Os desafios são elaborados pela própria empresa parceira, juntamente com um professor da Fiap. O trabalho é inserido em uma ou mais disciplinas e os alunos precisam apontar soluções inovadoras. Atualmente, a faculdade mantém projetos com a Embraer e com o Hospital Alemão Oswaldo Cruz. No caso da fabricante de aeronaves, o desafio era reduzir o tempo perdido dos mecânicos em deslocamentos entre as ferramentas e o avião dentro do hangar. A solução proposta pelos alunos foi um robô autônomo em linha que carrega o carrinho com os equipamentos. Já no caso do hospital, a proposta era aproximar pacientes internados de parentes distantes. A resposta dos alunos foi novamente a construção de um robô, desta vez de telepresença.

Desde que foi lançado, o ‘desafio’ ganha cada vez mais destaque dentro da Fiap e hoje já contempla, em algum grau, todos os alunos. Conforme avalia o diretor acadêmico, o projeto traz benefícios a todos os envolvidos. “As empresas ganham porque encontram novas soluções. Os alunos, porque aprendem com tecnologias modernas e nós por promovermos um ensino de ponta”, conclui.

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