Desafios e surpresas do professor novato de matemática

O primeiro dia de aula, o primeiro exercício na lousa, o primeiro contato com a classe. Para um professor iniciante de matemática, quase nada acontece da forma como ele imaginava

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© Shutterstock

 

Um estudante concluiu o ensino médio e escolheu ser professor de matemática. Estudou para o vestibular e passou numa boa universidade, a Universidade 100% Honesta. No dia da matrícula, teve de assinar um documento em que havia um trecho que dizia:

“Neste curso, você vai aprender ideias muito legais, mas não se engane: não conseguirá aplicá-las em sala de aula. Nunca há tempo para aplicá-las em sala de aula.”

O professor recém-formado Odilon Magno da Silva Júnior diz que essa frase resume bem sua carreira, e que gostaria de ter sabido que seria assim antes de pisar numa sala de aula pela primeira vez. Na faculdade, por exemplo, estudou muitas maneiras de deixar mais interessantes as aulas sobre geometria espacial. Depois, no dia a dia, descobriu que a expressão Tempo Disponível × Quantidade de Assuntos a Ensinar não está a seu favor.

Odilon começou a dar aulas de matemática há pouco mais de dois anos; antes, era o “tio Odilon”, professor de inglês e espanhol. Fez o ensino médio nos Estados Unidos, onde os alunos seguem uma ordem rígida ao estudar matemática: álgebra 1, trigonometria 1, geometria 1; e depois 2, e depois 3. Seus professores permitiram que pulasse dos módulos 1 direto para os módulos 3, desde que se dispusesse a trabalhar como assistente de um professor de matemática. Tinha 15 anos. “Foi ali que vi que gostava de ensinar.”

Marcos Ramalho Filho, professor de matemática na escola estadual Raquel Assis, em São Paulo, começou a dar aulas aos 17 anos. Fez o ensino médio noturno numa escola estadual, na qual os alunos se dedicavam mais, pois a maioria já trabalhava. De manhã, fazia o ensino técnico. Quando começou a dar aulas, achava que seus alunos se empenhariam da mesma maneira. Enganou-se. (E olha que ele mesmo concluiu o ensino médio há poucos anos.) A maioria deles não estuda em casa, nem lê nada, com exceção do que os amigos publicam em redes sociais. “Percebo que maioria da sala não conseguirá dominar a matemática de uma forma mais intuitiva.” Marcos diz que, muitas vezes, explica como a classe pode resolver um exemplo. Momentos depois, com um exemplo muito parecido, a classe age como se não tivesse ideia do que fazer. Até agora, esse foi seu maior susto.

O ideal não é real
Dionício Ribeiro Matos Junior, professor na Universidade Esta­dual do Maranhão, idealizou como seria a vida de um professor novato. No primeiro dia de aula, especialmente no começo, ficou muito nervoso. Depois, conforme a aula transcorria, o frio na barriga passou. Achava que seus alunos talvez não o aceitassem, já que tinha só 27 anos; que talvez pensassem que, sendo tão jovem, não poderia ter conteúdo o bastante para dar aulas numa universidade. Mas o que aconteceu foi o contrário: eles o aceitaram bem justamente porque é jovem.

Isso não teria ocorrido se ele não tivesse conteúdo. É o que diz Patrícia Mariane Vieira, professora numa escola em Itaberá (SP). Desde a primeira aula (na qual também estava nervosa), Patrícia se prepara antes: resolve todos os exercícios, estuda melhor o que não teve tempo de estudar direito na faculdade. “Eu me preparo bem.” Ela diz que a classe não a aceitaria se achasse que não sabe o conteúdo, isto é, se ela não passasse a impressão de segurança. E ela passa tal impressão, pois seus alunos costumam chamá-la de “senhora”, embora tenha só 24 anos.

Marcos Ramalho, por sua vez, idealizou os alunos, que, tendo já estudado a matéria, e compreendido tudo, veriam as aplicações do que estudaram. “Isso nunca aconteceu.”

As surpresas do novato
Dionício não achou que acabaria gostando dos pedagogos. Na faculdade, ele e seus colegas pensavam que, se uma pessoa não estudou matemática na faculdade, não pode ter conteúdo. “Mas, dando aulas, tive a oportunidade de conhecer melhor o trabalho deles. Vi que as coisas não eram como eu as imaginava.” Os pedagogos o ajudam muito, especialmente quando Dionício tem de lidar com alunos que se comportam mal. Em casos assim, um pedagogo sabe o que fazer.

O problema é que o novato, enquanto está idealizando o que significa dar aulas, não chega a pensar nos alunos como seres humanos reais, com problemas afetivos reais. Patrícia diz que vários de seus alunos são muito carentes, e vários têm problemas familiares graves. “Fiquei surpresa quando percebi que desejava exercer outros papéis, além do papel de professora”, diz ela. “Esse envolvimento, esse carinho e amor, jamais imaginei que iria acontecer.”

O novato também não chega a imaginar seus colegas de trabalho como seres humanos reais. Dionício achou que os professores mais velhos o ajudariam espontaneamente; achou que sempre perceberiam seus problemas e teriam um conselho amigo. Não aconteceu nada disso, e nada disso acontece até hoje, como aliás é rotina em qualquer empresa.

Esses desmemoriados
“Ah, esse assunto os alunos vão aprender rapidinho”, pensa o novato. “Ah, esse assunto vai ser difícil.”

Tudo isso também muda com a prática. O professor percebe que ele achava determinado assunto fácil simplesmente porque é fácil para ele; e que achava determinado assunto difícil porque é difícil para ele. Mas cada aluno tem um perfil diferente; cada um raciocina de um jeito. O que é difícil para um, é fácil para outro, e vice-versa.

Dionício Ribeiro, por exemplo, achou que, quando fosse ensinar geometria espacial, os alunos entenderiam tudo mais facilmente, pois já teriam passado pela geometria plana. Isso não aconteceu. Mesmo alunos que tiraram notas boas em geometria plana às vezes vão mal na espacial: eles esquecem o que estudaram. “A tendência dos alunos é apagar o que estudaram antes”, diz Dionício. “Com o tempo, percebi que o aluno tem dificuldade de visualizar a geometria tridimensional!”

Se o aluno tem dificuldade com uma coisa dessas (visto que vive num mundo tridimensional), tem mais dificuldades ainda com os tópicos difíceis de exemplificar, como números complexos ou determinantes. Patrícia diz que tais tópicos respondem a boa parte de seus problemas como professora novata.

Curiosamente, contudo, eles se interessam por tópicos nos quais um novato jamais apostaria. Dionício diz que seus alunos em geral gostam de logaritmos, e manejam bem a regra pela qual mudar a base do logaritmo. Patrícia diz que seus alunos gostam de equações de segundo grau; gostam a ponto de pedir para ir à lousa.

Qualquer que seja o caso, contudo, Marcos tem um conselho: o professor precisa saber explicar o mesmo tópico de muitas maneiras diferentes. Isso é difícil para o iniciante, porque ele, tendo saído do curso de licenciatura há tão pouco tempo, dá saltos lógicos que os alunos não conseguem acompanhar – e nem percebe. “É preciso ter paciência”, diz Marcos, “e ir passo a passo. Se não for assim, o aluno não entende nada.”

A pergunta fatídica
O que o novato faria diferente, se soubesse na ocasião do primeiro dia de aula o que sabe hoje? Se pudesse viajar no tempo, e encontrar sua versão mais jovem na véspera da primeira aula, que conselhos daria?

(Presumindo, é claro, que a versão mais jovem não morresse de susto.)

Dionício, o velho, diria a Dionício, o jovem: não há nenhum problema se um aluno vem abraçá-lo; corresponda ao abraço. Não há nenhum problema se um aluno quer se aproximar mais: deixe que se aproxime. Dionício tinha medo do que as outras pessoas pensariam dele, e se um aluno quisesse abraçá-lo, ou se tentasse iniciar uma amizade, ele se esquivava. Hoje, sabe lidar com isso sem se afastar, e sem magoar o aluno. Mas, entre não saber e saber, Dionício foi conversar com a coordenadora pedagógica da escola. Foi ela quem lhe deu o conselho de agir espontaneamente.

Já Odilon, o velho, diria a Odilon, o jovem: você tinha razão quando achava que preparar a aula é uma parte legal do trabalho, mas não sabia que, na verdade, é a parte mais legal de todas. Invista na preparação da aula todo seu tempo e talento. É um jeito de recordar o que foi esquecido. É um jeito de estudar o que não estudou direito, ou que nem estudou. É um jeito de curtir a matemática. Principalmente, é um jeito de pôr em prática uma ideia comum entre professores mais jovens: a de que é possível, de alguma maneira que ninguém ainda sabe qual é, fazer com que o aluno aprenda matemática de um jeito mais fácil, mas sem que seja necessário baixar o nível. “Os próprios alunos acham que só é possível aprender matemática com dificuldade”, diz Odilon. “É verdade, mas acho que é possível aprender com facilidade também.”

 Problema
Na geometria espacial, o matemático estuda versões abstratas de formas cotidianas, como cubos, esferas, paralelepípedos, superfícies. Seu propósito é descobrir qualquer padrão que seja útil quando gostaria de descrever um fenômeno, matemático ou real, por meio de trincas de números ordenados, como (3, 1, 0).

 

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