Desafios do ponto de partida

Etapa precisa livrar-se da idéia social de que não faz parte do processo de formação do aluno

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As disposições legais definem a educação infantil como a primeira etapa da educação básica, o que indica que deveria traduzir-se em seu pilar inicial, como suporte à escolarização futura. No entanto, por muito tempo esteve fora do debate sobre políticas e práticas educacionais. Ainda hoje é tímido o olhar do Estado no atendimento à criança da pré-escola.

Ao publicar os resultados da Consulta sobre Qualidade da Educação Infantil (Cortez, 2006), a Campanha Nacional pelo Direito à Educação e o Movimento Interfóruns de Educação Infantil no Brasil (Mieib) apresentaram um retrato dos contrastes que desafiam a qualidade da educação infantil. A qualificação docente merece atenção.

“Muitas crianças convivem em casa, na comunidade e nas instituições de educação infantil com adultos que apresentam níveis bastante baixos de escolaridade, encontrando na creche ou na pré-escola o mesmo contexto pouco letrado que caracteriza seu ambiente de origem, com poucas oportunidades de desenvolver novas habilidades e ter acesso a conhecimentos diversificados e interessantes”, descreve o documento.

Realizada com o apoio da Fundação Carlos Chagas e da ONG Save the Children, a pesquisa considerou 53 creches, pré-escolas e escolas públicas, privadas e filantrópicas, nos Estados do Ceará, Pernambuco, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Seus resultados, embora não sejam estatisticamente representativos, sugerem a precária formação docente entre os que atuam nessa etapa escolar. No Rio Grande do Sul, por exemplo, 14% dos professores ouvidos pela Consulta têm escolaridade inferior ao ensino médio.

“Nunca tivemos um curso de formação de professores que se dedicasse às especificidades da educação infantil. É uma dificuldade histórica, que vem desde a origem da educação pré-escolar, define Mônica Pinazza, professora da Faculdade de Educação da USP, integrante do grupo de pesquisas Contextos Integrados de Educação Infantil. “Não há um perfil dessa prática, e menos ainda desse educador, ainda pouco compreendido em suas inquietações. Esse é um dos desafios que temos hoje”, sinaliza.


Raízes

No mundo todo, a proposta de formar profissionais para a tarefa de educar e cuidar das crianças é tão antiga quanto a criação dos primeiros projetos educacionais, como os jardins-de-infância froebelianos e a idéia de “educação para a vida” difundida nas casas da criança de Maria Montessori. Mas até hoje a profissão não alcançou identidade e o status merecido.

No senso comum, persiste a visão de que a educação da criança pequena é responsabilidade da família. Sob a ótica do Estado, é ainda inconsistente a concepção do que, de fato, deve constituir o atendimento ao público infantil.

Diante desse quadro de indefinições, a trajetória dos cursos de professores oscilou entre a Escola Normal, mesclada à formação para o ensino primário, e a escola de Enfermagem. A esses dois blocos principais, somaram-se influências como a do Higienismo, que reforçou a idéia de que a educação infantil estaria atrelada ao cuidar da criança, desconsiderando qualquer forma de estimulação ao seu desenvolvimento integral. Não por acaso, o amparo institucional também variou entre o Bem-Estar Social e a Educação. A conseqüência direta disso tudo é um número elevado de profissionais sem formação alguma, em particular no atendimento às creches,

 “Hoje, pretende-se um diálogo entre educação infantil e ensino fundamental, o que é saudável, mas em que moldes?”, indaga Lenira Haddad, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

 O fato é que o sistema educacional não incorporou a criança pré-escolar porque não tem tradição para isso. Não sabe dialogar simultaneamente com questões sociais e educacionais fincadas na própria raiz da educação infantil. E segue com a tendência de enquadrar essas crianças no ensino formal, na estrutura existente, “com seus paradigmas e seus conceitos seriados de ensino-aprendizagem, que não se aplicam à criança pré-escolar”, completa Lenira.

A formação dos professores de educação infantil tem recebido atenção mínima nos cursos de Pedagogia, restringindo-se a disciplinas eletivas ou presente em uma ou duas disciplinas obrigatórias.

Com 50 anos de atuação na formação docente, a Ufal incorporou apenas em 2006 três disciplinas que tratam exclusivamente da educação infantil. Desde então, em resposta às novas diretrizes para a formação de professores, o curso de Pedagogia contempla Fundamentos da Educação Infantil (80 h), Saberes e Metodologia I e II (60 horas cada) e mais 120 horas de estágio supervisionado. Até então, o currículo previa uma única disciplina, Educação Pré-escolar, de caráter eletivo.



Cursos do sul se destacam no enade

Os resultados do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) de 2006, divulgados no final de maio, indicam seis representantes gaúchos entre os 45 que obtiveram a nota máxima em um universo de 5.701 analisados. Dos seis, três são cursos de formação de professores oferecidos pelo Instituto Superior de Educação de Ivoti, Centro de Ensino Superior de Farroupilha e pela Faculdade Porto-Alegrense (Fapa).

Além do bom desempenho, os cursos têm em comum a preocupação de levar os alunos a confrontar teoria e prática. Lourdes Frison, diretora do Curso de Pedagogia Normal Superior da Fapa, diz que “a faculdade tem a proposta de pesquisa como princípio educativo em todas as suas disciplinas. O método de educar pela pesquisa se dá pelo questionamento. O aluno é estimulado, por meio do debate, a questionar textos e métodos, aliando a observação prática e o estudo teórico para construir seu próprio referencial”.

No Instituto Superior de Educação Ivoti, a estrutura do curso foi programada para que desde o início os futuros professores conhecessem a realidade escolar, ao contrário do que ocorre em grande parte dos cursos de formação, quando isso acontece apenas na fase de estágio, no último semestre da formação. Para Vera Hoffmann, Coordenadora do Normal Superior – Educação Infantil, “o olhar dentro da escola básica é fundamental, pois não é só no teórico que se constrói o conhecimento, ao mesmo tempo em que a prática não está dissociada da teoria”.

Neiva Panozzo, coordenadora do curso de Pedagogia do Centro de Ensino Superior de Farroupilha, explica que o curso, criado em 2002, teve seu projeto pedagógico organizado com a participação dos professores da equipe, coletivamente, com grande sintonia de objetivos e busca de coerência. Também em Farroupilha, mais uma vez, a proposta baseia-se na integração entre teoria e trabalho prático. (Lúcia Jahn)

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