Dentro, mas fora

Filósofo lamenta que ensino público faça com que o professor tenha que sair da escola

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Doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo e em filosofia da educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Paulo Ghiraldelli Jr. considera elucidativo que a população brasileira tenha conseguido absorver rapidamente o sistema bancário digital, mas enfrente “grande dificuldade em saber como matricular e acompanhar os filhos na escola”.

“O sistema de ensino muda mais rápido do que a tecnologia”, lamenta. “Mudam os discursos e os procedimentos que permitem que você compreenda o que é feito em sala de aula. Muda a legislação. A população está sabendo que temos mais um ano obrigatório no ensino básico? Temos condição de dar nove anos obrigatórios? De repente, nós temos.”

Autor do recém-lançado
História da Educação Brasileira

(Cortez, 272 págs., R$ 36), edição revista e atualizada de obra publicada pela primeira vez no final dos anos 80, Ghiraldelli conversou com
Sérgio Rizzo

sobre dois temas-chave de suas pesquisas, o perfil do professor de ensino básico e as condições de trabalho na rede pública.


Qual o perfil do professor de ensino básico hoje?

Pesquisa razoavelmente confiável da CNTE [
Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação

], de 1999, fez esse o perfil. De lá para cá, não mudou muito. Não é preciso ser expert em estatística para entender alguns dados. Por exemplo: cerca de 50% dos professores de ensino médio, que teoricamente teriam passado pelo ensino superior, vão ao cinema uma vez ao ano. Isso não se confirma nos grandes centros, mas na média nacional, sim. Em relação à internet, há um grande contingente com acesso à máquina, mas não ao uso da máquina. Pouco acesso à informação, portanto. A profissão tornou-se completamente feminina; não existem mais aquelas ilhas de atuação masculina que se encontravam no ensino básico. Essa característica vai avançando até o médio e o universitário. Não é verdade que seja um “bico”, ou segundo emprego. Apesar do salário pequeno, a maioria das professoras é que mantém a família. O salário delas é o que pinga. Ainda que não sejam a cabeça do casal no aspecto moral, o são no econômico.


E a grande aspiração da classe?

Sair da profissão, mas continuar nela. Querem ser professores, mas querem ter renda melhor. Só há um jeito de fazer isso no Brasil: sair da sala de aula. É interessante que nenhum político ou técnico toque nessa questão. O professor tem de ser diretor, supervisor ou fazer mestrado e ir para a universidade, onde a carga da sala de aula é menor, para melhorar de vida. Tem algo errado aí. Veja, por exemplo, o que ocorre com os programas de capacitação: todos os professores se inscrevem para serem superiores hierarquicamente aos outros. Aí, saem da sala de aula e passam a ser treinadores de professores. No ponto de chegada, nunca existe a boa figura; ela está sempre sonhando ficar pouco ali.


Por quê?

Ela é desprestigiada se fica ali. Qual a saída? Duas: ou faço carreira administrativa, ou faço carreira acadêmica e tento concurso numa universidade. Aí chego lá, e reproduzo um número de dissertações e teses não sobre a minha condição de professor, pois é como se não tivesse vivido ali. Faço um discurso para os que estão na escola. O professor universitário muito jovem, que saiu há quatro ou cinco anos da escola básica, manda até lá seus alunos de magistério, que estavam ali até um, dois anos antes. Coisa fantástica: você, que esteve lá, fingindo que não esteve, fala sobre aquilo como se não conhecesse. Pois bem: o aluno entra na escola, encontra antigos colegas; quando volta, traz a seguinte informação: “olha, o nível caiu muito, está horrível, e o professor não sabe nada, nada, nada”. O marxismo chamaria isso de alienação. Você nega aquilo que foi, porque era algo que você queria abandonar, você não tinha orgulho de estar lá. Diga a palavra “professor” a alguém na rua e a imagem que virá é a do professor universitário. Não vem mais a do professor de ensino básico. Não pode ser assim. Em todos os países do mundo, professor continua a ser o do ensino básico. Em geral, o universitário não é considerado muito bem um professor. No Brasil, a situação se inverteu.


Como isso interfere nos aspectos pedagógicos?

Os professores de ensino básico são massacrados. Todo ano tem um novo governo, com uma nova proposta e uma nova capacitação. Os governos irritam os professores com a mania de achar que a cada ano eles precisam ter uma nova teoria psicopedagógica. Os governos se envolvem nisso mas, quando saem, não avaliam para saber se teve resultado na sala de aula. O sistema de avaliação não é adequado ao que se propõe como capacitação. Ele só olha para baixo, para os avaliados. Não olha para cima, para os pressupostos que geram a capacitação. Tem um problema aí. No meio disso tudo, há um avaliador chamado vestibular, que muda muito menos. Quando a sociedade quer saber alguma coisa sobre educação, vai até o vestibular. No fundo, ele dá o parâmetro de quem pode estar num lugar ou no outro.


Quais as correntes pedagógicas que predominam?

O discurso é completamente anacrônico. O professor sai da rede, pública ou particular, vai para o mestrado, aprende uma série de teorias e autores, mas não consegue articular isso com o que ele fazia para descobrir a que corrente ele pertencia. Ele não quer olhar para o que ele fazia. Não há continuidade. Não é que a profissão nos EUA seja grande coisa, mas ser professor de ensino médio lá não significa que você queira sair. Aquilo dá respeitabilidade, função na sociedade. É recompensador. Se sair, não tem a necessidade de negar o passado. Aqui, é como se fosse empregada doméstica, uma profissão marcada, e virasse secretária. Tudo o que você quer é que não lembrem que foi empregada. Não quer que ninguém olhe para o seu passado.


As condições salariais não seriam as maiores responsáveis por isso?

É uma questão de organização da vida do professor. Se ele pudesse se situar em seu trabalho, ele ficaria. Não é só por salário, mas por condição de trabalho. Não é uma profissão prestigiada até por conta de como a escola está organizada: onde ela está, como é o prédio, como a escola é vista, como você é tratado, como a imprensa vai junto. Durante o governo Lula, a discussão educacional na imprensa, o tempo todo, é a do ensino superior. É como se todos tivéssemos nascido adultos. A questão educacional, que em todos os países é de pedagogia, de cuidado com a criança, aqui é de andrologia, de adulto. Negócio maluco. Você fica quatro anos na universidade, mas fica uma vida na escola. É um setor descuidado, e não só por uma questão salarial. Se você constrói uma escola feia, já está dizendo ao professor que ele vai trabalhar num lugar feio. A arquitetura está impregnada. Peça a um arquiteto para fazer uma escola. Terminada a planta, você percebe que ele dirigiu toda a infra-estrutura para o setor burocrático. A parte das salas de aula é simples, feia, desestruturada. A burocrática tem cinco banheiros, ar condicionado. O Brasil ainda é um pouco “Casa Grande & Senzala”. Quem manda fica num lugar bonito.


Quando esse fenômeno teve início?

Nos anos 60, quando o Brasil deixou de ser agrário para ser urbano. A maior parcela da população passou a estar nas cidades. O país deu um salto para o qual não estava preparado. As pessoas foram para a cidade. Entraram na escola pública, que ficou cheia. A classe média se assustou, porque a escola pública era dela. Até então, havia uma equivalência numérica entre as classes sociais: ao lado do filho do médico, o filho do carroceiro. A caixa escolar ajudava um deles, supria as diferenças. De repente, aumentou o número de pobres. O que a classe média fez? Ela se retirou. Não ficou esperando a escola pública melhorar. Saiu e foi para a particular. Aquilo que antes era “pagou-passou” virou a escola querida, e as públicas viraram um lixo. Todo movimento de recuperação é abortado.


Haveria menos problemas nas pequenas cidades?

Sim. Se formos para uma cidade de porte médio no estado de São Paulo, quanto tempo demorou para acabar aquele grande colégio tradicional, que passou por reformas curriculares as mais variadas, mas cujo prédio, o lugar físico, segurou os melhores professores da cidade? Dez anos mais do que nas grandes cidades. Nas capitais, houve também um movimento diferente, o da municipalização do ensino básico. Num determinado momento, os municípios tiveram mais dinheiro para investir do que as cidades menores. Falamos de um período longo em que o prefeito pegava os 25% da educação e podia empregar em qualquer lugar. Não se pode mais fazer isso. Em muitos municípios, há secretarias de educação que funcionam bem. Ali, o problema é de mentalidade, saber o quanto o secretário não quer ele também fazer mestrado e se retirar daquela situação. Vários secretários são professores da universidade local. Não são propriamente pessoas afinadas com o cargo. Estão ali como se a universidade tivesse uma responsabilidade social pela situação.


Esse problema é puramente de governos ou seria preciso mobilização social para enfrentá-lo?

Sei qual é a raiz do problema, mas não encontrei a forma de solucioná-lo. A idéia de que a comunidade deveria tomar conta da escola pública não tem a ver conosco. É americana. Ela veio por conta de nossos teóricos terem sido formados pelo comunitarismo americano: Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Paulo Freire. Nossa tradição é a de capitanias hereditárias. O Estado monta uma capitania, dá para alguém e vai montando o setor burocrático. Estrutura tipicamente portuguesa.

Na mentalidade dos teóricos, há sempre a ânsia de que cada bairro tenha sua escola, de que o bairro cuide. É um pouco a idéia de Brasília, de que cada bairro tivesse tudo. Maluco. Isso não é os EUA, e também não é o comunismo. O que você tem nos EUA? Um sujeito que fundou uma paróquia, é protestante e precisa de alfabetizados para que a bíblia seja lida. Então, cuida da igreja e da escola. Depois, a escola se desgarra da igreja, vira pública, mas tem um sujeito no qual você vota para cuidar dela. É uma estrutura comunitária voltada para a escola a ponto de os pais interferirem no próprio currículo, até na matéria que se está ensinando.

No Brasil, você tem uma estrutura estatal, mas uma pressão dos teóricos para que a sociedade venha a tomar conta daquilo. Como sou filho de diretor de escola pública, sei que se ele, como funcionário público, não tomasse conta da escola, a comunidade não iria tomar, ainda que gostasse muito da escola, porque já havia delegado a ele o serviço. Esperamos que o imposto seja carreado para o governo e que aquele funcionário público, pago com o nosso dinheiro, trabalhe. Nossa situação escolar é altamente peculiar. Não se parece com nada.


É o nosso sistema só para o mal ou também para o bem?

No público, é só para o mal. Não tem nada que se possa elogiar. Hoje, a escola particular apostilada é a da classe “média-média”. A dos ricos é a não apostilada, onde se usam livros. E aí tem o resto, bolsão de guardar criança. Chegou-se a uma situação de deterioração completa. Não vejo nenhuma pessoa que possa tirar o filho dali que não tire. O pai mais carrasco do mundo faz isso.

Leia aqui um capítulo de
História da Educação Brasileira

:



http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=11622



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