Defendendo-se dos adultos

Não acreditamos na inteligência e responsabilidade das crianças

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A questão da democracia nas escolas é a questão da criação e da manutenção de um espaço manso em que os alunos tenham a permissão para explorar o seu desejo de conhecer. Esse assunto liga o espaço do aluno, que é o espaço do seu corpo e tudo que ele contém, ao espaço físico e social em que corpos de muitos alunos, professores e funcionários das escolas se movem.

Como ponto de partida para as minhas reflexões vou a um texto de Gabriel García Márquez que há muito descansava em um dos meus arquivos.  Leio a primeira frase. Ela diz tudo. Trata-se de uma confissão espantosa. O escritor confessa ter a esperança de que o seu texto se constitua num
"manual para que as crianças ousem se defender dos adultos na aprendizagem das artes e das letras…"

Defender-se dos adultos? Então os adultos são uma ameaça? Democracia tem a ver com quem define o espaço e quem manda no tempo. As escolas, nem é preciso dizer, são lugares onde os espaços são demarcados e os relógios determinam os ritmos. Vem a pergunta:
"Mas quem constrói as cercas? Quem regula os relógios?"

A resposta é fácil: os adultos. Criança não tem poder, portanto, criança não decide. Então escola é gaiola e criança é passarinho. Que é gaiola não é novidade. Até os saberes vêm engradados em "grades curriculares". Até parece que foi um carcereiro desempregado que bolou essa expressão. E se foi de bom grado aceita sem protestos é porque "grade" combina com o espírito da escola. 

Guimarães Rosa escreveu que não gostava de falar da infância porque
"havia sempre pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança , vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais  do invasor, em pátria ocupada. (…) Tempo bom de verdade só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta…"

Os "grandes" de uma certa cidade, movidos pelas mais puras intenções democráticas,  resolveram fazer uma reunião geral para que as coisas das escolas fossem decididas democraticamente. Com tal propósito reuniram diretores, inspetores, professores, secretários, serventes… Realizado o evento, pediram a minha opinião. Respondi com uma pergunta apenas:
"Onde estavam as crianças?"

Será que eu estarei sendo injusto ao sugerir que não acreditamos na inteligência e responsabilidade das crianças e que, por isso mesmo, elas não se qualificam como pessoas capazes de tomar decisões para a coletividade escolar? Mas se elas não têm capacidade de tomar decisões  para a coletividade escolar, não possuem as qualidades necessárias para decidir sobre o espaço e sobre o tempo das escolas. São, portanto, seres passivos, incompetentes para o exercício democrático do poder. O que elas sentem e pensam não precisa ser levado em consideração.

O fato é que, nas escolas, são os adultos que detêm o monopólio do poder. Eles têm o poder para  decidir. Pergunto, então, se os problemas de indisciplina e violência que frequentemente infernizam a convivência nas escolas não se explicam como a rebelião dos sem poder contra os detentores do monopólio do poder.

A democratização da vida nas escolas se iniciará quando os estudantes começarem a ser ouvidos e levados a sério na tomada das decisões, quaisquer que forem elas. Aprendi isso numa escola de Portugal, a Escola da Ponte – onde os diretores e professores abriram mão do seu poder e o distribuíram por toda a comunidade escolar.


Rubem Alves


é educador e escritor



rubem_alves@uol.com.br

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