Dedo na ferida

Palestrante do VI Encontro Internacional Paulo Freire, António Teodoro aponta contradições entre acolhida teórica a Paulo Freire e políticas públicas

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Um dos palestrantes da mesa "Globalização e os desafios da educação libertadora" no VI Encontro Internacional do Fórum Paulo Freire, o educador português António Teodoro é doutor e mestre em Ciências da Educação pela Universidade Nova de Lisboa. Atualmente, além de exercer o cargo de professor da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, também integra o Conselho de Assessores Internacionais do Instituto Paulo Freire, em São Paulo. Antes do evento, concedeu à subeditora de
Educação

, Beatriz Rey, via e-mail, a entrevista abaixo.


Quarenta anos depois, como a Pedagogia do Oprimido se mostra suficiente para atender às demandas do mundo contemporâneo?

O livro é ainda mais atual do que há 40 anos. Tal atualidade não decorre apenas do fato de a onda neoliberal que varreu a América Latina nos últimos anos ter, em muitas situações, acentuado desigualdades e exclusões de todo tipo. O fundamental desse livro – e a sua universalidade – decorre do seu contributo para uma epistemologia que se mantém plenamente atual e imprescindível a uma renovação do modelo escolar dominante.


No universo educacional brasileiro, em que cada vez mais há investimento em avaliações de desempenho e contabilização de resultados, a educação não perde seu caráter libertador?

Como observador externo (embora atento) da realidade brasileira, há muito sinalizei uma das suas maiores contradições: um reconhecimento público e acadêmico do legado de Paulo Freire, mas uma prática política e pedagógica muito afastada do que é vivo nesse legado. E, na obra de Paulo Freire, há uma constante: as aprendizagens só são eficazes e emancipadoras quando são contextualizadas, ou seja, partem sempre de "uma leitura do mundo". As avaliações padronizadas, que no Brasil são o principal instrumento de regulação das políticas públicas, são o contrário desse princípio.


Em que sentido?

Elas generalizam a todo um país na sua dimensão e diversidade cultural um padrão, que só pode ser, socialmente, o das novas classes médias, e, politicamente, dos estados industrializados do Sul e Sudeste do Brasil. Os responsáveis políticos brasileiros (e muitos pedagogos que lhes dão assessoria) ganhariam muito se conhecessem os trabalhos de Michael Apple [teórico da educação e professor da Universidade de Wisconsin] sobre a questão dos efeitos perversos dos testes estandardizados.


Freire afirmou seu desejo de que suas idéias fossem reinventadas na prática. Quais são as experiências que reinventaram as idéias freirianas em Portugal?


Em Portugal, há algumas boas experiências, uma das quais muito conhecida no Brasil, a Escola da Ponte. A reinvenção de Freire passa por saber cruzar o seu olhar e a sua epistemologia com outros olhares, como por exemplo os de Célestin Freinet (1896-1966) e Lev Vigotsky (1896-1934). Essa devia ser, em minha opinião, a grande prioridade do Instituto Paulo Freire, pois, no meu contato com professores brasileiros, sobretudo em nível de pós-graduação, percebi uma grande incapacidade em equacionar a possibilidade de outras práticas pedagógicas e de outras políticas que correspondam ao propósito freiriano de conscientização e emancipação social.

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