De sonhos e de ilusões

Decepção e esperança seriam opiniões de Paulo Freire a respeito do governo Lula, acredita viúva do educador, responsável pela memória do pernambucano

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Flávio Amaral






 


“Paulo Freire estaria triste, um pouco decepcionado, mas ainda teria esperança no governo Lula.” É o que pensa a educadora Ana Maria Araújo Freire, mais conhecida como Nita, viúva do educador cuja morte completa sete anos este mês. Ela lembra que Paulo sempre defendeu que o povo tinha de assumir o poder e que ele certamente teria ficado muito satisfeito com a eleição de um operário com apenas quatro anos de escolaridade, superando as discriminações.




Mas Paulo Freire acreditava que, quando um representante do povo chegasse ao poder, deveria reestruturar, restabelecer e recriar um novo poder. “E não é isso o que tem acontecido até agora no governo Lula”, lamenta Nita.






Paulo Freire

– autor, entre tantas obras, de
Pedagogia do Oprimido

– era um esperançoso. Segundo a viúva, ele estaria dizendo: “Vamos ver quais são os limites, analisar os caminhos possíveis, detectar as dificuldades e torcer para que o governo caminhe para uma verdadeira democracia, que leve ao desenvolvimento, a uma melhor divisão de renda e a tantas outras coisas que precisam ser solucionadas no Brasil”.




Nita faz questão de ressaltar a importância de Paulo Freire para a eleição de Lula. Satisfeita ao ler um artigo de Frei Betto em que ele reconhecia o esforço de Paulo Freire de “construção de um ambiente favorável para que Lula pudesse se eleger”, Nita defende que o mestre sempre lutou pelo respeito ao diferente e pelo direito do povo a ter voz e a se biografar.




“Paulo sempre disse que ninguém tem o direito de ser o que nasceu, viveu e morreu sem saber o que foi, sem ter feito história”, relembra. “Ninguém pode ser um caderno vazio, todos nascem para contribuir e transformar a história.” Dentro dessa lógica, Lula seria motivo de orgulho e satisfação para o educador.





Esforços vazios –

O educador otimista teria, no entanto, motivos para tristeza quando olhasse o quadro da educação no governo Lula, diz Nita Freire. Ela até reconhece o empenho do ex-ministro Cristovam Buarque, mas considera que o esforço foi, quase sempre, equivocado. Paulo Freire tinha uma grande esperança no PT, desde o surgimento do partido.




Em 1989, assumiu a secretaria da Educação da capital paulista após a eleição de Luiza Erundina (hoje deputada pelo PSB) para a prefeitura de São Paulo. Não por acaso, ele já recebeu duas grandes homenagens do atual governo federal: a inauguração de uma estátua em frente ao Ministério da Educação e o batismo do Prêmio Paulo Freire. Para a viúva, porém, a valorização de seu marido foi mais no discurso que na prática. “A compreensão da educação freireana não entrou sequer no projeto
Brasil Alfabetizado

“.




Nem é preciso mergulhar fundo na prática pedagógica do projeto de alfabetização do governo federal para notar confrontos com os ideais do educador. “Soou muito estranho para mim o nome de Secretaria Nacional de Erradicação do Analfabetismo, pois o termo ‘erradicação’ vai contra tudo aquilo que Paulo defendeu”, diz Nita.




Ela explica, misturando o pensamento do marido a sua própria experiência de educadora e ex-professora de história da educação: “Nos anos 20, o analfabetismo era dito textualmente na política pública como ‘cancro negro’, ‘cegueira’, ‘vergonha’, ‘erva daninha’ e tantos outros termos pejorativos. São conceitos elitistas e discriminatórios e de nada servem para um projeto de alfabetização.”




Segundo Nita, Paulo Freire sequer usava o termo ‘analfabeto’. Preferia “alfabetizando”, pois acreditava na força e na ação que as palavras carregam. “O termo ‘erradicação’, na secretaria do governo Lula, traz essa concepção de 80 anos atrás, de que o analfabetismo é uma doença que precisa ser erradicada. Isso não é bom.”




A viúva conta que o senador Cristovam Buarque chegou a conversar com ela duas vezes quando ministro, mas o projeto de alfabetização federal não permitia aproximação com a filosofia de Paulo Freire. Tarso Genro, o novo ministro da Educação, ainda não fez contato. Nita Freire acha que o Brasil está perdendo uma grande chance de transformação. Como o educador e antropólogo Darcy Ribeiro, ela também é uma entusiasta da miscigenação que formou o povo brasileiro.




“Temos um povo de grande criatividade, de grande potencial”. Ela lembra uma pesquisa publicada recentemente que coloca o Brasil na vice-lanterna em anos de escolaridade entre os países da América Latina para completar que “mesmo assim, somos os líderes em nossa região”. “Imagine se tivéssemos um povo com acesso à educação.”





Como hoje –

Nita dedica-se atualmente a escrever a biografia do educador. A obra deverá se chamar
Pedagogia da Tolerância

. O título faz referência a um conceito do educador que a viúva acha hoje fundamental. “Para Paulo, tolerância é ter respeito pela diferença e eu acho que isso é o que está faltando no mundo hoje em dia.” Ela cita como exemplo a postura dos Estados Unidos diante de outras culturas.




“O que eles chamam de democracia tem de ser igual em todo o mundo, a música tem de ser a mesma, até a batata frita tem de ser igual”, considera. A ânsia norte-americana pela guerra seria explicada por essa falta de compreensão das diferenças. “Eles não respeitam a religiosidade, não compreendem formas distintas de leitura do mundo.”




A atualidade e a importância mundial do pensamento do educador foi também ressaltada por Elvira de Souza Lima, antropóloga e psicóloga, pesquisadora das Universidades de Nova York e Salamanca (Espanha), durante sua participação no Fórum Mundial da Educação, realizado em abril em São Paulo. Elvira destacou que “a realidade do mundo é a diversidade”. Segundo ela, Paulo Freire sempre defendeu o respeito à diversidade na escola. “Mas nós ainda não temos, na prática, uma pedagogia voltada para a diversidade, mas sim uma pedagogia que continua caminhando para a homogeneização.”







Opinião semelhante foi manifestada por Célia Linhares, professora da Universidade Federal Fluminense. “Um dos maiores legados de Paulo Freire nos dias de hoje é o desejo de pluralidade na sociedade, o que se oporia à força de uma voz hegemônica e dominante”, afirma.




Elvira chama ainda a atenção para a pouca importância que se dá no Brasil não só à obra de Paulo Freire, mas a toda a bagagem de conhecimento pedagógico que o país adquiriu. Segundo ela, a infância brasileira “continua sendo medida por réguas estrangeiras”, inadequadas para a função. “A infância, em qualquer parte do mundo, se desenvolve de acordo com a cultura local.” Segundo a professora, o conhecimento pedagógico adquirido pelo Brasil é mais reconhecido no exterior do que aqui dentro.




Nita Freire concorda. A obra de seu marido foi traduzida em inúmeras línguas, sua prática pedagógica é conhecida e praticada em diversos países. A importância do educador é reconhecida em toda a Europa, Ásia, África e se dissemina pela América. Quando vai a Cuba, a viúva é “tratada como rainha”, conforme suas palavras. Mas, no Brasil, ela ecoa uma queixa comum entre os brasileiros que fazem sucesso no exterior. “Há uma certa inveja do sucesso de Paulo. Nos outros países, quem consegue consagração internacional é mais reconhecido.”




A viúva continua seu trabalho de perpetuar a memória de Paulo Freire. Segue percorrendo o mundo fazendo palestras sobre o educador, cuida pessoalmente da reedição de sua obra, organiza todo o acervo pessoal dele, pesquisando e buscando novos dados para a confecção de sua biografia. Ela também acompanha, na medida do possível, o trabalho dos “discípulos” do educador.




“Paulo nunca quis ter seguidores, pessoas que cultuassem um pensador morto, reproduzindo e recopiando suas palavras. Ele gostaria de ter uma legião de pessoas que reinventassem sua obra”. Sem querer citar nomes, por razões éticas, Nita aponta que há os que honram o desejo de Paulo Freire, mas há também os que apenas reproduzem suas teorias e os que distorcem totalmente a filosofia do educador. Mesmo esses, porém, cumprem um papel na missão de “manter viva a obra e a memória de Paulo Freire”.



 




Escola, cenário ideal




Paulo Freire e Nita se conheceram no Colégio Osvaldo Cruz, em Recife, de onde também saíram Ariano Suassuna e Mário Schenberg




 



A escola sempre esteve presente no destino de Paulo e Nita Freire. Ainda menino, Freire foi estudar no Colégio Osvaldo Cruz, em Recife. Da escola, saíram outros nomes importantes da intelectualidade pernambucana, como o escritor Ariano Suassuna e o físico Mário Schenberg. Aluízio Pessoa de Araújo e Genove Araújo, proprietários do Osvaldo Cruz, eram os pais de Nita. Aluno dedicado, Paulo tornou-se professor de português do colégio e deu aulas para Nita quando ela estava no ginásio.







Paulo Freire construiu uma relação de grande amizade com o pai de Nita. Continuou freqüentando a casa da família Araújo até partir para o exílio com Elza, sua primeira mulher. Ele foi da primeira leva de exilados, já em 1964, ano do golpe militar – morou na Bolívia, no Chile, nos Estados Unidos e na Suíça. Nita formou-se engenheira, casou e mudou-se para São Paulo. Durante o exílio do educador só se encontraram uma vez, durante uma viagem de Nita para a Europa.






O reencontro ocorreu somente após a anistia, em 1980, quando Paulo Freire voltou ao Brasil. Foi morar em São Paulo. Nita estava fazendo mestrado em educação, já viúva. Devido a problemas com seu orientador, ela foi aconselhada a sondar Paulo Freire para uma substituição. Reticente e insegura, Nita seguiu o conselho e foi aceita. Logo depois, ele também ficou viúvo.




A relação de orientador e mestranda, que já havia sido de professor e aluna, logo se tornou um caso de amor. Paulo e Nita casaram-se em 1988 e permaneceram juntos até a morte do educador, em 2 de maio de 1997.



 




Pensamento vivo





Inaugurado em Indaiatuba (SP), Espaço Paulo Freire reúne fotos e livros e terá, a partir deste mês, palestras de especialistas





 


Em março deste ano, Nita Freire inaugurou o Espaço Paulo Freire. Situado na sobreloja da Villa das Palmeiras Livros & Cultura, em Indaiatuba, interior de São Paulo, o espaço pretende ser mais uma iniciativa para perpetuar a memória do educador. Decorado com fotos de Paulo Freire e livros de sua autoria traduzidos para vários idiomas, o espaço será palco, a partir deste mês, do Tributo a Paulo Freire.




Composto por palestras voltadas para professores das redes pública e privada de Indaiatuba, Campinas e região, o tributo será aberto no dia 15, pela manhã, por Nita Freire. A programação prosseguirá com uma série de palestras reunindo educadores e especialistas em pedagogia. Entre os palestrantes que já confirmaram presença estão João Wanderley Geraldi (22 de maio), Mario Sergio Cortella (5 de junho) e Ivanilde Apoluceno de Oliveira (19 de junho).




Sociedade de Nita com seu filho do primeiro casamento, a loja funcionará como uma livraria normal, com a única diferença de disponibilizar ao público a obra completa de Paulo Freire. Além de vender livros, o lugar tem o objetivo de ser um espaço cultural. Apresentações de palhaços para as crianças, recitais de jazz e música erudita, exibição de filmes seguidos de debates e lançamentos de livros serão constantes na programação.




Na inauguração do espaço, Nita relançou o livro
Cartas a Cristina – Reflexões Sobre Minha Vida e Minha Práxis

. A obra reúne correspondências escritas por Paulo Freire a sua sobrinha relatando passagens marcantes de sua vida e refletindo sobre a influência dos fatos sobre a construção de seu pensamento. Para a viúva, “é uma obra fundamental para entender como surgiu e se consolidou aquele que um dia viria a ser conhecido no mundo todo como Paulo Freire”.



 




Serviço



Espaço Paulo Freire


Av. Itororó, 593 – Cidade Nova – Indaiatuba (SP)



Tel.: (19) 3816-5538



 


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