De sonho e de pó

Semi-árido brasileiro concentra piores indicadores sociais do país, mas iniciativas têm invertido estigma de miséria da região

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Faoze Chibli

Acauã, Alvorada do Gurguéia, Bertolínia, Caxingó, Elesbão Veloso, Inhuma, Jerumenha e Marcolândia, no Estado do Piauí. Araci, Mucugê, Pedrão, Quijingue, Wanderley e Wagner, na Bahia. Arneiroz, Barro, Capistrano, Forquilha, Ibiapina, Orós, Saboeiro e Tururu, no Ceará. Desconhecidos da maioria da população brasileira, esses municípios abrigam poucos milhares de pessoas, menos do que alguns condomínios populares em grandes cidades.



Mas há quase 11 milhões de crianças e adolescentes que vivem nessa região denominada semi-árido, de acordo com dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Os jovens representam cerca de 40% da população dessa área, que engloba mais de 1,4 mil municípios dos Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Sergipe. A população é de negros, brancos e indígenas. No semi-árido registram-se os piores indicadores sociais do país (
leia quadro ao lado

). E a educação não escapa.




Um estudo recente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia do Ministério da Educação, demonstra que metade dos estudantes matriculados no ensino fundamental possui defasagem entre idade e série, indicador do atraso escolar, no Nordeste – região que concentra maior parte do semi-árido. No Sudeste, essa taxa é de 20,7% e, no Sul, de 19,2%. O Estado com a situação mais grave é Alagoas, onde 54,6% dos alunos do ensino fundamental estão atrasados. No ensino médio, o quadro é ainda mais desastroso: o Norte aparece com uma distorção idade/série de 68,9%, enquanto o Sul apresenta 33,9% e o Sudeste, 38,8%. E, paradoxalmente, onde o dinheiro é mais necessário para se mudar essa situação, a corrupção é maior.




Uma pesquisa encomendada, em 2001, ao Instituto Paulo Montenegro pela Transparência Brasil – entidade não-governamental filiada à Transparency International, que se dedica ao combate da corrupção -, detectou que 11% dos eleitores de municípios nordestinos relataram casos de tentativa de uso ilegal da máquina administrativa, de novo a maior taxa do Brasil. A situação descrita foi de troca de favores por votos. O indivíduo vai à prefeitura em busca de solução para um problema e sai com proposta de votar em determinado candidato para ter uma solução. Nas outras regiões esse indicador ficou abaixo de 9%. A corrupção contribui para o estigma de miséria do semi-árido.







Novas paisagens



Ruth Laranja, professora de geografia da Universidade de Brasília (UnB), explica que o termo está ligado ao índice pluviométrico do local. Trata-se do clima mais seco do Brasil. Para se ter idéia, o Distrito Federal, conhecido por ser uma região tão seca que, ocasionalmente, as aulas têm de ser canceladas, é classificado como semi-úmido. No entanto, o fator climático não deve ser considerado determinante para a situação econômica. “Israel é um país que se encontra no regime semi-árido e não é um lugar pobre, pelo contrário”, exemplifica Ruth. Para ela, trata-se de modismo o semi-árido remeter a algo miserável. Modismo ou não, a adversidade impera em muitos municípios. Mas a dificuldade também provoca superação.






Há sinais de mudança do conceito vitimista, muitas vezes ensinado na própria escola, de que as condições naturais provocam miséria. Uma reunião recém-ocorrida entre governadores dos Estados do semi-árido firmou algumas diretrizes para melhorar as condições de vida locais. “A iniciativa
Um Mundo para a Criança e o Adolescente do Semi-Árido

colocou na agenda nacional um tema que só aparecia nos períodos de seca daquela região”, pondera Mario Volpi, oficial de projetos do Unicef e coordenador dessa empreitada.




“Ao reunir os governadores dos Estados, deu-se início a um processo de planejamento de ações políticas, como a criação de comitês estaduais, até outras mais concretas, como a ampliação de ações dirigidas a eliminar o trabalho infantil naquela região. A continuidade e ampliação vão depender da capacidade de mobilização de cada Estado e dos municípios do semi-árido”, completa Volpi.




A relação do homem com o meio ambiente vem sendo discutida e revista, para que ambos lucrem a longo prazo. Confira alguns retratos de um outro semi-árido, onde nunca é seco demais para sonhar.







Não ao rótulo



A Rede de Educação do Semi-Árido Brasileiro (Resab) produz materiais didáticos que buscam combater os estereótipos pejorativos sobre a região. São elaborados livros que destacam as potencialidades culturais e naturais da região, em vez de defini-las como barreiras ao desenvolvimento. Essa rede congrega poderes e organizações civis. E está em busca de adesão das universidades.









Conviver e mudar



O Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa) trabalha em prol de uma nova mentalidade educacional para o semi-árido. Em vez do enfoque tradicional, baseado na lógica do combate à seca, trabalha-se a convivência. Ampliar os conhecimentos dos produtores rurais é um dos instrumentos fundamentais nesse processo. Técnicas de captação e armazenagem de água da chuva para consumo em períodos de estiagem são difundidas pelo instituto. O projeto
Inclusão, Universalização e Qualidade da Educação no Semi-Árido Brasileiro

traz propostas para melhorar a produção local com tecnologia e beneficiamento da produção. Formação de cooperativas e comercialização de produtos já são realidade.









Na ponta



A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento, foi criada em 1973 com a missão de inventar e aperfeiçoar tecnologias para o agronegócio e para o desenvolvimento sustentável. Em 1975, criou-se a Embrapa Semi-Árido, especialmente focada na pesquisa e no desenvolvimento dessa região. Criaram-se pólos regionais de pesquisa que fomentam a troca de experiências e atraem estudantes.









Intercâmbio



O Colégio Emilie de Villeneuve em parceria com a Universidade Metodista de São Paulo promoveu, pelo terceiro ano, o

Projeto Piauí






. Em julho, alunos e professores voluntários saíram de São Paulo rumo a Oeiras para prestar atendimento médico, odontológico, nutricional, fisioterápico e laboratorial a mais de 300 famílias. Foram realizadas oficinas educativas para líderes comunitários, além de ações para ampliar o aproveitamento da terra.







Belo bode



O Movimento de Organização Comunitária (MOC) combate o trabalho infantil por meio de programas de complemento à renda familiar, como o
Bode-Escola

. A idéia é fornecer matrizes para as famílias, que procriam o animal, utilizam derivados do leite e vendem produtos. Isso em troca de colocar crianças na escola, ou tirá-las do trabalho.









Do baú



O
Baú de Leitura

leva literatura e exercícios de linguagem a crianças da Bahia e de Sergipe. O objetivo principal é melhorar o desempenho escolar dos estudantes.







Com um clique




O
Clique Semi-Árido

é uma campanha pela construção de cisternas caseiras e outras obras hídricas. Cada vez que se entra no site e se visita a página, uma doação é efetuada por empresas parceiras.




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