De segunda a domingo

Além de diminuir ociosidade e violência juvenis, abertura de escolas públicas nos fins de semana ajuda a capacitar comunidades locais

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Cristina Charão






A violência em torno das escolas em Pernambuco caiu 60% nos últimos anos. O motivo alegado: a política de abrir as escolas nos fins de semana. Em mais dois estados brasileiros, Rio de Janeiro e Bahia, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) propôs há quatro anos a abertura das escolas nos sábados e domingos como forma de combater a ociosidade juvenil. Outros estados e municípios bancaram a idéia e comemoram os resultados.

No Brasil, de cada 100 mil jovens, 52 mil morrem assassinados por ano – mais de 70% das ocorrências são registradas nos fins de semana. A maioria dos envolvidos é adolescente de baixa renda e alto risco social. Nas periferias das grandes cidades ou em pequenos municípios do interior, a resposta ao que os jovens fazem nesses dias é: “A gente fica pela rua”.


O programa
Abrindo Espaços

, da Unesco, foi implementado de forma pioneira em Pernambuco, Rio de Janeiro e Bahia justamente porque eram os estados que apresentavam os maiores índices de violência juvenil. Segundo o órgão da ONU, os números caíram de forma “empolgante” dentro e nos arredores das escolas participantes. Em todas as regiões onde projetos semelhantes foram criados – mesmo há pouco tempo, como em São Paulo e no Rio Grande do Sul – registram-se quedas acentuadas de depredação do patrimônio e pichações nas escolas.



“Só isso já representa uma economia maior que o gasto de abrir as escolas aos domingos”, calcula Jorge Werthein, representante da Unesco no Brasil. “Se contarmos que o número de acidentes também cai, já é outro gasto a menos no sistema de saúde.” Outra conseqüência, conforme ele, é a diminuição da necessidade de intervenção das forças de segurança.



No Rio de Janeiro, é alta entre os alunos a percepção de que a violência foi reduzida não apenas na escola, mas também na rua e no ambiente familiar. Quase 70% dos jovens participantes entrevistados pelos pesquisadores da Unesco no fim do primeiro ano de implementação do
Escolas de Paz

– que faz parte do
Abrindo Espaços

– acreditam que o programa contribuiu para reduzir ocorrências dentro da escola; 43% perceberam uma diminuição da violência no bairro e 36% na sua família.

Fora a violência, os programas escancaram outras deficiências das comunidades. “A escola acaba suprindo algumas carências sociais e este é um papel ao qual não pode se furtar”, afirma Paulo Barbosa, secretário-adjunto da Educação do Estado de São Paulo e coordenador do programa
Escola da Família

. A oportunidade de geração de renda, por exemplo. Boa parte das atividades realizadas, hoje, dentro das escolas em São Paulo está ligada à produção de artesanato ou de aprendizado de prestação de serviços.

Na Escola Estadual Castro Alves, na zona norte de São Paulo, a diretora Sandra Dias Paza conta orgulhosa que vários participantes das 11 oficinas já vendem seus produtos na região. “Temos um rapaz, que trabalha como vigilante, que aprendeu a fazer pães e salgados na oficina de culinária e hoje fornece para a cantina de uma igreja aqui perto”, conta Sandra, enquanto mostra sobre a mesa peças feitas em biscuit por uma senhora que aprendeu o ofício nas salas da Castro Alves.

Pesquisa feita pela Unesco nas escolas participantes do
Abrindo Espaços

na Bahia mostra que entre as oficinas mais procuradas estão cursos de crochê, bordados, confecção de bijuterias e manicure. Outra demanda é a formação extra-curricular em línguas estrangeiras e em informática, em áreas onde não há oferta desses cursos ou onde os moradores têm baixa renda. Em Pernambuco, o
Escola Aberta

também é um dos maiores programas de inclusão digital do estado.

Entre tantas carências supridas pela abertura das escolas no fim de semana, porém, destaca-se mesmo a falta de opções de lazer e esporte. “Em muitos lugares, as opções são o bar ou a loja de fliperamas. O lazer está muito mercantilizado”, aponta a professora Marilia Sposito, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), especialista em inclusão dos jovens da periferia. Isso explica, segundo ela, a alta procura de jovens e crianças por oficinas como capoeira, futsal, vôlei, e também todo tipo de dança e música.

Marília Sposito, porém, preocupa-se com a pressão sofrida pela escola por ser o único equipamento social presente na maior parte das comunidades carentes do país. Apesar da demanda enorme, ela observa que “abrir os portões apenas não basta”. Uma das exigências dos vários projetos tem sido exatamente um diagnóstico prévio das necessidades da comunidade. No Recife, as escolas tornaram-se importantes para a recuperação de tradições populares. Grupos de percussão, maracatu e caboclinho nasceram e renasceram. “Os grupos tinham uma grande necessidade de ter espaço para ensaiar e uma enorme ansiedade por ter público”, conta Tcháurea Gusmão, coordenadora do programa
Escola Aberta

em Pernambuco.

O envolvimento de moradores da região como coordenadores ou oficineiros é outra condição. “Assim, o programa contribui para um processo de integração da comunidade, que vai estar mais organizada para levar adiante suas reivindicações”, acredita Barbosa. “As escolas acabam virando grandes centros comunitários”, defende Werthein, da Unesco.


Gerações –

Nesses centros, encontram-se não só os jovens, mas várias gerações. Na escola paulistana Castro Alves, Rhuan Carvalho, de 16 anos, acabou convencendo o pai da namorada, Orlando Wagner, de 38 anos, a fazer a oficina de panificação. “A escola é agora um lugar de convívio de atividades familiares que antes não existiam”, diz Orlando.

Segundo Jorge Werthein, a participação da família e a aproximação dos alunos com professores têm um impacto positivo no desempenho escolar das crianças e adolescentes. Ele diz, porém, que a melhora no desempenho dos alunos se deve, principalmente, aos bons resultados obtidos de acordo com o objetivo primeiro do programa, a redução da violência. “A sensação de medo, de terror, tanto dos alunos quanto do professores, é um fator importante no absenteísmo e no abandono escolar”, finaliza Werthein.



 




Quintal de casa



Para Jorge Werthein, representante da Unesco no Brasil, os primeiros a serem convencidos da importância de se abrir a escola nos finais de semana são os diretores: “Precisamos quebrar a idéia que muitos têm de que a escola é dele e só ele tem o poder sobre o cadeado”. Sandra Dias Paza, diretora da Escola Estadual Castro Alves, em São Paulo, precisou de muito pouco para ser convencida. Abriu os portões já no primeiro fim de semana do programa Escola da Família. Depois disso, passa todos os finais de semana no colégio.





Revista Educação – Como tem sido a participação dos alunos e da comunidade?





Sandra Dias Paza –

A participação dos alunos é fantástica. São eles que trazem os pais para a escola. Muitos pais vêm trazer os filhos e se animam a fazer e dar oficinas. A escola virou o prolongamento do lar, o pátio de casa.




 





E no que isso mudou a escola?




Tínhamos problemas de invasão, de vandalismo, que acabaram por completo. Além disso, os pais passaram a contribuir com a conservação. Eles ajudam a limpar a escola no domingo, alguns se propõem a pintar as salas de aula. Isso reduz nossos gastos, também, já que a escola não tem recursos para fazer tudo isso.




 





Dentro da sala de aula já se vê algum resultado?




O principal é a diminuição da agressividade. Os alunos agora têm onde extravasar a sua energia. O engraçado é que ela diminuiu muito entre os meninos, mas ainda temos muitos casos de agressões entre meninas. Estamos pensando em mais atividades voltadas para elas.


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