De par em par

Escola da Vila tem projetos com dois professores em sala de aula

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Uma vez por semana, o professor de química trabalha em sala de aula com a professora de física, o de história com o de geografia, assim como as responsáveis pelas áreas de literatura e língua portuguesa também juntam esforços. Essas práticas de integração já estão incorporadas à rotina do ensino médio e de alguns projetos especiais do fundamental na Escola da Vila, em São Paulo.

Divino Marroquino, professor de química, trabalha neste ano a questão do aquecimento global em parceria com a professora de física. “A interação e o envolvimento em sala de aula é tão grande que a gente nem se dá conta de quando está abordando conteúdos de química e quando aquilo é física. O trabalho é tão integrado que posso responder a questões de física e ela pode fazer comentários relacionados à química. Tampouco os alunos direcionam as perguntas para um ou outro professor conforme a sua especialidade”, conta.

Segundo o coordenador de ensino médio, Armando Tandelli, o objetivo da experiência, que conta sete anos na escola, é o avanço em relação aos conteúdos tradicionalmente trabalhados de forma disciplinar. “Na primeira fase, a maior dificuldade era os professores encontrarem as estratégias e os elementos comuns em cada campo conceitual que estavam trabalhando. Num primeiro momento, o processo de aprendizagem foi mais intenso para os professores do que para os próprios alunos”, avalia.

No 2º ano do ensino médio, os alunos também trabalham dentro de uma perspectiva interdisciplinar na disciplina de projetos de investigação, em que são orientados por um professor das áreas de humanidades, de linguagem ou de ciências naturais. Após uma pesquisa individual, os alunos produzem um ensaio durante um semestre. 

 “Em religião eu tenho de dar conta de tudo”, comenta Armando. “Entra ciência, artes, filosofia. Porém não sou professor polivalente, sou quem acompanha e orienta o trabalho dos alunos nessa viagem interdisciplinar.”

Para Armando, promover a integração em todas as séries é uma questão difícil porque hoje a escola ainda está presa à grade curricular e à necessidade de capacitar seus alunos para as avaliações externas. “Essas avaliações ainda são majoritariamente de especialização, apesar de já trazerem algumas questões interdisciplinares, como nos dois últimos anos do vestibular da Fuvest”, lembra.

Porém, alguns projetos especiais do ensino fundamental também já contemplam essa prática. No 8º ano (a antiga 7ª série), a professora de literatura Aline Evangelista Martins tem uma aula semanal com a professora de filosofia.
“Trabalhamos com leitura literária, mas a abordagem, além de literária, também é filosófica”, conta. As escolhas literárias recaem sobre obras que, afora propiciar discussões literárias, podem levar a temas como ética, por exemplo.

“A interpretação avança quando a possibilidade de reflexão avança”, avalia Aline. “E essa questão de contemplar a ética, um dos temas centrais do 8º ano, fica favorecida porque, ao refletirem sobre os problemas éticos das personagens, os alunos estão refletindo sobre o homem”, conclui.

Na avaliação dos docentes, dessa forma o planejamento se torna mais desafiador. É preciso que eles tenham tempo para conversar e planejar as atividades, estudar o projeto e deixá-lo equilibrado em relação aos conteúdos das áreas envolvidas. Além disso, planejar uma avaliação que contempla outra disciplina causa, num primeiro momento, uma dose de estranhamento.

“Levamos três anos para chegar a um ponto em que avaliamos que o trabalho está legal, que não tem brechas. O importante é não desistir. O professor tem de estar aberto e curioso sobre a área de conhecimento do seu colega para desenvolver um trabalho interdisciplinar. Precisa ter investimento da escola para possibilitar esse tempo de estudo. E do próprio professor para  se aproximar da outra disciplina, conhecê-la e entendê-la. Tive de me aproximar muito da filosofia”, conta.


A literatura como suporte

Em março de 2005 o professor Hugo Monteiro Ferreira, de Cabo de Santo Agostinho (PE), iniciou um trabalho de aplicação prática para a sua tese de doutorado. A idéia era trabalhar o currículo da 4ª série de uma escola pública por meio de uma abordagem transdisciplinar que usasse a literatura como suporte. A metodologia envolveu três fases: entrevistas com a professora e com os alunos da turma na qual iria atuar como professor; encontros temáticos com os alunos e aulas de leitura de literatura com abordagem transdisciplinar no ensino do conteúdo curricular da escola.

A primeira etapa tinha como objetivo conhecer a professora e saber o que os alunos pensavam sobre temas relacionados à produção do conhecimento na escola e como a relacionavam com a leitura literária. A base do trabalho se deu com o conto Tchau, de Lygia Bojunga.

No decorrer do trabalho, outros textos literários, como Profundamente, de Manuel Bandeira, e Soneto do amigo, de Vinícius de Moraes, foram usados, pois propiciavam a articulação de estudos nos campos de português, geografia, história, matemática, religião e artes. Hugo observa que o mediador da aprendizagem deve possuir um conhecimento generalista. “Não precisa ser um conhecedor de tudo, mas saber promover as interações necessárias no processo de orientar a aprendizagem dos alunos”, explica.

De setembro a dezembro, Ferreira realizou 13 encontros, de 4 horas cada, com os alunos. O trabalho foi aplicado numa escola disciplinar, o que prova que é possível utilizar essa metodologia sem alterar todo o currículo do município.

“A professora da sala me cedeu o espaço e acompanhou todo o processo. Não abri mão dos conteúdos de língua portuguesa, história, ciências, geografia e matemática que estavam previstos. Eles aprenderam tudo isso de um modo conectado. O resultado foi um envolvimento muito significativo por parte dos alunos com a aprendizagem. O texto literário, por sua natureza complexa, pode ser usado como instrumento transdiciplinar, mas não pode perder a sua natureza estética, tornando-se apenas um instrumento didático. Precisa entrar em sala de aula com toda a sua gama de contradição”, defende.

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