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ENTREVISTA com Stéphane Maisonnas | Edição 200 Interessado nas estratégias de gestão do agronegócio brasileiro, Stéphane Maisonnas, diretor da francesa Audencia Nantes, estabelece parceria …

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ENTREVISTA com Stéphane Maisonnas | Edição 200

Interessado nas estratégias de gestão do agronegócio brasileiro, Stéphane Maisonnas, diretor da francesa Audencia Nantes, estabelece parceria com a ESPM para oferecer um MBA e se destacar no mercado internacional

por Marina Kuzuyabu

Daniel Torres

Stéphane Maisonnas: programa de dupla titulação cursado na França e no Brasil

A escola de negócios Audencia Nantes está listada em vários rankings internacionais como uma das melhores da Europa. Fundada no ano de 1900, a instituição fechou recentemente uma parceria com a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) para oferecer um MBA em agronegócio. O programa fornece dupla titulação e confere aos alunos a oportunidade de cursar uma parte do programa no Brasil e outra na França.

Como explica Stéphane Maisonnas, professor e diretor dos programas de mestrados especializados da Audencia, a decisão de procurar um parceiro no Brasil foi deles, que reconhecem a especialidade das indústrias locais em elevar a produtividade e a eficiência da cadeia transformadora. Mas, em sua avaliação, essa expertise poderia ser complementada com conhecimentos sobre como agregar valor aos produtos finais – algo que os franceses dominam e estão dispostos a compartilhar.

Na entrevista que segue, Maisonnas também fala sobre a concorrência no mercado internacional e as estratégias que utilizam para atrair estudantes e trabalhar em sintonia com as empresas e indústrias francesas.

Ensino Superior: O que motivou a aproximação da Audencia com a ESPM?
Stéphane Maisonnas: Queríamos desenvolver um programa focado nas áreas agroalimentar e agrícola, pois a maioria das empresas francesas que atua nesse setor está localizada na região em que estamos, o oeste da França. Além disso, tínhamos vários professores com formação nessa área e um bom laboratório de pesquisas sobre a percepção dos consumidores em relação a novos produtos. Há cerca de dois anos e meio, decidimos criar um programa com abrangência internacional para atrair um número maior de estudantes. Mas, para isso, teríamos ou de contratar professores habilitados para dar aulas em inglês, o que não nos parecia muito interessante, ou buscar um parceiro no exterior. Escolhemos a segunda opção. Como nosso foco era o mercado agrícola e agroalimentar e como estávamos mirando o futuro, enxergamos o Brasil como um ponto incontornável nesse horizonte. A partir daí, começamos a prospectar possíveis parceiros. A ESPM já tinha um centro de pesquisas voltado para essa problemática e, tínhamos um contato na instituição. Foi assim que iniciamos o processo de negociação e formalizamos a parceria. Tudo isso foi feito muito rapidamente. Uma parceria desse tipo, que oferece dupla titulação, leva tempo, demanda que as agendas coincidam. Mas nesse caso foi totalmente diferente.

E quanto à demanda dos alunos? Há um público numeroso interessado em seguir carreira nessa área?
Na França, esse é setor que mais emprega, mas temos de reconhecer que há cada vez menos jovens interessados na carreira. Um dos motivos é que a profissão demanda um esforço físico no qual os jovens não estão interessados. Há muitas ocupações, mas em geral elas demandam que o profissional se levante cedo, trabalhe no frio, na umidade etc. Por isso, muitos preferem atuar na área de pesquisa e desenvolvimento ou trabalhar com gestão de controle e qualidade. Há também a percepção de que se trata de um setor velho, que não tem glamour – diferente das carreiras ligadas às novas tecnologias e às finanças, por exemplo.

Mas o conhecimento do setor pode ser estendido a outras áreas?
O aprendizado que a área oferece é de grande valia. É uma escola passar pela experiência de ser chefe de produção nesse setor, uma vez que os distribuidores na França são muito poderosos e articulados. O conhecimento acumulado nessa posição pode ser utilizado em outros mercados, embora muitos estudantes não vejam isso. Pelo contrário, muitos têm receio de se fechar em uma área, o que faz com que a maioria opte por especializações em marketing, finanças, contabilidade. Na Audencia, temos poucos programas setoriais. Temos um na área de esportes, outro em gestão de artes e, agora, este para o setor agroalimentar.  De qualquer maneira, o programa tem seu público e existe a demanda por parte das empresas.

Como vocês estruturam o programa?
O programa foi montado conjuntamente e é constituído por três partes: as duas primeiras são cursadas na França e a última, no Brasil. A primeira parte, que dura dez semanas, tem uma forte carga na área de gestão. O motivo disso é que temos estudantes egressos de escolas de comércio, de negócios e de engenharia; estudantes com formação na área de tecnologia agroalimentar; biólogos etc. Em função disso, nessa primeira etapa, a prioridade é que todos adquiram a mesma base e dominem princípios fundamentais de gestão de negócios, marketing, recursos humanos, direito, responsabilidade global e finanças. Esse conteúdo é basicamente o mesmo oferecido no MBA da ESPM, o que garante que os estudantes de ambas as instituições terão acesso aos mesmos conteúdos. A segunda parte do programa, que também dura dez semanas, trabalha com a questão de como agregar valor ao produto final. E, finalmente, a terceira e última parte, desenvolvida no Brasil, é voltada para a questão de como agregar valor à produção agrícola e a todas as utilizações feitas dos produtos agrícolas, como o etanol. Desenvolvemos um programa bem integrado que cobre tanto a transformação agroalimentar como a valorização da produção agrícola.

O potencial de crescimento do ensino superior brasileiro foi importante para a formalização da parceria?
Sinceramente, não. O que nos interessou foi a instituição especificamente e toda a sua estrutura.

Qual a estratégia da Audencia para se destacar no mercado internacional e atrair estudantes?
A participação em salões de estudantes constitui a principal estratégia da instituição para trazer novos alunos. Também realizamos ações de marketing, especialmente no ambiente digital, divulgando, por exemplo, depoimentos de estudantes. Mas o essencial é o contato tête-à-tête nos salões. Temos uma equipe formada por três profissionais, que vivem praticamente fora da França se dedicando a divulgar nossos programas em eventos dessa natureza.

Nesse contexto, qual é a importância de uma parceria como essa estabelecida com a ESPM?
É muito positiva, pois nos diferencia no mercado. Um programa internacional tem grande relevância, pois uma escola pode copiar o programa da outra e oferecer, pelo menos em tese, a mesma coisa aos alunos. Mas a parceria com uma instituição internacional é única. Com o Brasil é ainda mais singular.

Vocês têm outras parcerias fora da França?
Temos vários parceiros, mas a grande maioria funciona para o intercâmbio de estudantes, que por quatro, cinco meses podem frequentar outras instituições. A dupla titulação, como esta que estamos oferecendo com a ESPM, é mais restrita. Além da instituição brasileira, temos acordos com a Universidad de Deusto, na Espanha, a Bradford University School of Management, da Inglaterra, e o Politecnico di Milano, na Itália. São poucas porque, como já comentei, parcerias dessa natureza levam tempo para serem construídas e anos de investimento.

Como está estruturado o ensino superior privado na França? Qual o perfil do aluno que opta por essas instituições?
O ensino superior francês está dividido em três etapas: graduação (licence), com duração de 3 anos, mestrado (2 anos) e doutorado (até 4 anos). Na esfera pública, temos as universidades; as formações de curta duração (Brevet de Technicien Supérieur), que duram dois anos; as formações nos institutos universitários de tecnologia, que duram três anos; e o que a gente chama de licence professionnel, que dura um ano, e pode ser acrescentada à formação daqueles que têm o diploma BTS. Existem também as escolas preparatórias, que são de nível superior, mas não conferem aos alunos um diploma de conclusão. A finalidade delas é preparar os alunos para os exames de seleção das grandes écoles (grandes escolas), que correspondem a outro tipo de instituição de ensino superior, marcada pelo alto rigor na formação. Elas podem ter duração de até três anos e conferir diplomas de graduação (licence) e mestrado. O doutorado é oferecido exclusivamente pelas universidades, que são sempre públicas. A exceção é a École des Hautes Études Commerciales, mais conhecida pela sigla HEC, que também pode preparar para o doutorado.

Por que as escolas preparatórias são obrigatórias? Que tipo de preparação elas oferecem exatamente aos jovens?
Essas escolas, que são da época de Napoleão, oferecem uma formação bem elitista. Enfatizam matérias fundamentais, como matemática, francês e filosofia para preparar os estudantes para os exames de seleção, que são muito concorridos. As écoles são classificadas por grupos e o desempenho do aluno no exame determinará a quais grupos de instituições ele terá acesso.

Enquanto as universidades são sempre públicas, as écoles podem ser privadas, como é o caso da Audencia. Além do custo, há alguma diferença em relação às públicas?
As écoles privadas, como a Audencia, podem durar cinco anos, cursados diretamente, sem seleção, sem escola preparatória. O sistema das escolas preparatórias é voltado aos melhores alunos, mas há alunos que desejam cursar uma grande école, mas não querem ou não podem integrar as escolas preparatórias, que são realmente muito difíceis e demandam dois anos de estudos intensos. Estes têm a opção de eliminar essa etapa e entrar diretamente nas écoles privadas, que também podem oferecer uma formação de alto nível. Então, de um lado, temos as écoles privadas que, por terem um custo, não são acessíveis para todo mundo, e as públicas que, embora sejam gratuitas, também estão restritas a uma minoria de alunos altamente qualificados.

O estudante tem flexibilidade para migrar de uma instituição para outra?
O ensino superior francês está mudando e se tornando mais flexível nesse aspecto. Antes, ou você seguia um programa de curta duração ou uma formação longa, de cinco anos, no mínimo. Vivi 15 anos no Canadá, onde vários jovens vão para o ensino superior muitos anos depois de concluído o ensino secundário. Há também formações oferecidas no período noturno para o aluno estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Mas na França é diferente. Não temos isso ainda. A carreira estudantil é muito linear e os alunos só começam a trabalhar depois de percorrer todo o trajeto acadêmico, feito sem interrupções, na maioria dos casos.

Considerando que alunos vão entrar no mercado de trabalho mais tarde, que medidas vocês adotam para atender às expectativas dos empregadores?
Temos um comitê em cada programa, composto por professores e por profissionais de várias áreas e organizações. Em geral, é feita uma reunião anual, quando questionamos os representantes das empresas sobre as competências necessárias para trabalhar em suas empresas. Também questionamos como eles veem nossos egressos. Dependendo do feedback, nos adaptamos. De certa forma, somos obrigados a fazer isso, pois na área privada uma parte do financiamento vem das empresas, que direcionam um imposto, a taxa da aprendizagem, à instituição de ensino escolhida por elas – podem ser as écoles mais prestigiosas ou as instituições em que seus diretores e funcionários se formaram. Isso as obriga a se aproximar das empresas. Mas isso vai mudar a partir do ano que vem. O governo vai recolher essa taxa e distribuí-la às instituições de forma igualitária.

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