De malas prontas

Cresce no país procura por cursos de curta duração em escolas estrangeiras como opção para enriquecer currículo e aprimorar língua

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Getty Images
A viagem para a Disney já não parece ser mais o único sonho das crianças e adolescentes para um passeio de férias. Nos colégios particulares de classe alta e média alta, está cada vez mais comum entre os alunos passar duas ou três semanas durante as férias (ou mesmo em período letivo, aproveitando semana de folga prolongada) estudando uma língua estrangeira e convivendo com colegas de outros países em escolas internacionais. Os principais destinos são Canadá, Estados Unidos e Inglaterra, onde os estudantes se hospedam em casas de família e são acompanhados por um professor da escola brasileira onde estudam. De acordo com um levantamento da Associação Brasileira de Operadores de Viagens Educacionais e Culturais (Belta), a estimativa é de que cerca de 215 mil alunos brasileiros tenham viajado ao exterior em 2011 – os cursos de férias já representam 11% dessas viagens e, segundo operadoras do setor, essa modalidade tem crescido em até 90% a cada ano.


De acordo com a Belta, os programas para estudo de idiomas representam 60% das viagens, seguidos pelos programas de high-school (ensino médio), responsáveis por 22,5% do volume de estudantes. Nesse contexto, os cursos de férias surgem como um meio-termo, uma oportunidade de “experimentar” o estudo no exterior de uma maneira formal antes de se decidir por cursar o ensino médio ou fazer uma faculdade em terras estrangeiras. Por isso, está se tornando comum encontrar estudantes que finalizam o ensino fundamental com duas ou três viagens de férias para diferentes destinos – incluindo o estudo de uma terceira língua (como o francês ou o alemão) ou mesmo viagens culturais. “Os alunos não vão para o exterior só pelo currículo escolar, mas pelo todo da experiência”, afirma Tereza Fulfaro, diretora educacional da rede de intercâmbios CI. Segundo ela, essa modalidade de intercâmbio tomou fôlego principalmente nos últimos dez anos, incentivada pela variedade de programas de férias e pelo próprio aumento do poder aquisitivo da população. Apenas para ilustrar, o levantamento da Belta mostra que as famílias de classe C estão começando a enviar seus filhos para estudar no exterior. Das 71 agências e operadoras entrevistadas, 54 atenderam ao público dessa faixa de renda – em 10% das agências, a classe C já é responsável por metade dos negócios.


O intercâmbio de férias também é motivado pela ânsia, por parte dos pais, de proporcionar a vivência internacional aos filhos. Segundo as operadoras do setor,  as famílias chegam inclusive a financiar viagens para crianças menores, cuja faixa etária varia entre 7 e 8 anos. “Eles acreditam que é importante ter essa experiência cada vez mais cedo”, afirma Tereza. Com isso, os alunos já avançariam para as séries seguintes com informações mais claras a respeito de cursar o ensino médio ou uma universidade fora do país. Isso porque, em tese, essa viagem de férias deve ter um contexto pedagógico. “Para a Disney eles já vão com a família”, aponta.


A presença de um professor ou coordenador pedagógico parece ser fundamental para que a experiência de estudo em uma escola estrangeira não se torne apenas um período de diversão ou uma viagem de formatura. “Temos escolas que são parceiras há muitos anos, e percebemos nelas uma preocupação crescente de expor os alunos a uma experiência no exterior”, afirma Bruno Seixas, gerente de educação internacional do STB (Student Travel Bureau). “Dentro dessa parceria, os professores embarcam juntos, para garantir aquilo em que a escola acredita”, diz. Assim, a viagem de férias acaba sendo o primeiro contato da criança ou do adolescente com o estudo da língua estrangeira – o inglês, na esmagadora maioria das vezes – em um ambiente com alunos de outros países. Além disso, aponta Seixas, esses cursos são um cartão de visita do que o estudante pode esperar em uma próxima oportunidade. “Muitos querem entrar numa universidade estrangeira e têm a oportunidade de trocar experiências sobre isso com gente do mundo inteiro”, diz.


Culturas diferentes
A mudança de cultura dos pais e dos alunos – que estão passando a entender que uma viagem para o exterior não precisa ser apenas diversão – é apontada como outro fator  responsável pelo crescimento do mercado de cursos de férias em escolas estrangeiras. De acordo com Maura Leão, presidente da Belta e CEO do Yazigi Travel, a possibilidade de uma experiência internacional ainda no ensino fundamental começa a fazer parte do currículo de muitas escolas – como uma opção a mais no leque de oportunidades que a instituição oferece. “Os pais entendem que o filho vai voltar com uma bagagem de conhecimento”, diz. Nesse sentido, a escola estaria respondendo a um desejo da família. 


Segundo Maura, essa possibilidade se torna ainda mais atrativa para os pais quando está inserida em um contexto mais amplo e conta com a presença dos professores. “É possível utilizar uma viagem para estudar uma cultura específica, como a inca, ou um momento histórico, como a colonização britânica”, afirma. Também são comuns as viagens para a Inglaterra em que a turma aproveita o fim de semana para conhecer outras cidades – como a capital Londres, para quem está no interior, ou atravessando o Canal da Mancha para chegar a Paris. Dependendo da agência, é possível fazer pacotes personalizados para cada turma, faixa etária ou interesse pedagógico.


Por enquanto, porém, a maior parte das viagens está concentrada na vivência de uma cultura diferente: seja o contato com as disciplinas escolares ou na experiência pessoal de ficar hospedado na residência de uma família nativa. Nas chamadas summer schools (escolas de verão) da Inglaterra, por exemplo, os alunos brasileiros encontram estudantes de outros países que se reúnem em julho (verão e período de férias escolares no hemisfério norte) em instituições inglesas e com professores locais. “Os alunos estão expostos a uma formação de visão global, têm atividades culturais, conhecem pontos turísticos”, diz Maura, que também é proprietária de uma escola de ensino fundamental em São José dos Campos.


Segundo Maura, com a popularização de cursos do tipo, a viagem internacional de férias acaba criando expectativa entre os alunos desde o início do ano letivo – ou com a chegada dos anos finais, para as escolas que trabalham com esse sistema. “É um movimento que deve partir do diretor da escola, de oferecer (a possibilidade da viagem) como um diferencial”, aponta. Do mesmo modo, a escola deve ter claro seu modo de atuação para não constranger os alunos cujos pais optaram por não os enviar para o exterior, por questões financeiras ou por escolha pessoal. “Orientamos para que a escola seja clara em relação a isso”, diz Maura. Na escola dela, a adesão dos alunos às viagens internacionais é de cerca de 60%. Em média, um curso de duas semanas no Canadá, incluindo estudo, alimentação e hospedagem, mas sem a passagem aérea, está em torno de US$ 3,5 mil (cerca de R$ 6,2 mil). De acordo com o levantamento da Belta, o principal destino dos estudantes brasileiros para cursos de inglês é o Canadá, com 60% da preferência, seguido pelos Estados Unidos, com 21,1%, e Reino Unido, preferido por 15,5% dos alunos. Mas alguns destinos mais caros, como Austrália e Nova Zelândia, e outros menos badalados, como a África do Sul, começam a fazer parte desse mapa.


Questão de status
O aumento da procura por cursos de férias, especialmente quando destinados a crianças no início do ensino fundamental, exige das escolas e dos pais uma reflexão mais aprofundada sobre as necessidades e objetivos dessa viagem. “De fato, uma vivência fora do contexto familiar enriquece muito a experiência da criança e abre novas possibilidades de visão de mundo”, afirma Maria Ângela Barbato Carneiro, professora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Para ela, ter contato com diferentes realidades sociais, culturais e econômicas é de grande valor para a formação das crianças – e é isso que pais e professores devem ter em mente. “Mas hoje existe uma preocupação dos pais de preparar as crianças cada vez mais cedo para a inserção no mercado de trabalho. Muitos pais acreditam que uma experiência no exterior pode ser mais útil para a criança conseguir trabalho no futuro; isso acaba sendo mais importante do que a vivência com o diferente”, aponta.


Na opinião da educadora, a idade mínima para uma viagem de férias nesses moldes seria em torno de dez anos – apesar de não ver isso como uma regra. “É preciso saber se a criança realmente quer e se ela está preparada, para que isso não se torne uma competição entre as famílias”, ressalta Maria Ângela. Para os professores, a recomendação é preparar a turma para lidar com a experiência de quem foi de uma maneira delicada. “A ideia é fazer com que quem não foi não se sinta menosprezado, afinal isso pode se tornar uma questão de exibir status”. A sugestão é fazer com que os alunos que viajaram possam compartilhar experiências em sala de aula com os que ficaram. Lidar com essas novas questões em breve não será exclusividade de poucos colégios particulares: a expectativa do mercado é de crescimento de 40% no volume de intercâmbios nos próximos três anos.


Vontade própria
A experiência de uma criança de 11 anos em viagem de férias para o Canadá








Gustavo Morita
Vitor Santos, 11 anos: hospedagem na casa de família e aulas em escola internacional
Quando o filho de 11 anos mostrou interesse em passar duas semanas no Canadá em um curso de férias, a gerente comercial Sônia Santos conta que tomou um susto e demorou algum tempo para se acostumar com a ideia. Afinal, apesar de dominar a língua inglesa por estudar em um colégio bilíngue, até então Vitor só havia viajado com os pais e não tinha costume de dormir fora de casa. Pela proposta da viagem, ele ficaria hospedado na residência de uma família canadense e estudaria em uma escola internacional. “Não é fácil para os pais, não é cômodo, mas ele estava muito seguro e foi uma vontade dele, algo muito espontâneo”, diz a mãe. Em outubro, ele embarcou com outros dois colegas e uma coordenadora do Colégio Magister, zona sul de São Paulo, para uma temporada na região da Nova Scotia.


Os resultados, segundo Sônia, fizeram o investimento – financeiro e emocional – valer a pena. “Ele conviveu muito bem com uma família diferente, foi uma experiência que abrangeu dois pontos: o escolar e o pessoal. A gente sentiu um apoio muito grande da escola (brasileira), ela esteve sempre muito presente”, diz. Agora, o garoto espera no futuro fazer uma nova viagem para estudar uma terceira língua, o francês. “Sempre coloco para ele que não vou impedir, só se for pela parte financeira”, conta.

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