De braços dados, apesar das divergências

A ONG Alfabetização Solidária, criada no governo FHC, é a maior parceira do Brasil Alfabetizado, programa do governo Lula

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Em oito anos de atuação, a organização Alfabetização Solidária (Alfasol) escreveu uma história de números significativos e reconhecimento internacional. Até o final de 2004, atendeu a quase 5 milhões de jovens e adultos em 2.050 municípios. Em setembro, recebeu o Prêmio Rei Sejong, uma das três premiações da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Cultura e a Ciência (Unesco) para iniciativas em alfabetização, durante a 47a Conferência Internacional de Educação, realizada em Genebra (Suíça). Dois anos antes, a ONU já havia concedido à Alfasol o Certificado de Boas Práticas Sociais.

O modelo de parcerias pela educação de jovens e adultos proposto pela ONG, reunindo o conhecimento de universidades e o financiamento da iniciativa privada para capacitar professores a ensinar homens e mulheres nos locais de maior incidência de analfabetismo, já foi “exportado” pela organização para o Timor Leste, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guatemala.

A grande surpresa dessa história tem, no entanto, nuance mais política do que educacional. Criada dentro do extinto Comunidade Solidária, programa do governo Fernando Henrique Cardoso, a Alfasol sobreviveu à mudança de rumos na política nacional. Hoje, é o maior destinatário das verbas do programa Brasil Alfabetizado – cerca de 95% do orçamento é repassado à ONG. Ironicamente, o projeto criado dentro de um programa que conclamava o Terceiro Setor a assumir responsabilidades na construção do país imaginado pelo governo do PSDB tornou-se o maior agente do programa governamental contra o analfabetismo da gestão Lula.

Ainda assim, é possível notar divergências entre os dois programas. A principal é a questão metodológica. Ambos delegam aos parceiros (na Alfasol, universidades; no Brasil Alfabetizado, ONGs, empresas ou instituições de ensino) a tarefa de definir o método de alfabetização em si, incluindo a produção do material didático. O programa do atual governo, no entanto, não estabelece limites à metodologia a ser aplicada. “Tenho para mim que é preciso uma proposta pedagógica mínima. Que sejam diretrizes amplas, mas que existam”, observa Neiva Toneli, professora da PUC-MG e coordenadora da Alfasol para Minas Gerais e o Nordeste.

Os parceiros da Alfasol seguem o que a organização chama de “princípios orientadores”. Neles, explica Neiva, está expressa a metodologia preferencial a ser adotada pelos parceiros, que deve mesclar o letramento e o estudo do código. São adotadas “propostas baseadas em textos significativos, que sejam do universo do aluno – avisos, textos publicitários, panfletos, revistas – e que falem de coisas importantes e do seu dia-a-dia, como trabalho e prevenção de doenças”. A partir deles, procura-se despertar a “consciência fonológica”. “Trabalhamos com palavras retiradas de dentro desses textos”, explica Neiva. “Os sons encontrados nelas são reconhecidos pelos alunos e usados para construir outras palavras.”

A metodologia apoiada pela Alfasol torna-se, assim, espécie de denominador comum entre as abordagens do método fônico (o famoso “be-a-bá”) e os métodos construtivistas. O ecletismo, no entanto, não é exclusividade dos alfabetizadores formados pela ONG. Em publicação do programa Brasil Alfabetizado, que reúne experiências em Educação de Jovens e Adultos (EJA), a pró-reitora de Extensão da Universidade de Brasília, Dóris Santos de Faria, reconhece que esse mesmo denominador comum perpassa as várias propostas apresentadas no livro. “Parece hoje que a utilização de um único desses métodos não seria suficiente para a eficácia da alfabetização”, afirma.

O avanço metodológico da educação de jovens e adultos experimentado pelo Brasil nos últimos anos acaba, então, anulando a eventual diferença básica entre um e outro projeto. É o que propõe a professora Gladys Rocha, pesquisadora do Centro de Alfabetização e Letramento (Ceale) e doutora pela Universidade Federal de Minas Gerais com tese sobre as concepções de alfabetização e analfabetismo da Alfasol, que comparou ao extinto Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral). “O que me parece uma diretriz interessante da Alfasol, e que de fato está ausente no programa do Ministério da Educação, não é a metodologia de sala de aula, propriamente dita, mas a de acompanhamento do trabalho de alfabetizadores e coordenadores pedagógicos”, afirma. “As reuniões mensais são um grande diferencial.”

Se as soluções encontradas pelas duas propostas de atuação são semelhantes, o problema dos programas é absolutamente idêntico: o tempo escasso para a efetiva alfabetização. Segundo levantamento feito pela Superintendência Executiva do Alfabetização Solidária, mais da metade dos alunos concluem o módulo de aprendizagem sem ser capaz de ler ou escrever uma frase inteira. Apenas 27,9% saem em condições de ler e entender textos. O programa atual do MEC não tem esses dados, mas a professora Gladys, que coordena classes de alfabetização de ambos os programas, afirma que os números devem ser muito próximos. “A grande questão é que ambos tratam a alfabetização como um problema emergencial, que precisa ser resolvido no curto prazo. Nesse ponto, até o Mobral é muito parecido com o que se faz hoje”, critica. Os módulos de atuação da Alfasol ampliam-se em 2005 de 6 meses para 8 meses, a fim de se adaptar às demandas do programa do governo.

A administradora de empresas Regina Esteves, superintendente-executiva da ONG Alfabetização Solidária, ponderou as estatísticas de ineficiência ao receber o prêmio Rei Sejong,. “82% dos nossos alunos não conhecem nem as letras quando começam. A sociabilização e a inclusão no mundo da escola já são um grande ganho”, disse. De fato, como registrou a socióloga Regina Marta Barbosa Faria, professora da Universidade de Campinas, em avaliação do impacto provocado pela Alfasol, há aumento considerável da demanda por oferta de EJA no sistema público regular de ensino nas cidades onde a ONG atua. Os coordenadores tentam incentivar as secretarias de educação a ampliar essa oferta, mas nem todos os municípios têm condições de assumir a tarefa, especialmente na zona rural, onde o número de pessoas que não sabem ler e escrever é muito maior.




Reportagem: Cristina Charão (Agência Repórter Social)




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