Das cavernas às universidades

Primeiras formas de escrita surgem junto às da caligrafia

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O homem encontra a mulher sozinha, longe da tribo. São muito jovens. Ele emite uns grunhidos monossilábicos. Ela grita e ameaça correr. Ele então lhe dá uma carinhosa paulada na cabeça e a arrasta pelos cabelos até a caverna de sua tribo. São de tribos diferentes. Lá, atendendo à imposição da mãe natureza, consuma sem nenhuma ternura sua tarefa de perpetuação da espécie com a garota apresada.

Depois, descansa algumas horas, que ninguém é de ferro. Ou melhor, de pedra, porque estamos na idade da pedra, há 29 mil anos, na atual região do Parque Nacional da Capivara (PI). É o início do Paleolítico Superior. Havia sido um bom dia para o bípede peladão. Antes, tinha devorado um bom naco de carne crua de tatu. Não precisara comer apenas frutas, larvas e minhocas, como muitas vezes.

Em seguida, satisfeito, recomeça a rabiscar na rocha alguns desenhos que vinha fazendo há tempo. Usa lascas de rocha mais dura (sílex) para a gravação. Assim, tenta reproduzir cenas da vida doméstica, representadas por criaturas como ele, pela imagem de bichos de que fugia ou que perseguia, pelas delícias da carne, enfim. Eterniza como pode seu deslumbramento com a natureza cheia de mistérios.

Nosso Da Vinci pré-histórico não tinha a criatividade revolucionária de alguns dos artistas que concebem com brilho suas instalações nas bienais de arte de hoje. Mas produzia desenhos impressionantes, como os encontrados em cavernas de Altamira, Santander (Espanha). Ou de Lascaux (França), e outras muitas, em todos os continentes.

Nítidos, muitos deles coloridos, exibem homens em luta, órgãos sexuais humanos, bisões, mamutes peludos e outros animais gravados com perfeição. São gravuras parietais, isto é, inscritas em paredes de cavernas, por isso mais bem conservadas; as rupestres (de rocha) são gravadas em rochas ao ar livre, sujeitas às intempéries. As de Lascaux têm cerca de 20 mil anos. As de Altamira, “apenas” 11 mil anos. Bem mais novas do que as do Da Vinci primitivo nacional bruto.


Tarzã e Faustão –

Tais desenhos precederam as primeiras formas de escrita, que surgiram entre cinco e seis milênios passados, já na Idade do Bronze. Provavelmente em mais de um lugar, mais ou menos ao mesmo tempo. Só que é preciso considerar “mesmo tempo” o intervalo de algumas dezenas ou centenas de anos. Prazo desprezível, considerando que a escrita hieroglífica egípcia e a cuneiforme suméria perduraram por cerca de três mil anos.

E dessas são os primeiros vestígios encontrados, embora se reconheça como certo que houve pelo menos outro nascedouro da escrita no Vale do rio Indo, atual divisa entre Índia e Paquistão. Trata-se de um sistema de escrita ainda não inteiramente decifrado, pois as pesquisas que descobriram inscrições em Mohenjo-Daro e Harapa são relativamente recentes. A escrita do Vale do Indo data de no mínimo 2 500 a.C.

O fato é que a escrita surgiu e se desenvolveu pela necessidade do homem de reter informações impossíveis de guardar na memória. E também de se comunicar a distâncias que ultrapassassem o alcance do grito primevo de Tarzã, o Rei dos Macacos, ou dos urros de um desses Faustões ruidosos da TV.

Pode-se dizer que a história da escrita coincide com a história da caligrafia. No entanto, convém notar que se toma aqui a palavra caligrafia (escrita bonita) no sentido comum, com que se generalizou, como sinônimo de escrita à mão, simplesmente.

Do ponto de vista científico, a história da caligrafia começa no século XVIII. Uma divisão meramente acadêmica, porque a escrita, o burilar dos signos com que o homem tentava transmitir qualquer coisa, tem mais de cinco mil anos. E poucas coisas havia mais delicadas e trabalhosas do que as formas escritas primitivas, de que trata a paleografia (escrita antiga).


Hieróglifos –

Há evidências de que a escrita cuneiforme tenha surgido há mais de cinco milênios na Mesopotâmia, região do atual Iraque, criada pelos culturalmente adiantados sumérios. Eles desenvolveram uma ideografia que evoluiu para a escrita cuneiforme, mais tarde utilizada pelos acádios, assírios, babilônios e outros povos não muito distantes. Cuneiforme porque seus caracteres tinham forma de cunha, do latim
cuneus

. Os sinais eram gravados em placas de argila úmida com a extremidade de um junco ou cabo de madeira e depois, cozidas. Assim perduraram tanto tempo.

Como os sumérios não haviam formado um império, mas viviam em cidades-Estado em guerra umas com as outras, eram relativamente fracos militarmente. Por isso, os agressivos babilônios os dominaram e lhes assimilaram a cultura, de que, aliás, fizeram bom proveito.

Quanto aos hieróglifos (nome que significa “entalhes sagrados”), surgiram há 5.250 anos, de acordo com os egiptólogos John Colleman Darnell, da Universidade de Yale, e sua mulher, Deborah. Eles encontraram o que supõem ser os mais antigos exemplares de escrita até o momento. São proto-hieróglifos gravados numa placa de argila descoberta em 1995 a oeste do rio Nilo. A placa registra a vitória de um poderoso monarca, provavelmente o lendário Rei Escorpião, que teria desempenhado papel importante na unificação do Egito.

No entanto, é possível que tanto egípcios quanto sumérios tenham utilizado a escrita antes disso, mas em material perecível, como madeira, de que não ficaram vestígios. Rolos de papiro com inscrições, embora perecíveis, conservaram-se em tumbas por causa do clima extremamente seco do Egito.


O boi é um boi –

Ainda que a escrita egípcia seja a mais antiga, são da cuneiforme mesopotâmica as primeiras manifestações literárias expressivas. O poema épico “Gilgamés”, da metade do terceiro milênio a.C., é uma delas. Narra a epopéia do rei semilendário de Uruk, uma das cidades sumérias, em doze tabuletas descobertas na biblioteca do rei assírio Assurbanípal, em Nínive. Outra é o “Código de Hamurábi”, texto jurídico gravado numa peça de granito (diorito) por volta de 1800 a.C., sob o governo desse rei babilônio.

As pequenas tábuas de argila encontradas nas ruínas de cidades sumérias de Ur e Uruc exibem os sinais pictográficos característicos: o sinal correspondente a um boi, por exemplo, assemelha-se à cabeça de um animal, e o que representa o dia é o desenho do nascer do sol. A maior parte delas se refere a registros econômicos.

Por isso, é quase certo que tais registros tenham sido criados pela necessidade de controlar a mercadoria que entrava no palácio real e no templo e deles saía. Mas a escrita evoluiu. Aos poucos, foi deixando de representar a realidade para se tornar mais e mais abstrata. As idéias passaram a ser expressas por traços, e não mais por desenhos e ideogramas.

Contemporânea da cuneiforme, a escrita hieroglífica, no entanto, foi a que se manteve em uso por mais tempo. Há gravações de hieróglifos feitas em 394 a.C. Também formados por sinais pictográficos, os hieróglifos aos poucos foram deixando de registrar diferentes tipos de textos para ser usados somente para expressar sentimentos religiosos. Mais tarde, com o uso do papiro, os egípcios desenvolveram a escrita hierática, traçado cursivo com que simplificavam e abreviavam a escrita hieroglífica. Assim era grafada em papiro, obtido do arbusto de mesmo nome. Colocavam camadas de miolo de papiro umas sobre as outras, cruzadas e coladas. Prensadas e alisadas, estavam prontas para a escrita. Usavam então o cálamo, caneta de cana ou junco, pontiaguda, embebida em tinta preta ou vermelha, feita de corantes.

Por fim, em torno de 1000 a.C., os egípcios criaram a escrita demótica, simplificada e sintética — uma espécie de estenografia –, para documentos profanos. Quando em monumentos de pedra, claro que gravavam os ideogramas com ponteiras metálicas. Já os sumérios usavam a escrita cuneiforme para fins religiosos e laicos, indiferentemente.


Alfabeto –

Foi em torno dessa época – séculos XII ou XIII a.C. – que os fenícios, comerciantes profissionais, criaram as bases do alfabeto. A Fenícia ocupava a margem oriental do Mediterrâneo oriental e as montanhas do atual Líbano. Seus habitantes haviam assimilado as culturas egípcia e mesopotâmica e se movimentavam com desenvoltura pelo Mediterrâneo. Enquanto isso, a civilização maia florescia no México e na América Central, também com seus ideogramas como forma de expressão escrita.

Como os fenícios precisavam de um sistema simples de escrita para suas atividades, transformaram os ideogramas egípcios e sumérios em símbolos simplificados. Era um alfabeto consonantal (sem a representação de vogais) que, aparentemente, originou as escritas aramaica e hebraica. E foi a fonte usada pelos gregos, em 750 a.C., para criar o alfabeto fonético ocidental, o verdadeiro, com sinais para consoantes e vogais. Em seguida, os romanos o adaptaram para o latim.

Há autores que consideram a transição da escrita ideográfica para a escrita fonética uma das maiores realizações da humanidade. Basta lembrar que na escrita ideográfica os muitíssimos símbolos correspondem a objetos, a coisas, e na escrita fonética, a sons, com possibilidades infinitas; na escrita ideográfica, era preciso criar cada vez mais sinais para corresponder ao número crescente de novidades, enquanto a fonética atende com precisão e permanentemente às exigências do pensamento em evolução – passo fundamental para o progresso do homem.


Arte –

Não importa se em ideogramas egípcios, sumérios ou chineses, a escrita sempre se revelou uma forma de expressão artística. Em geral, dominada por poucos. Basta ver a simetria e a harmonia com que foram lavrados os signos. Depois, mesmo em base alfabética, continuou sendo cultivada como uma espécie de arte. Para os muçulmanos, a escrita continua sendo a mais elevada forma de arte e expressão religiosa.

A religião, aliás, foi uma das impulsionadoras do desenvolvimento da caligrafia, que floresceu na Idade Média, principalmente no mundo ocidental. Nesse período, produziram-se magníficos textos caligráficos: a caligrafia era uma das atividades mais intensas nos escritórios e bibliotecas dos mosteiros, que reuniam copistas em trabalho incessante. Primeiro em papiro, depois, em papel.

Inventado pelos chineses em 105 da era cristã, o papel só se difundiu na Europa no século XII. E a pena metálica foi criada no começo do século XIX, para desgosto dos escribas conservadores. Eles adoravam escrever com pena de aves, geralmente de pato, apontada ao gosto do artista. E haviam imperado na área cultural durante cerca de quinze séculos.

A caligrafia era muito cultivada em mosteiros e universidades por ilustres copistas, que reproduziam os livros. O fato é que reinou absoluta, manipulada pelos detentores da cultura até a invenção da impressão por tipos móveis, por Johannes Gutenberg (1397-1468). Embora a impressão fosse conhecida na China desde o século XI, a criação de Gutemberg se valia dos caracteres móveis, matrizes de metal para moldar os tipos e prensa semelhante à utilizada na produção de vinho.

No entanto, a suma importância da caligrafia, que cresceu do Império Romano até a Idade Média, manteve-se além da invenção da imprensa. A cópia manuscrita foi sendo lentamente substituída pelos livros impressos, mas continuou cultivada com grande interesse. Os rabiscos remanescentes são da rocha bruta. Depois, já com esmero, foram feitos na pedra tratada, às vezes polida. Mais tarde em placas de argila, osso, marfim, papiro, pergaminho e, por fim, no papel. Essas são as bases fundamentais em que se desenvolveu a escrita, e, portanto, a caligrafia. E os instrumentos usados na gravação e na escrita? Lascas de pedra, ponteiras metálicas, cálamo, penas de aves e penas metálicas. Por fim, já existem computadores que operam por comando de voz. E haverá os que operam com a força do pensamento. Uma pena para a arte da caligrafia.





Reportagem: Josué Machado





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