Da teoria à prática

Como pode um curso teórico fazer de um historiador um professor do ensino básico?

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Às vésperas de iniciar uma nova turma do curso de licenciatura – e depois de mais de 20 anos de experiência na formação de professores – deparo-me, uma vez mais, com uma antiga perplexidade: como pode um curso teórico coo­perar para fazer de um historiador ou de um geógrafo um professor do ensino básico? Que estudos acadêmicos seriam necessários ou desejáveis para operar essa transformação?

Não é raro que o complexo problema das relações entre teoria e prática no campo educacional seja simplificado numa afirmação geral, como a que assevera seu suposto caráter “dialético”. Tudo se passa como se, ao atribuir um adjetivo à relação, sua substância se desvelasse. Mas, em verdade, o que dela sabemos ao afirmar seu caráter dialético? Como em tantas outras perplexidades, o recurso a uma expressão canonizada pode ter um efeito deletério: enfeitiçar o intelecto deixando intacta a problematicidade da questão.

Seria um engano, contudo, crer que se trata de um problema confinado ao campo dos estudos e das práticas educativas. Tomemos o exemplo de um médico cirurgião. É evidente que esperamos que ele possua um conjunto de conhecimentos teóricos e gerais. Não obstante, é igualmente óbvio que a destreza e a perícia da mão de um cirurgião não decorrem diretamente das verdades anatômicas e fisiológicas que ele detém em sua memória. A excelência de sua prática cirúrgica não se resume a um saber proposicional; a um conjunto de enunciados teóricos. O mesmo se passa em relação a um professor, como atesta a evidente lacuna entre o conhecimento que ele pode deter acerca de teorias didáticas, psicológicas ou sociológicas e seu desempenho.

Reconhecer essa lacuna não implica, contudo, desprezar o papel da teoria na formação de um professor. Mas pode nos alertar contra a simplificação de um problema extremamente complexo, que não comporta respostas únicas nem definitivas. Embora não tenham produzido certezas, as duas décadas de experiências no campo me sugerem ao menos uma aposta: a de que um bom caminho é a busca pela compreensão do sentido do trabalho docente na sociedade contemporânea. Note-se, não falo em “função” da escola ou do professor, mas em sentido ou significado da ação de educar por meio do ensino.

Tomemos um novo exemplo. É claro que a obra de um artista não é a mera aplicação prática de suas teorias estéticas. Mas é igualmente óbvio que a forma pela qual ele pensa o sentido da arte e o significado pessoal e social de seu trabalho tem uma influência direta naquilo que produz. Nesse sentido, de seus eventuais estudos teóricos, um artista não retira simplesmente procedimentos instrumentais, mas uma visão de arte que se reifica em sua obra. Analogamente, o significado que um professor atribui à experiência escolar, ao papel de um docente na formação de seus alunos, à contribuição que sua área de conhecimento pode oferecer para a compreensão do mundo em que vivemos se materializa em seus gestos, suas escolhas, seus procedimentos. Não como se estes fossem a mera aplicação prática de certos preceitos teóricos, mas como princípios que inspiram ações únicas. Princípios que podem – e devem – ser objeto de exame teórico na formação de professores.

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