Da sala de aula para o mundo

Ao contrário de outros países que competem conosco no mercado internacional, como China e Índia, o Brasil ainda não elegeu o inglês como disciplina estratégica para o desenvolvimento

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Nos últimos 10 anos, o crescimento médio anual do PIB da China foi de 7,7%, segundo dados oficiais divulgados pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI). Já o crescimento médio do PIB brasileiro no mesmo período foi de 2,2%, segundo o IBGE. No ano passado, a economia chinesa cresceu 10,7% – melhor desempenho do país em 11 anos. Especialistas econômicos apontam que até 2050 será a maior economia do mundo. Atento a esse cenário, o governo chinês despertou para a necessidade de investir pesado no idioma mais usado por quem lida com negócios: o inglês.

Recentemente, o professor Zhang Lianzhong, do Ministério de Educação chinês, proferiu uma palestra em São Paulo e, durante o evento, revelou que, de um total de 224 milhões de alunos chineses, do ensino fundamental ao superior, 200 milhões estudam inglês. Por trás dos números, o investimento: o governo chinês destina US$ 60 bilhões por ano para melhorar e universalizar o ensino da disciplina. "Temos de fazer um trabalho impossível", afirma Lianzhong. O trabalho envolve treinamento e capacitação de 800 mil professores de ensino médio, contratação de 800 professores nativos da Inglaterra, confecção de materiais didáticos específicos para cada faixa etária, plataformas de ensino on-line e outras ações. Como mais de 60% dos alunos que estudam inglês moram em cidades, a meta do governo é fazer com que se ensine o idioma também em pequenas vilas. "Precisamos de um milhão de professores de inglês para as escolas de ensino fundamental. Também temos de treinar mais de 500 mil professores do ensino médio", avalia.

Já na Índia, o crescimento do mercado de tecnologia da informação chega a 30% ao ano, dado que surpreende até os EUA, maior potência no setor. Segundo C. Swaminathan, guru indiano do ensino de TI que também esteve no Brasil há pouco tempo, boa parte desse crescimento deve-se ao fato de os estudantes indianos falarem inglês. O guru defende o ensino da língua estrangeira desde o jardim-de-infância para garantir melhores oportunidades profissionais e melhores salários. Pesquisa de uma consultoria de recursos humanos realizada em 2000 mostra que o idioma pode, mesmo, garantir melhores proventos. Por exemplo, na alta direção das empresas – cargos de diretorias e presidências – a diferença salarial entre os executivos que falam fluentemente inglês e aqueles que não falam é, em média, de 52%. Diferenças significativas também aparecem entre níveis gerenciais (23%), supervisão média (44%) e profissionais especializados com curso superior (47%).


Enquanto isso, no Brasil…

A acorrida ao ensino de qualidade do inglês, no entanto, ainda não é realidade no Brasil. Entre todos os professores, pesquisadores e especialistas ouvidos pela reportagem, uma unanimidade: o nível de ensino de inglês nas escolas públicas brasileiras precisa melhorar. O primeiro fator limitante para o ensino de inglês são os vestibulares, que cobram apenas gramática e compreensão de textos em suas provas. Com isso, a maioria das escolas fica restrita ao ensino das exigências do vestibular, relegando a língua a um nível muito básico.

A professora e pesquisadora da PUC/SP Maria Antonieta Celani é uma das maiores especialistas em ensino de inglês no Brasil. É co-autora, com Luiz Paulo da Moita Lopes, da UFRJ, dos Parâmetros Curriculares Nacionais para Língua Estrangeira (PCN-LE), de 1998. No texto, há uma sugestão para a ênfase no ensino da leitura. "É a habilidade que pode ser desenvolvida sozinha, fora da escola, e a mais utilizada na vida acadêmica. Além do mais, há também uma razão decorrente da realidade da grande maioria de escolas públicas: falta de professores capacitados e falta de recursos didáticos", diz Celani.


Para a professora Milena Moreira da Silva, é difícil ensinar uma língua estrangeira em esquemas rígidos: "os alunos se soltam mais com alterações no cenário e incentivos"

Mesmo sendo co-autora do PCN-LE, a professora tem uma postura crítica sobre o assunto. "O Brasil não tem uma política pública para o ensino de línguas estrangeiras. Nem as exigências do mundo contemporâneo fizeram o país acordar para a necessidade de se garantir um ensino de inglês que fosse uma base para desenvolvimentos posteriores de acordo com as necessidades de cada um."

João Telles, professor e pesquisador da Unesp de Assis, interior paulista, afirma que os problemas no ensino de inglês não são exclusivos do Brasil ou de outros países em desenvolvimento. "A escola pública francesa, por exemplo, também não está ensinando bem. Os franceses reclamam que seus alunos não falam inglês. Mesmo vizinhos como Chile e Argentina enfrentam dificuldades semelhantes", aponta.

No Chile, a presidente Michelle Bachelet anunciou no início de seu governo, em 2006, que pretendia investir no ensino público de inglês. O objetivo é ousado: tornar o Chile um país bilíngüe desde o primeiro ano escolar. O programa federal "El inglés abre sus puertas" (O inglês abre suas portas) já está em prática. Com diferentes ações,  investe em formação de professores, intercâmbios de docentes e alunos, plataformas pedagógicas on-line, contratação de mestres estrangeiros e atualização de material didático, entre outras medidas. A Argentina, apesar de ter um bom ensino público, também enfrenta problemas com o inglês. As escolas não conseguem manter um nível de ensino compatível com as expectativas. A professora Marcela Constantino, de Malabrigo, cidade da província de Santa Fé, leciona há 17 anos em escolas públicas e particulares. Para ela, diferentes motivos concorrem para enfraquecer o ensino da língua. Entre eles, destaca a grande quantidade de alunos nas salas de aula, a precariedade ou ausência de materiais didáticos e a baixa carga horária. "Os alunos de escolas particulares, geralmente, têm contato com o inglês por outros meios, como internet, TV a cabo, cinema e programas de intercâmbio. Além disso, muitas escolas particulares argentinas têm estreitas ligações com a cultura anglo-saxã dando muito valor ao ensino da língua estrangeira", explica.


Melhorar é possível

Blumenau, em Santa Catarina, é famosa por ter sido colonizada por alemães. A cidade mantém há seis anos o Projeto Plures que ensina alemão e inglês para crianças da 3ª até a 8ª série. Antigamente, os alunos só teriam a primeira aula de inglês na 5ª série, mas o projeto complementa as aulas normais e aumenta significativamente a carga horária do ensino da língua.

Atualmente, 14 das 50 escolas municipais de Blumenau têm aulas de inglês desde a 3ª série. As aulas acontecem uma, duas ou até três vezes por semana, dependendo da grade curricular dos alunos. Para a coordenadora de língua inglesa da Secretaria Municipal de Educação, Simone Carla de Souza, ensinar inglês para as crianças é mais fácil do que para adolescentes. "Quanto mais cedo uma criança começa a aprender um segundo idioma, melhor é", diz ela.

A intenção de Simone era oferecer o aprendizado de inglês desde a 1ª série, mas ainda não é possível. Faltam professores especialistas para trabalhar com crianças ainda mais jovens e espaço na grade curricular. Geralmente, os docentes de língua inglesa não possuem a formação de magistério, portanto não têm o traquejo e nem a prática de lidar com os pequenos. Mas, com o tempo, os professores de Blumenau foram encontrando a medida certa.

"É preciso ter uma didática diferenciada, trabalhar muito o lado lúdico, com músicas e outros estímulos", completa Simone. As aulas enfocam as quatro habilidades (compreensão, fala, leitura e escrita), mas a coordenadora admite que o aluno acaba desenvolvendo melhor a escrita e a leitura por uma questão de falta de prática: diferentemente do alemão, muito falado em Blumenau, as crianças não praticam o inglês em casa.

Os resultados do Projeto Plures são satisfatórios e a intenção é que se estenda a todas as escolas da rede municipal. As crianças se interessam e respondem muito bem às aulas de inglês, desenvolvem uma base de conhecimentos sólida para o futuro. Simone comemora: "encontro ex-alunos que já estão no ensino médio e vejo que todos eles se saem muito bem com inglês. Alguns conseguem se virar no mercado de trabalho com o inglês aprendido na escola".


Aprendizado dramático


Aula de inglês em escola de Blumenau, Santa Catarina: aulas de inglês a partir do Fundamental 1

Quando chegou à Escola Estadual Dr. Alberto Cardoso de Mello Neto, há três anos, a professora Milena Moreira da Silva encontrou exatamente o que estava esperando: salas de aulas absolutamente normais, lousa, giz e muitos alunos desmotivados. Localizada no Jardim Leonor Mendes de Barros, bairro de classe média da zona norte de São Paulo, a escola de ensino fundamental e médio tem cerca de 2.300 alunos. Ao longo dos seus 36 anos de existência, tornou-se uma das escolas públicas mais populares da região norte da capital paulista.

Procurando aprimorar e dinamizar o ensino de inglês, Milena precisou "fugir do padrão sala, lousa e giz". Ela acredita ser difícil ensinar a língua estrangeira no rígido esquema centenário das nossas salas de aula. "Os alunos se soltam mais com alterações no cenário e algum incentivo. O atual ambiente da classe favorece a timidez", diz. Hoje, as aulas tornaram-se mais prazerosas e dinâmicas. Milena começa com brincadeiras para aquecer a turma – uma sessão de "warm up", como diz. As brincadeiras envolvem as quatro habilidades e ajudam a estimular os alunos.

Passado o aquecimento, a professora trabalha com música, teatro e jogos educativos. O teatro, por meio da dramatização de pequenos esquetes, parece ser a melhor ferramenta encontrada para incentivar a prática oral da língua inglesa. Os adolescentes encenam em sala de aula algumas situa­ções indicadas por Milena, ou mesmo sugeridas pelos próprios alunos. Não há limites e as cenas aparentemente soltas e desconexas podem terminar em uma pequena história, geralmente bem-humorada.

Milena se preocupa também em trazer para dentro da sala de aula temas externos, como meio ambiente, esportes e cidadania.

"Assim, os alunos vão formando um vocabulário sobre o tema e, quanto mais familiar for o assunto, melhor é para que aprendam noções de gramática ou tempos verbais", relata a professora. Milena notou que até os alunos mais tímidos, com o tempo, acabam se soltando e participam das brincadeiras e dramatizações. Com sua metodologia de ensino criativa, a professora atingiu inclusive os "alunos- problema" da escola. "Temos um aluno, muito indisciplinado, repetente, que hoje pede para assistir às minhas aulas. Ele participa muito e se envolve com a disciplina e com seus colegas." E, melhor do que tudo, está falando inglês.




Investir nos professores para melhorar os alunos

Um dos maiores especialistas no ensino de inglês no Brasil, o professor Hilário Bohn, aposentado pela UFSC, ainda atua na Universidade Católica de Pelotas e na Universidade Regional de Blumenau. Estudioso do assunto desde 1966, autor de diversos livros e artigos, Hilário fez mestrado e doutorado nos EUA, ambos sobre o tema. Para ele, investir na formação e aprimoramento de professores é o caminho para o país melhorar o nível de aprendizagem na disciplina. Ações nesse sentido são sempre as primeiras indicadas por outros especialistas e profissionais. "Um encontro nacional de professores de inglês realizado recentemente em Belo Horizonte reuniu mais de 600 professores discutindo formas de melhorar a formação. Mas é difícil discutir políticas sem o apoio da comunidade e das autoridades educacionais. Esse diálogo entre professores, comunidade e governo é um trabalho político que ainda não conseguimos realizar", admite Hilário.

Em São Paulo, uma parceria entre a Cultura Inglesa, a PUC e a Secretaria Estadual de Educação vem gerando bons resultados na reciclagem e aprimoramento dos professores de inglês da rede pública. O Programa de Formação Contínua de Professores de Inglês existe desde 1995 e já atendeu mais de 5.400 docentes. Os interessados fazem uma prova para avaliar em qual nível se encaixam. Depois, partem para as aulas de aprimoramento, que podem durar de um a seis semestres. O programa atende em média 400 professores por semestre e as aulas acontecem em unidades da Cultura Inglesa, em classes criadas para esse propósito.

Maria Antonieta Celani, coordenadora do programa, constatou que nos últimos semestres cada vez mais professores estão sendo dispensados da primeira parte de aprimoramento lingüístico. "É um dado extra-oficial, mas mostra que o nível de inglês dos docentes está melhorando com o tempo."

Após essa fase de aperfeiçoamento, os professores estão aptos a participar da segunda parte do programa, que acontece na PUC. Ali, fazem três semestres do curso "Reflexão sobre a ação – Professor de inglês aprendendo e ensinando". É um curso reflexivo, para o professor pensar na sua prática e no contexto que encontra em sala de aula. No último semestre, os professores recebem ajuda para preparar materiais didáticos específicos para suas escolas. Com isso,  descobrem  opções e limitações de unidades e  turmas e direcionam suas aulas com maior precisão.

A parte final do Programa é composta por oficinas mensais, que contam com cerca de 120 participantes por edição. A idéia é estimular os professores a trocar experiências positivas e negativas. Há também análise de materiais didáticos e discussão de conteúdos.

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