Da rua para a escola

Diante da onda de protestos por todo o país, escolas tentam responder as dúvidas dos alunos e levam a discussão política para as salas de aula

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Durante o mês de junho, os corredores de diferentes escolas foram dominados pelas conversas sobre as manifestações que tomaram conta do Brasil. A discussão política, na maioria das vezes à margem do currículo da Educação Básica e distante das salas de aula, mostrou-se imprescindível já que os próprios estudantes passaram a demandar dos professores uma reflexão sobre os últimos acontecimentos. 


Do protesto inicial pela redução do preço da passagem do transporte público, passando pela discussão sobre o sistema de representatividade brasileiro, às considerações sobre o futuro das manifestações e suas consequências, os jovens, muitos dos quais têm papel ativo nas ruas, suscitaram em suas escolas a necessidade de criar uma agenda para o debate, aproximando, ainda que tardiamente, a educação da vida política.


No Colégio São Judas Tadeu, em São Paulo, tornaram-se uma rotina diária nas aulas de história e sociologia discussões como essa. “Neste momento histórico, no qual a população brasileira vem mostrar a importância da união das diferentes classes sociais pela conquista de uma sociedade verdadeiramente democrática e responsável no atendimento das necessidades da população, novas discussões são constantes e o próprio aluno já cobra uma posição do professor e da escola”, afirma a professora de história e sociologia Mônica Broti. Além de escreverem voluntariamente artigos sobre o tema, os alunos foram incentivados a comparar notícias dos principais veículos de comunicação para identificar as diferentes opiniões presentes na mídia.


O Colégio Equipe, também na capital paulista, realizou atividade semelhante e organizou, junto com o grêmio estudantil, um painel que está sendo alimentado com reportagens incluindo leituras diferentes sobre as manifestações.  Além disso, foi realizado um debate para o encerramento das aulas com um dos representantes do Movimento Passe Livre (MPL) e a comunidade escolar.


Luciana Fevorini, diretora da escola, destaca que uma das discussões que têm envolvido mais os alunos é o que seria essa forma de participação apartidária, defendida por muitos dos que foram às ruas e causa até mesmo de conflitos entre os manifestantes.  “Nossos alunos estão muito interessados no debate público e querem saber a posição da escola. Não existe objetividade total na educação, mas tentamos não fazer um discurso ideológico. O que queremos é criar ferramentas para que eles tenham capacidade de fazer suas próprias análises. Um debate tem fundamentos dos dois lados”, avalia.


Diante das notícias de alguns atos de vandalismo durante as manifestações, como lojas saqueadas e agressões a equipes de emissoras de televisão, a professora de língua portuguesa Jussara de Macedo, da Escola Estadual Ascendino Reis, aproveitou os acontecimentos para discutir com seus alunos diferentes formas de protesto.  A partir do conteúdo sobre a Semana de Arte Moderna, que aconteceu em São Paulo, em 1922, a professora ressaltou que novas linguagens, como o poema declamado, também eram uma maneira de protestar contra a narrativa cultural brasileira de então e propor novas ideias e conceitos artísticos.


Já a professora de sociologia Marília Moschkovich usou teorias já apresentadas em sala de aula para contextualizar o momento político aos seus alunos do ensino médio.  Começando pelo conceito de Estado, passando pela ideia de dominação tradicional de Max Weber para chegar à discussão sobre a repressão policial, Marília teve de fazer uma pausa no conteúdo previsto para conseguir aprofundar a discussão. “Por minha conta e risco, eu expliquei que estávamos diante de uma discussão política importante e o que eles aprendiam em sociologia precisava ser aplicado naquele contexto. Eu seria uma professora muito irresponsável se simplesmente ignorasse tudo o que está acontecendo para dar um monte de conteúdo que não ia ajudar grande coisa”, afirma.


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