Da ‘Casa dei Bambini’ aos Cieps

Criado em 1907, método nascido na Itália ganha espaço até mesmo em escolas públicas da periferia das grandes cidades brasileiras

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Há quatro anos, as crianças do Ciep São Gonçalo, no Rio de Janeiro, passaram por uma transformação. Antes agitados e pouco concentrados, os pequenos tornaram-se mais calmos e silenciosos, e começaram a absorver os conteúdos ensinados pelos professores com mais tranqüilidade. O relato é da supervisora e organizadora de trabalhos no Ciep, Talita de Almeida, que introduziu a metodologia montessoriana em sua escola, o que provocou mudanças significativas no cenário do colégio. A experiência do Ciep revela que a idéia de que o sistema montessoriano só pode ser aplicado em escolas seletas, que assumam o alto custo do material, não é válida. Pelo contrário. No ano em que a fundação da primeira “Casa dei Bambini” comemora cem anos, a pedagogia montessoriana se mostra cada vez mais acessível às escolas.

De acordo com a Organização Montessori do Brasil (OMB), existem hoje 47 escolas conveniadas com o sistema montessori no país. Talita contesta esses números: segundo a supervisora, podemos encontrar mais de cem escolas montessorianas Brasil afora, que atendem aproximadamente 10 mil alunos, do berçário ao ensino médio. Um dos aspectos que favoreceram os bons resultados do Ciep São Gonçalo foi a convivência de crianças mais novas com as mais velhas.

“Os alunos aprendem juntos. A criança de cinco anos, por exemplo, aprende com a de seis. O pequeno aprende com o maior e o maior aprende a ter paciência com o menor. E daí surgem conceitos como cooperação e respeito mútuo”, explica. No início, segundo a supervisora, o interesse das crianças em relação ao método estava vinculado à novidade que apareceu na hora do almoço.

“Começamos a usar talheres e pratos de verdade, e não mais cumbucas de plástico. E isso foi o máximo da dignidade para eles”, afirma. No primeiro ano de programa, não foi possível alfabetizar as crianças, mas elas já se aproximaram das palavras e frases e se interessaram pelo vocabulário. “No segundo grupo, já conseguimos que as crianças les­sem e escrevessem”, diz. Ho­­je, o Ciep conta com quatro salas montessorianas, todas montadas com material de matemática, linguagem sensorial e vida prática. Para conseguir a estrutura, o Ciep contou com a doação de material de escolas particulares.


Método

Incentivo à auto-educação, valorização dos períodos sensíveis de desenvolvimento da criança e estímulo à liberdade, autonomia, respeito e responsabilidade. Esses são alguns dos elementos pedagógicos utilizados no sistema Montessori. A especialista no sistema Montessori de educação e diretora Pedagógica da Prima Escola Montessoriana de São Paulo, Edimara de Lima, explica que o sistema Montessori possui três princípios básicos: educação para pais; visão cósmica do mundo, que engloba a consciência da preservação do planeta, por exemplo; e a educação para autonomia do aluno. Para Edimara, um fator importante e polêmico no método é o fim da barreira da seriação. O sistema montessoriano não divide os alunos em séries de acordo com a idade, mas por ciclos de aprendizado. As salas são chamadas de agrupamentos. No ensino fundamental, por exemplo, há dois agrupamentos: o primeiro engloba estudantes de um a três anos; o outro, de três a seis. “Assim, as crianças têm mais opções. Elas não têm de fazer as mesmas coisas ao mesmo tempo, como no método tradicional. São várias atividades ao mesmo tempo, com o professor atuando como mediador e orientador”, diz.

Outro princípio do sistema é provocar autonomia e independência nas crianças. Os alunos de oito e nove anos da Prima Escola se reúnem em assembléias para resolver problemas como a relação com outros alunos, dificuldades do cotidiano ou elaboração de grandes projetos. “Todos têm de assumir responsabilidades. Na medida em que aprendem de forma coletiva, a punição é diferente da exclusão, criando uma educação pacífica”, afirma.  Já na educação infantil, a proposta é promover o desenvolvimento motor com as aulas de vida prática. Para isso, os professores envolvem os alunos em atividades corriqueiras, que geralmente são feitas por adultos, como lavar pratos, dobrar a blusa e limpar os tênis.

No método Montessori as aulas não são expositivas e a classe não é disposta com mesas e cadeiras enfileiradas. A sala de aula montessoriana é um ambiente com objetos que favorecem a vivência dos alunos. Atividades com o tear são utilizadas para acalmar as crianças e criar espírito comunitário, pois cada aluno continua o trabalho que o outro não concluiu. “Além disso, instigamos o espírito social, já que os produtos feitos pelas crianças na Prima são doados”, afirmou a diretora.


Dificuldades

De acordo com a diretora administrativa da OMB, Nadia Sotero da Costa, o sistema Montessori teve, ao longo dos anos, dificuldades em se afirmar como uma escola que garantisse o sucesso acadêmico. “Mesmo diante do irretocável trabalho com as classes agrupadas, do respeito à aprendizagem de cada um dos alunos, do conteúdo muito maior, além dos significativos resultados, convivemos por muito tempo com os rótulos de ‘muito livres’ e de ‘escola para poucos’. Talvez isso tenha acontecido porque era mesmo difícil entender como fazíamos o que fazíamos”, diz.


“As crianças não têm de fazer as mesmas coisas ao mesmo tempo. São várias atividades, com o professor atuando como mediador e orientador”, fala Edimara de Lima sobre o método montessoriano

Hoje, com a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) 9.394/96, que permite o agrupamento vertical de crianças em ciclos de idade (de até três anos de idade, de três a cinco, de seis a nove, de dez a doze e de treze a quinze), o sistema vive a contramão desse processo. “As escolas montessorianas são respeitadas e procuradas pelas universidades e pelas equipes das escolas públicas para que demonstrem como se realiza o trabalho”, afirmou a diretora científica da OMB, Maria de Fátima Cortez.

Entretanto, mesmo com a autorização da lei, muitas escolas ainda sofrem barreiras de algumas secretarias estaduais de Educação quanto à organização de suas turmas e de seus conteúdos. “Apesar disso, estamos muito felizes com o momento do sistema Montessori no Brasil. Realizamos cursos de formação em vários Estados, palestras, seminários e congressos que contam com 600 participantes e vários expositores”, conta.

Para Magali Lima Moraes, coordenadora pedagógica das séries iniciais do ensino fundamental do Colégio Província de São Pedro e mestranda com dissertação sobre a vida e a obra de Maria Montessori, mesmo atuando há 26 anos com o sistema, ela ainda se espanta com resultados e novas descobertas do método. “Para Maria Montessori, educação é muito mais do que o acúmulo de informações ou conhecimentos acadêmicos: significa autoria e conquista. Isso mostra que a matéria-prima do desenvolvimento da criança está dentro dela mesma, basta ser estimulada a descobrir seu potencial”, conclui.



A primeira italiana a se graduar em medicina

Italiana de família modesta, Maria Montessori nasceu na cidade de Chiaravalle, em 1870. Além de ter sido a primeira mulher na Itália a se graduar em medicina, foi também pioneira nas pesquisas sobre o desenvolvimento da criança. O método montessoriano foi resultado da contestação de Maria Montessori aos modelos tradicionais, em meio às idéias da Escola Nova – que surgiu no final do século 19, com as transformações e crises sociais, políticas e econômicas por que o mundo passava. “Neste ideário escolanovista, Montessori buscou responder às novas necessidades de uma educação inspirada na natureza e no desenvolvimento da criança em suas fases evolutivas”, diz a educadora Magali Lima Moraes.

O sistema Montessori chegou ao Brasil em 1910. Fez sua primeira escala no Paraná, introduzido pela educadora Joana Falce Scalco na escola Emilia Ericken, de onde se irradiou para outras escolas do Estado. Em 1914, o go­verno do Estado do Paraná adquiriu na Itália material montessoriano para escolas de educação infantil. A partir de 1924, o método alcança São Paulo e outros Estados do país. Em 1959, aconteceu o primeiro curso de especialização para professores, no Colégio Nossa Senhora de Sion, também em São Paulo.

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