Cultura jovem é vista com maus olhos pela escola, diz pesquisadora

Especialista em questões da juventude e violência, Abramovay afirma que escola precisa se empenhar em entender a cultura juvenil

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Jovens gostam da escola e querem estar nela, diz Abramovay | © Divulgação

Jovens gostam da escola e querem estar nela, diz Abramovay | © Divulgação

O movimento de ocupa­ção de escolas, que atingiu centenas delas Brasil afora nos últimos meses, já deveria ser esperado em razão da notória falta de diálogo entre o mundo adulto e os jovens e a cultura juvenil. É o que diz a pesquisadora e socióloga Miriam Abramovay, mestre e doutoranda em educação, atual coordenadora da área de juventude e políticas públicas da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e ex-consultora do Banco Mundial e do Unicef.
Para Miriam, a falta de diálogo tem levado a radicalizações também entre os jovens, sem que haja ação pública consistente para a melhoria do clima escolar – seja no incentivo a pesquisas sobre o tema como em intervenções diretas para melhorá-lo. Para a pesquisadora, isso significaria agir sobre três fatores: o modo como se formulam as regras de convívio na escola, a infraestrutura e as relações sociais no universo escolar.

O que o movimento das ocupações está sinalizando?

A escola – e isso todo mundo fala há muito tempo – não está feita para os jovens e não está feita com os jovens, principalmente. Temos visto em nossas pesquisas um grande desencanto com a escola, pois ela tem muito pouca relação com a cultura juvenil. Desde como são vistos os jovens, o modo como se vestem, seus signos – o piercing, as tatuagens, o boné, as saias. Ou seja, tudo que é “ser jovem” é visto com maus olhos pela escola. E não só pela escola, pois vivemos numa sociedade muito adultocêntrica, centrada no que pensa, faz e quer o adulto. A escola reflete e reproduz isso, mas também produz essa situação. Poderia haver um clima escolar muito melhor se a escola discutisse com os jovens o que eles pensam e querem. Mas querendo a escola ou não, ela está sendo mudada por eles, com suas mochilas, a forma de entrar, falar, se expressar. Por mais que a escola não queira essas mudanças, ela tem de mudar. As ocupações são reflexo disso. Na pesquisa que terminamos no ano passado pela Flacso [“Juventudes na escola, sentidos e buscas: por que frequentam?”, 2015], os jovens diziam que a escola tinha uma visão errada sobre eles, pois eles não gostavam dessa escola, mas gostavam da escola, queriam estar lá, acham importante estar numa escola.

E diziam o que mais?

Outra coisa importantíssima é que se eles têm o professor que sabe ensinar e os trata bem, não vão embora da escola. A pesquisa é sobre isso, porque eles permanecem, não porque eles saem. Outra coisa que falavam é que não tinham participação nas escolas, o que é verdade, pois não são escutados. São jovens, gregários, conversam sobre o que está acontecendo no país e sobre a situação nas escolas. É evidente que só poderíamos esperar que as ocupações sinalizassem que querem uma grande mudança nas escolas, mas que essa mudança precisa ser discutida com eles. Isso para não cairmos no de sempre, ou seja, os adultos, sem escutá-los, decidirem como tem de ser a escola. Não que os adultos não tenham de decidir, mas eles querem ser consultados num processo democrático. As ocupações não só são justas, como eram também muito esperadas.

A cultura é adultocêntrica, mas os adultos estão ocupando o lugar que lhes cabe na formação dos jovens? A cultura juvenil não é bastante valorizada socialmente?
Ela é muito valorizada de um lado, pois ao mesmo tempo que temos uma cultura adultocêntrica, temos uma cultura de admiração por tudo aquilo que é ser jovem. Pela forma de ser, de existir. A sociedade copia os jovens. Mas a escola ainda resiste, e muito.

Mas hoje há uma grande dificuldade em se tornar adulto, não?

Existe, sim, pois tornar-se adulto é muito mais difícil do que há 30 ou 40 anos, houve uma mudança grande na sociedade. Os jovens estudam agora muito mais tempo do que estudavam antes, permanecem nas escolas. Também permanecem na casa dos pais, seja porque estudam mais ou por entrar no mercado de trabalho e casar um pouco ou muito mais tarde. Claro que isso não acontece com todos. Mas existe uma dificuldade grande de dialogar com aquilo que a escola pensa e espera. E isso existe na família também. Uma dificuldade enorme de dialogar, de entender, de seguir todas essas mudanças, que historicamente foram muito rápidas. Se pensarmos em como eram a sociedade e a família 30 anos atrás e como são hoje, está tudo completamente diferente. As relações de gênero, idem. E o que é ser jovem também. A escola tem muita dificuldade de aceitar essas mudanças, talvez mais do que outras instituições sociais ou privadas. Muitas vezes tem uma linguagem ou uma forma de pensar de ontem frente ao que há hoje. E tem muita dificuldade de aceitar que a autoridade hoje é diferente. Por outro lado – e nessas ocupações a gente vê isso –, chega um ponto em que os jovens têm dificuldade em aceitar o diálogo intergeracional. Quando isso acontece, fica muito difícil, pois muitas vezes eles não têm a experiência para comandar sozinhos, sem que o adulto dialogue com eles. Esse diálogo intergeracional é importantíssimo para adultos, e jovens, mas muitas vezes não acontece.

E de que modo podemos furar essa barreira?

Com muito diálogo e mudança de mentalidade. Eles têm de ter mais condescendência para aceitar esse diálogo, pois muitas vezes radicalizam, o que faz parte do que é ser jovem. E os adultos têm de entender melhor o que é ser jovem hoje no Brasil, o que é ter essa idade, estar no ensino médio, com reformas impostas de cima para baixo, sem escutá-los, como está sendo o caso. A [filósofa americana] Martha Nussbaum fala de uma forma muito contundente sobre a importância da arte, da música, da filosofia, da sociologia na escola [sobre isso, ver Sem fins lucrativos – Por que a democracia precisa das humanidades, WMF Martins Fontes]. Conta a história de um papagaio, pego por um rajá indiano que queria fazer uma experiência com ele. Colocou-o em uma gaiola de ouro, contratou os melhores professores, a melhor equipe para fazer novos livros didáticos para o papagaio. E o papagaio foi aprendendo, aprendendo. Até que chegou um dia e o animal estava morto. Quando o homem mexeu no papagaio, a barriga estava cheia de papel. Dá medo que seja isso que estamos tentando fazer com nossos alunos ao deixar que coisas importantes como a arte, a filosofia, a música sejam apenas uma opção, pois tudo isso também é vida. Quando viram só opção, se está dizendo que não são tão importantes como as outras.

A sociedade não está pensando a escola de forma muito ensimesmada, sem relação com outras instituições?

Ela efetivamente não tem. Fala-se isso há anos, que tem de ser articulada, que tem de ir de dentro para fora, que tem de conhecer a comunidade. Estamos fazendo um trabalho grande sobre as escolas, cuja primeira experiência foi no ano passado, em sete capitais do Brasil. Queríamos mostrar que, participando, os jovens teriam outra relação com a escola. Colocamos os jovens para serem pesquisadores da sua própria realidade. Foi uma experiência que deu muito certo, mas infelizmente não seguiu adiante porque tudo mudou no MEC, parceiro da Flacso, mas ainda estamos tentando dar continuidade. Em 2016, estamos trabalhando com o Banco Inter­americano (BID) em duas capitais, Porto Alegre e Fortaleza. Estamos fazendo a mesma coisa, só que com mais tempo. Na pesquisa anterior, foram apenas 8 meses. Agora, temos um ano para trabalhar com os jovens e só em cinco escolas. No ano passado foram muitas.

E o que têm visto?

É como se fossem duas coisas separadas, a escola e a comunidade, sem relação nenhuma. Eles não saem da escola para nada, como também a comunidade não os conhece, não há nenhum tipo de interação. Sem falar das outras instituições sociais existentes na própria comunidade. Então, a escola é ensimesmada mesmo. Agora, não esqueça que os muros da escola não são só simbólicos. São reais, para que ninguém entre. O problema família-escola é grande no Brasil. A escola é feita para que ninguém entre nela, não vá lá reclamar.

O que chama atenção no olhar dos jovens sobre a escola?

O que eles dizem tem a ver com a formação de professores, que não têm dado conta do que é a juventude, então a formação docente tem de ser diferente para que a escola melhore. Também tem a ver com a questão do diá­logo, envolvendo aí professores, diretores, funcionários, para que comecem a ter uma visão diferente do que é a juventude, menos burocrática. E eles querem que os professores estejam preparados. Querem aprender, a maior parte tem o sonho de entrar na universidade. E, sobretudo, querem participar. Foi interessante eles pesquisarem a própria rea­lidade e nos dizerem o que estava acontecendo nas escolas e o que queriam que mudasse. Mencionaram a questão da participação, das relações com os professores,da infraestrutura, da qual reclamam muito. Há escolas sem água, banheiros sem papel higiênico, carteiras de tamanho inadequado, em que eles mal podem sentar-se.

Quando falam dos professores, o que apontam como mais crítico?

Dizem “queremos professores que conheçam a matéria, que saibam ensinar e conversar conosco, que não faltem”. Muitas vezes, em entrevistas com professores, você ouve que os alunos querem uma pessoa que cuide deles. Não é isso. Nessa pesquisa, fazíamos a pergunta “de que matéria você gosta mais?”. Achávamos que iriam responder que era a matéria mais fácil. De jeito nenhum. Mencionaram uma ampla gama de matérias. E disseram que o que gostam depende muito do professor. Sem querer jogar culpa nos docentes, isso tem de ser revisto, caso contrário daqui a 50 anos estaremos chorando e falando as mesmas coisas.

Você estuda a violência no ambiente escolar desde 2001. De lá para cá, ela mudou muito?
Está provado por muitos autores que quando você tem um clima escolar muito ruim, a escola não pode funcionar. Não temos no Brasil, como se faz nos Estados e na Europa, um acompanhamento longitudinal. Há uma pesquisa da Unesco que fizemos em 2001/2002, depois uma outra em 2006 e algumas outras. Mas são pesquisas com metodologias diferentes. E aí veio a moda do bullying, o que atrapalhou muito, pois bullying é violência. Não temos como comprovar cientificamente que piorou. Mas era muito ruim e continua sendo. Há muita violência dos mais diversos tipos. É um tema para o qual não há política pública, sobre o qual não se pensou nenhuma forma de acompanhamento e melhoria do clima escolar. E as experiências também morrem, como essa do MEC. Nos estados e municípios vamos continuar a fazer esse programa. Com a rede estadual de Minas Gerais, vamos fazer um curso on-line de formação para mil professores. Com o curso, vamos trabalhar em diversas escolas de diferentes municípios. É o programa “Violência e Convivência Escolar”. Deverá ser algo bastante consistente, que esperamos que dure e que o próprio estado possa dar continuidade.

O que fazer para melhorar o clima no ambiente escolar?

O clima escolar se dá a partir das relações sociais entre aluno-aluno, aluno-professor, professor-diretor, aluno-diretor. E as relações sociais nas escolas não são boas. É claro que brigas entre jovens existem a todo momento, mas, se a escola não souber intervir na hora e da forma apropriada, isso pode se tornar muito grave. A relação professor-aluno nem sempre é tranquila. Jovens e professores reclamam muito de violência verbal e física. Outras coisas importantes são a infraestrutura das escolas e as regras, algo que nos remete à cultura escolar e à cultura juvenil. Em geral, o que são as regras escolares? No começo do ano, os pais assinam uma série de regras não consensuais. Qual o sentido de não se poder usar boné ou saia na escola? Essas três questões são importantíssimas e precisam ser redefinidas. A infraestrutura é um drama em muitas escolas; as regras poderiam ser feitas de forma diferente e as relações sociais têm de ser muito trabalhadas.

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