Crise econômica sentida na pele

Longa-metragem europeu traduz problemas políticos e econômicos para a degradação das relações pessoais no mundo do trabalho de Sandra, uma jovem belga e mãe

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Divulgação
Marion Cotillard no papel de Sandra em Dois dias, uma noite, filme dos irmãos Dardenne

 

A produção cinematográfica que se ocupa de problemas políticos e econômicos contemporâneos divide-se em várias frentes. Uma das principais se empenha em “traduzir” os efeitos concretos de cenários turbulentos sobre o cotidiano de pessoas comuns. Em vez de discursar sobre os malefícios causados por este ou aquele fato, esses filmes preferem levar o espectador à melhor compreensão de como tal fato interfere decisivamente na vida de seus protagonistas, à espera de que o público, ao se identificar com eles, faça um processo de imersão – muitas vezes, difícil e angustiante – no que representa socialmente o problema.

Especialistas nessa abordagem, os irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne vêm realizando ao longo da carreira uma espécie de inventário do “lado B” da integração europeia, preocupados em expor dramas atuais da sociedade de bem-estar que se estruturou na região mais rica do continente depois da II Guerra Mundial. Ao fazer isso, se fazem entender em todo o mundo: os grandes problemas da Europa, hoje, são comuns a dezenas de outros paí­ses. É o caso do mais recente longa-metragem da dupla, Dois dias, uma noite (Bélgica/França/Itália, 2014, 95 min), cujo pano de fundo é a crise econômica detonada pela hecatombe financeira de 2008 e agravada em seguida por outras circunstâncias.

Olhamos aqui para a degradação das relações pessoais no mundo do trabalho, em virtude do desemprego e da engrenagem competitiva que atira uns trabalhadores contra os outros. A protagonista, Sandra (Marion Cotillard), perderá o emprego porque, em votação convocada pela empresa em que trabalha, a maioria dos colegas preferiu que o salário dela fosse transformado em bônus para os outros. Se ela continuar empregada, não haverá bônus para ninguém. Sandra tem um fim de semana para convencer alguns colegas a mudar o voto e reverter a decisão. Enquanto ela vai de porta em porta, estamos o tempo todo ao seu lado. Como testemunhas de seu esforço (e eventual humilhação), compreendemos o problema que a afeta (e a tantos outros) como se fosse nosso.

Filmografia
Desde A promessa (1996), que aborda o trabalho ilegal por imigrantes clandestinos na Bélgica, os irmãos Dardenne têm realizado filmes que convidam o espectador a refletir sobre os custos humanos (e familiares) de problemas sociais, como O filho (2002), A criança (2005), O silêncio de Lorna (2008) e O garoto da bicicleta (2011).

Estrela
Os irmãos Dardenne sempre trabalharam com atores desconhecidos ou mesmo não profissionais. Quando foi apresentada a eles a hipótese de ter a francesa Marion Cotillard (Oscar de melhor atriz por Piaf, de 2007) no elenco de Dois dias, uma noite, duvidaram que ela aceitasse, mas o primeiro contato entre os três já selou a parceria – e Cotillard foi novamente indicada ao Oscar pelo papel de Sandra.

Método
Nos filmes dos irmãos Dardenne, o ponto de vista da narrativa está “grudado” no protagonista. Não saímos do seu lado e, dessa forma, só temos acesso às informações que ele recebe e às suas atitudes diante delas. Às vezes, como em O filho, o personagem se movimenta constantemente pela oficina de marcenaria em que é instrutor e obriga a câmera a segui-lo, com um resultado incomum: o que mais vemos nesses momentos é a sua nuca.


FILMOTECA

De olho no mundo que nos cerca

Dois dias, uma noite representa uma corrente do cinema engajada no debate de temas sociopolíticos. Confira outros exemplos de cineastas com preocupações equivalentes às dos irmãos Dardenne:

Neste mundo (2002)
O inglês Michael Winterbottom (diretor de A festa nunca termina, O caminho para Guantánamo e O preço da coragem) reconstitui, de forma semidocumental, a jornada de dois refugiados afegãos que tentam ir do Paquistão até a Inglaterra, entregando-se nas mãos de traficantes que respondem por boa parte da imigração clandestina.

Segunda-feira ao sol (2002)
Antes de ganhar o Oscar de coadjuvante por Onde os fracos não têm vez (2008) e se tornar um astro internacional, o espanhol Javier Bardem interpreta um desempregado que, ao lado de amigos na mesma condição, passa os dias à espera de uma oportunidade profissional. Dirigido por Fernando León de Aranoa (Princesas).

A estrela imaginária (2006)
Diretor de América – O sonho de chegar (1994), sobre o fluxo de imigração clandestina em direção à Itália, Gianni Amelio trata aqui do fechamento de uma fábrica italiana, vendida a um grupo chinês que a transfere para seu país. Um dos ex-funcionários (Sergio Castellitto) decide ir à China para resolver um problema em uma das máquinas.

A questão humana (2007)
O diretor Nicolas Klotz e a roteirista Elisabeth Perceval vieram em julho ao Brasil para acompanhar uma retrospectiva de sua obra, marcada pelo engajamento político. Aqui, o responsável pela área de Recursos Humanos de uma corporação (Mathieu Amalric) passa a vigiar um dos diretores e descobre manchas da empresa.

Bem-vindo (2009)
Inspirado em fatos verídicos, o diretor Philippe Lioret (Não se preocupe, estou bem!) narra a aventura de um jovem curdo de 17 anos que sai do Iraque e chega a uma cidade na região Norte da França, a partir da qual planeja alcançar, a nado, a costa da Inglaterra. Um professor o protege dos moradores que querem denunciá-lo.

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