Crise de identidade

Alinhar conceitos, o primeiro desafio

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O que é valor? O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa registra 24 acepções para a palavra, além de 26 termos compostos a partir dela. É justamente com a missão de limpar o meio-campo na compreensão do que sejam valores e estabelecer convergências nos seus processos de transmissão que tem atuado o educador Celso Antunes, autor do recém-publicado A Linguagem do Afeto: Como Ensinar Virtudes e Transmitir Valores (Editora Papirus).

“Não há um ser humano que não tenha sua concepção de valores. Por isso, não há vácuo de valores, ainda que eles não sejam virtudes. A grande dificuldade é a construção de uma pedagogia que ajude a ensiná-los”, diz Antunes, que foi diretor dos colégios paulistanos Sion, Pueri Domus e Portal do Morumbi.

A discussão ganha maior importância na medida em que as famílias não têm a mesma disponibilidade de antes para a formação dos filhos. Para que a escola possa cumprir a sua parte, Antunes propõe, em primeiro lugar, que se alcance a uniformidade conceitual sobre valores. Seu livro é dividido em três planos, dos quais esse é o primeiro.

“É preciso não colocar em discussão valores subjetivos, como o sentido de democracia”, observa. “Por isso, trabalho com 20 a 25 valores  — honestidade, lealdade, apego à justiça, amor à verdade — e clarifico a idéia que tenho sobre cada um deles. Se aquilo fizer sentido para o leitor, vamos ver como trabalhá-los e, num terceiro estágio, como aprofundar os conhecimentos sobre o tema.”

O “como trabalhá-los” refere-se à idéia pedagógica. “Para mim, um ponto é cristalino. Não se ensina valor em aulas expositivas, não há receita de valores. A melhor maneira de trabalhar é produzir linguagens interiores que podem induzir à mudança, fazer com que o aluno converse consigo próprio sobre aqueles valores.”




Reportagem: Rubem Barros


Crise de identidade

Contra os apelos, diálogo e reflexão

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Mãe de duas adolescentes de 14 e 11 anos que estudam no Oswald de Andrade Caravelas, escola de classe média em São Paulo, Maria Cecília Franzini vive também o reverso da medalha: é sócia-fundadora da Grão de Chão, escola de educação infantil cujas famílias têm perfil semelhante às do Oswald. Ela defende que a escola crie espaços de escuta para os pais e seja mediadora na discussão de temas da atualidade entre os jovens. A vivência dupla ajuda a ter clareza sobre os limites mútuos.

“A escola tem papel formador e, enquanto espaço coletivo, pode servir ao debate de idéias, permitindo aos adolescentes que se coloquem e pensem, com pessoas que os ajudem nesse processo”, diz. A dificuldade que alguns pais têm de identificar os próprios valores e de frustrar as demandas dos filhos estão entre as principais razões da proposta. O diálogo na escola serviria para contrabalançar os apelos a que os jovens estão expostos, fazendo os refletir. Sexualidade, meios de comunicação, consumismo, segurança estariam entre as questões a serem discutidas.

Exposta em uma reunião de pais no Oswald, a idéia não foi bem aceita. A escola argumentou que essa reflexão já acontece em muitas disciplinas do currículo (psicologia social, política, antropologia). Os pais acharam que muitas dessas questões estavam mais ligadas a valores familiares. Cecília lembra que também na Grão de Chão houve muita resistência e irritação quando “os pais quiseram entrar no espaço da escola”. Com o tempo, criaram-se canais de escuta para reclamações e sugestões.

“Vimos que isso deve ser feito, mas a escola precisa ter muito claros os seus princípios norteadores. É preciso lembrar que se trata de um espaço social coletivo. Pais muitas vezes pensam apenas no seu filho. Uma vez, depois de 40 minutos de atraso na chegada, fomos embora sem uma criança para um passeio. O pai deu o maior piti, mas todos perceberam que havia um limite.”




Reportagem: Rubem Barros


Crise de identidade

Em escola pública, pais têm atuação restrita

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O espaço para a participação dos pais na escola pública existe e é desejado, mas está circunscrito à atuação na esfera administrativa. É o que pensa o administrador de empresas Alexandre von Bloedau, cujas filhas Letícia, 10 anos, e Júlia, 8, são alunas, respectivamente, da 4a. e da 2a. séries da Escola Estadual de 1.o Grau Reinaldo Porchat, na Lapa, em São Paulo.

No ano passado, Bloedau assumiu o cargo de diretor-financeiro da Associação de Pais e Mestres da escola. “Acabava tudo nas mãos dos professores. Houve uma reunião e a diretoria pediu uma participação maior dos pais”, conta. O estatuto da APM foi modificado, designando os cargos de diretoria obrigatoriamente aos pais e a direção a um professor. Em torno de 30 pais – dos 702 alunos da escola – participam ativamente da entidade.

Bloedau administra R$ 912 por quadrimestre para manutenção predial (R$ 1,30 por aluno). Há mais uma verba mensal para pagar prestadores de serviços que, segundo a Secretaria de Estado da Educação, foi de R$ 400 em janeiro e R$ 350 em fevereiro (com a previsão de que passasse a R$ 800 em março). Se a escassez de recursos demanda criatividade para manter a estrutura em funcionamento, na atuação educacional propriamente dita os professores não abrem espaço para as opiniões dos pais.

“Eles alegam que há um planejamento pedagógico imposto pelo Estado e que têm de cumpri-lo. No fundo, acho que não abrem o diálogo para não demonstrar a própria insuficiência, pois oito entre dez professores têm má formação”, avalia Bloedau. “A professora da minha filha mais nova mandou um bilhete dizendo que eles ‘estavam vestigando (sic)’ uma determinada situação. É duro.”




Reportagem: Rubem Barros


Crise de identidade

Método alternativo discute consumo de álcool

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Uma estratégia simples e barata para levar às famílias informações que a escola julgava relevantes sobre o álcool e seu consumo desmedido na sociedade. Esse foi o espírito do Projeto Vínculos II, realizado pelo Colégio Anchieta, escola de padres jesuítas de Porto Alegre (RS), entre outubro de 2003 e julho de 2004. A proposta integra o Programa de Valorização da Vida, instituído no final da década de 80 pelo colégio, que reúne alunos de classes média e alta.

A cada dois meses, a escola mandava uma carta com informações estatísticas, pesquisas (algumas sem fonte identificada) e propostas de atuação para os pais dos alunos da 4a. série do ciclo fundamental à 3a. série do ensino médio. “Tivemos de arrumar um método alternativo às reuniões de pais para que pudéssemos atingir a todos. Os pais ficaram bastante satisfeitos e ficavam esperando pela próxima carta para discutir com os filhos”, diz Isabel Tremarin, orientadora educacional e uma das coordenadoras do projeto.

Em sua opinião, a proposta busca alertar as famílias para o consumo do álcool, “que as pesquisas indicam ser o maior dos problemas entre as drogas lícitas e ilícitas”. “Houve um aumento da confiança das famílias na escola, pois as informações não eram alarmistas, e sim objetivas.” Nas cartas, são levados em consideração aspectos como hábitos culturais da comunidade. No Rio Grande do Sul, onde há forte presença das colônias italianas e alemã, o consumo de vinho e cerveja é habitual para muitas famílias.

Um dos resultados mais visíveis, segundo Isabel, é o fato de os pais estarem mais atentos às saídas noturnas dos alunos, querendo saber se nas festas serão servidas bebidas alcoólicas. A escola pretende lançar, ainda neste ano, uma Rede Social de Apoio, visando a estreitar os vínculos entre família e escola para que possam discutir temas da atualidade.




Reportagem: Rubem Barros


Crise de identidade

O adulto criança e a criança adulta

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“O processo da adolescência não está mais associado à idade adolescente”, diz psicanalista francês



Autor de A Passagem Adolescente (Editora Artes e Ofícios) e O Adolescente e o Psicanalista (Companhia Freud), o psicanalista lacaniano francês Jean-Jacques Rassial, professor da Universidade de Provence, falou à Educação sobre os jovens de hoje.




A adolescência começa cada vez mais cedo e acaba mais tarde?

A puberdade rejuvenesceu, particularmente nas sociedades mais desenvolvidas. Chegamos a um ponto terminal dessa precocidade. De outro lado, a entrada na vida adulta, que antes se definia pela criação de uma família e pela inserção profissional e social, tem acontecido mais tarde. Mas o essencial é o fenômeno psicológico. Por diversas razões, cada vez menos se sabe o que é uma criança e o que é um adulto. Até mesmo em crianças pré-púberes já temos sinais de processos e até de patologias adolescentes. Na Inglaterra, houve um estupro coletivo cometido por meninos pré-púberes. Por outro lado, vemos pessoas consideradas adultas voltarem para a família de origem ou se colocarem numa situação de longa dependência econômica em relação aos pais. O processo da adolescência, sob o aspecto psicológico, não está mais associado à idade adolescente, a ultrapassa em seu início e em seu final.




Os ritos de passagem não perderam força?


As sociedades de iniciação tinham tempos curtos de adolescência, uma semana ou um mês, o período exato em que se processava o rito. Não tenho nem um pouco de saudade. Os antropólogos mostraram, particularmente em relação à África, que os ritos de iniciação da puberdade só funcionavam socialmente quando havia fracassos, que implicavam mortes. Se todos conseguissem passar pelo rito, sem nenhum acidente ou fracasso, então não havia mais a função. Os ritos de iniciação só funcionam como ritos ordálios (que têm caráter de julgamento), como prova de que há risco de morte. As gangues adolescentes, por exemplo, são tentativas de retorno aos processos iniciáticos, com ritos selvagens.




E os símbolos de passagem da sociedade ocidental, como a possibilidade de usar roupas identificadas com o universo adulto a partir de certa idade?


Não temos mais o modelo de desenvolvimento progressivo, que era uma ilusão. Vivi o tempo das calças curtas na França, usadas em pleno inverno. Havia uma idade em que se podia usar calças adultas. Aquilo que ainda restava como rito de passagem passou a não funcionar mais.




Como pode mudar a forma de raciocinar e produzir conhecimento dos jovens?


Ficamos muito surpresos com jovens inteligentes, não neuróticos, com o fato de que eles não aceitam mais a distinção entre o real e virtual, que passa a ter relação com a língua e a escrita. É verdade que os jovens lêem cada vez menos, mas também é verdade que têm mais informação e saber. Percebemos isso com um fenômeno muito interessante, a chamada língua texto (usada nos programas de bate-papo na internet), codificada e precisa, que evita a subjetividade e as ambivalências da língua, por exemplo. É uma espécie de ideal matemático em que a língua não nos enganaria mais. Nos tornamos intolerantes à mentira, não a suportamos mais, até mesmo a mentira que nos constitui como sujeito.




Reportagem: Rubem Barros


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