Crise de identidade

Mudanças na sociedade e no perfil de ensino básico fazem com que a escola assuma funções que eram exclusivas da família.

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O professor Daniel Lefebvre, diretor de escola infantil na pequena cidade francesa de Hernaing, poderia fazer vista grossa para o desemprego em massa causado pelo fechamento de uma mina de carvão. Mas, como os filhos dos mineiros são seus alunos, ele decide não aceitar passivamente a degradação das condições das crianças e passa a enfrentar as engrenagens de várias instâncias de poder – assistência social, companhia de luz, prefeitura – para que sua instituição possa voltar-se à sua função primordial: a de desenvolver o intelecto e as habilidades das crianças, integrando-as à sociedade.

O enredo acima, levado ao cinema em Quando Tudo Começa (1999), de Bertrand Tavernier, retrata uma realidade educacional bem diferente da nossa, mas levanta questão cada vez mais pertinente: quais são as atribuições da escola nestes tempos em que a família, além de sofrer pressões econômicas e de assumir novas configurações, dispõe de tempo exíguo para educar?

Com as crianças chegando cada vez mais cedo à sala de aula, as instituições de ensino cuidam também de hábitos ligados à sua socialização primária, como vestir, comer, adquirir noções de higiene, de respeito ao outro e de valores que antes eram configurados, ao menos inicialmente, na esfera familiar.

Muitos pais tomam como um sacrifício o ato de criar condições para que os filhos estudem. A professora Sarah Ferreira, do Colégio Estadual Cruzeiro do Sul, em Aparecida de Goiânia (GO), observa que diversas mães consideram um desaforo o fato de serem chamadas a conversar sobre os filhos: “Esperam que a escola faça a mágica de transformar alunos rebeldes em disciplinados, alienados em interessados pelo mundo onde vivem”, explica. No universo das escolas privadas, as expectativas são maiores. E as cobranças também. Prevalece, às vezes, o sentimento de que se trata de uma relação entre consumidor e fornecedor.

Em muitos casos, as próprias escolas contribuem para isso ao tentar vender a idéia de que têm “vantagens competitivas” em relação à concorrência, esquecendo-se de reafirmar o “prato principal” do cardápio: o seu projeto pedagógico. Alguns educadores, pouco dispostos a assumir publicamente as queixas, reclamam que são exigidos demais pelas famílias. Estas, por sua vez, sentem-se invadidas pelas escolas, que muitas vezes explicam os fracassos educacionais por meio da estruturação (ou desestruturação) familiar do aluno.

“De repente, estava discutindo assuntos íntimos com meu marido na sala da diretora da pré-escola do meu filho”, diz uma mãe. “Troquei de escola minha filha de três anos depois que a diretora me chamou para uma reunião e me indicou um psicólogo porque estávamos tendo problemas para que a menina descesse do carro na hora da entrada. Foi uma tempestade num copo d´água”, diz um pai. Ambos, por motivos óbvios, preferem permanecer anônimos. Nos dois casos, restou a convicção de que a escola deve esgotar todas as possibilidades para resolver problemas que se manifestam no seu espaço.

Para a psicopedagoga Lisandre Castello Branco, professora aposentada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, a escola ainda é anacrônica em relação às mudanças sociais, pois não procedeu a uma mudança efetiva de mentalidade. “Problemas de socialização são creditados ao fato de os pais serem separados, reuniões de pais e mestres são agendadas para o meio da tarde ou da manhã. É como não se soubesse da importância do emprego para um trabalhador”, aponta, fazendo a ressalva de que o descuido com os horários é mais freqüente nas escolas públicas.

Fronteiras

O grande nó das relações entre família e escola, no entanto, tem de ser desatado no terreno dos valores. Os dois lados parecem ressentir-se da perda do poder de influência que vem ocorrendo desde os anos 60, que simbolizam a quebra de vários padrões de comportamento e a ascensão do jovem a um novo status social. Data dessa época também o livro Liberdade sem Medo, de Alexander Neill (Editora Ibrasa), articulador da então revolucionária experiência de Summerhill School, na Inglaterra, que propunha o fim da hierarquia na relação aluno-professor. A partir dos anos 90, o problema ganhou nova dimensão, com o aumento do desemprego e a concorrência da internet.

Hoje, sem apregoar a autoridade incontestável dos mestres que se verificava até os anos 50, educadores e famílias buscam reconstruir relações de autoridade calcadas no respeito. Sua luta maior, entretanto, trava-se com a influência cada vez maior dos meios de comunicação na formação dos jovens, com os apelos ao consumismo e com a abundância de informações que confunde os próprios pais. Muitas famílias buscam ver espelhadas na escola as virtudes que elegem em seu convívio. Isso não permite, porém, que esse desejo se sobreponha aos valores comuns a todos os alunos.

“Cada família tem seus costumes e princípios. A escola recebe essa multiplicidade de filhos e de valores. Com o tempo menor que as famílias dedicam a seus filhos, a escola se torna depositária daquilo que a família poderia fazer a mais. É preciso, então, que se confie mais na escola”, diz Argos Temes, diretor da unidade Beta do Colégio Leonardo da Vinci, de Porto Alegre (RS).

Esse processo de equalização é feito por meio do que um educador chama de “a lógica dura da isonomia democrática”, o que provoca desconfortos. Temes relata, por exemplo, que o fato de crianças de seis, sete anos levarem celulares à escola obrigou a que se baixasse uma norma proibindo os aparelhos em classe. “A escola tem de gerenciar o aluno e a família, que está se fragilizando diante dos apelos de consumo”, diz.

O ambiente escolar ainda é visto como ideal para que se faça a passagem do individual para o coletivo. “É o melhor espaço para se educar. É um absurdo que um professor ou uma escola lamente a falta de educação de seus alunos”, diz Sônia Barreira, diretora pedagógica e sócia da Escola da Vila, em São Paulo (SP). Cerca de quatro anos atrás, conta, sua escola começou a perceber a presença de comportamentos que não estavam em sintonia com o projeto pedagógico.

Pequenos indícios — como o descaso com roupas e objetos perdidos e o desrespeito a filas na hora do lanche — foram propulsores da implantação das assembléias de classe, experiência assentada na idéia da criação de grupos de discussão de questões de ordem moral e auto-regulação, com princípios democráticos e participação dos alunos. A metodologia é baseada nas idéias do professor espanhol Josep Maria Puig, autor de A Construção da Personalidade Moral (Editora Ática). Sem citar nomes, os alunos discutem situações que implicam a existência de aspectos da conduta e votam novas regras de convívio. “É uma forma de levá-los à reflexão e de agir preventivamente”, acredita Sônia.

Ansiedade

Um dos elementos complicadores na busca de regras e princípios coletivos tem sido a ansiedade dos pais e, em muitos casos, a incapacidade das escolas de lidar com ela. O desejo de poupar os filhos de frustrações, a ânsia de tomar conhecimento de todo e qualquer movimento de seu rebento que possa parecer anormal, a preocupação precoce com o vestibular e uma certa compulsão controladora expressam o perfil de pais que têm renegado um aspecto básico da educação: a experiência, que se adquire ao longo de todo o processo educacional, e que pressupõe a existência do erro e do insucesso.

“Parece que a frustração não pode ser suportada pelos filhos de todas as classes sociais. Não é algo que as famílias utilizem como meio para colocar questões de valor na relação com o filho”, diz Lisandre. Há situações em que os pais, principalmente os de crianças menores, justificam atitudes reprováveis dos filhos. “Hoje ela está irritadinha, acho que está gripada”, ouviu Heloísa Reuter, diretora da escola de educação infantil paulistana Externato Aldeia, de uma mãe que acabara de tomar alguns sopapos da filha pequena.

“As mães não percebem que esse tipo de comportamento leva à sensação de impunidade. Os pais de hoje, bombardeados por tanta informação e querendo educar bem, perderam o referencial de si próprios, do que é certo ou errado para eles mesmos”, raciocina Heloísa. Para aparar as arestas relativas ao choque de valores públicos e virtudes privadas, as escolas e educadores elegem a proximidade com a família como solução.

“É preciso criar um clima de cooperação e de co-responsabilidade entre família e escola. Os conflitos surgem quando isso não existe”, defende a consultora pedagógica Conceição Aparecida de Jesus. Para Myriam Tricate, diretora-geral do Colégio Magno, em São Paulo, professores e famílias são resistentes à mudança, mas é preciso trabalhar em sintonia. “Precisamos tratar de temas como educação sexual, mas temos de capacitar os pais para que eles também façam isso com uma visão menos amadorística”, propõe. O Magno tem um projeto destinado a essa finalidade, o congresso “Papel de pai, papel de filho”, em que se realizam conferências com especialistas.

Essa busca de harmonia e de sintonia pode ser positiva, mas é preciso ter cuidado com alguns aspectos. Nem todos os pais participam ativamente, seja por falta de tempo, seja porque não querem, e isso não deve fazer com que seus filhos fiquem em segundo plano. Também é importante que as famílias busquem organizar-se em associações para conversar com as escolas em pé de igualdade, especialmente nos momentos de dissensão.

Paradigmas em xeque

Um dos temas que mais parece abalar convicções e buscar respostas de proteção imediata é a violência. Ao lado de questões como o consumo de drogas e álcool, com as quais está intimamente ligada, parece sinônimo de pesadelo coletivo de quem tem filhos adolescentes. Amplificado pela exploração maciça e cotidiana que os meios de comunicação fazem do assunto, esse terror generalizado tem contribuído para a criação de visões distorcidas, soluções imediatistas e solicitações exageradas.

A demanda pela instauração de controles pode dificultar a busca de um olhar mais reflexivo sobre a violência e mais positivo no processo de formação, especialmente dos adolescentes. “Há uma série de expectativas exageradas dos pais com relação à questão de segurança. A escola tem de desempenhar seu papel educativo”, diz Olga Gil Santos, coordenadora pedagógica do Colégio Oswald de Andrade, em São Paulo.

Para Luís Eduardo Magalhães, diretor do Colégio Santa Cruz, também na capital paulista, o aumento dos artefatos de segurança implica irremediavelmente a diminuição de liberdade e autonomia para os alunos. Hoje, o colégio que dirige tem catracas e câmeras em todos os portões, visando à “defesa do mundo externo”. A decisão de instalá-las foi tomada após vários casos de invasão. “As solicitações de controles são muitas. Temos de estabelecer linhas de resistência para conter a ansiedade dos pais”, relata. A autonomia progressiva é vista como ponto central do projeto pedagógico da escola.

Já o colégio gaúcho Leonardo da Vinci optou pelo controle permanente de tudo o que acontece em suas instalações. A instituição mantém segurança externa e câmeras que fiscalizam dependências, inclusive banheiros e pátio, além de proibir o fumo e a ação de vendedores ambulantes nos arredores. Segundo o diretor Argos Temes, também não se hesita em comunicar aos pais o consumo de drogas, ainda que ocorra longe dali. “A escola que disser que não tem alunos usuários de drogas não faz parte da sociedade”, diz.

Quando se aborda a percepção da violência e suas manifestações, a idéia da contraposição entre virtudes privadas e valores públicos volta a tomar corpo. Sonia Barreira exemplifica com as pequenas agressões entre alunos que acontecem no ambiente escolar. A instituição, nesses casos, não pode ser conivente com a violência, nem como instrumento de defesa, pois deve valorizar outros meios. Já os pais, em muitos casos, estimulam os filhos a defender-se à base do tapa.

Para Leon Crochík, professor de psicologia da USP e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a formação escolar de hoje tende a valorizar não a vida, mas a sobrevivência e a competição. No seu entender, por carência de discussões políticas, há pouco entendimento e crítica sobre as estruturas sociais reinantes. E, em muitos casos, esses aspectos surgem de maneira superficial, com muita repetição do que se fala nos meios de comunicação. “Não são introjetados como próprios, apenas aparecem como clichês, que são o oposto da crítica”, avalia.

Conceição de Jesus faz eco à idéia de valorização da vida. “Precisamos redimensionar esse valor e outros a partir dele. A escola hoje apenas fomenta valores, não forma. Temos de lidar com a complexidade de diversas realidades e é preciso começar com pequenas coisas”, acredita. Essa pouca valorização da vida entre os jovens é vista sob um outro ângulo pela psicóloga Rosely Sayão. Um dos problemas, segundo ela, é que os adultos não querem ser adultos, e sim se manter jovens, o que aumenta a sensação de insegurança. “Jovens e crianças estão com pânico da morte, pois quem deveria dar segurança a eles parece não estar em condições de fazê-lo”.

Espaço para o encontro –
Enquanto a escola privada lança mão, em maior ou menor escala, de controles e reflexões, qual seria a realidade da escola pública? Diferentemente do corolário que a vê como o reinado da desordem, ela ainda representa um espaço a que os jovens podem recorrer para exercer a cidadania e encontrar uns aos outros.

“Cria-se uma imagem, a partir de fatos isolados, de que a escola é violenta como um todo. Não é. Para muitos, especialmente para as meninas de áreas violentas, é o único momento de trocas, em que podem realizar amizades e ter contato com professores. Essa importância não significa que a escola deva ser o único ambiente para que se tenha acesso a bens culturais e de lazer”, diz Marília Spósito, professora da Faculdade de Educação da USP e diretora técnica da ONG Ação Educativa.

Apesar de contar com programas bem-sucedidos, muitos conduzidos por ONGs, o ensino público carece de atuação mais orgânica e de melhor qualidade, lembra a professora goiana Sarah Ferreira. As redes estaduais são muito grandes e têm poucos recursos. A qualidade depende mais do denodo dos professores. Boa parte, no entanto, é desmotivada, mal preparada e refratária a mudanças.

Em meio às carências da escola pública, à demanda por controles da escola privada, ao imediatismo dos pais e às pressões do mundo externo – cujo maior vilão parece se configurar nos meios de comunicação – , uma conclusão parece incontestável: a de que a sociedade tem reservado às instituições de ensino uma dose enorme de expectativas e atribuições.

O limite para a absorção dessas novas funções está diretamente ligado à capacidade de a escola realizar sua função primordial: a de formar indivíduos autônomos intelectual e moralmente, dotando-os de espírito crítico e senso de cidadania. A briga do professor-diretor Daniel Lefebvre, de Quando Tudo Começa, não era por poder político ou financeiro. Assim como a de milhares de professores brasileiros, era para que outras instâncias sociais garantissem à escola a possibilidade de realizar a essência de seu trabalho.

Reportagem: Rubem Barros

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