Crise de água no estado de São Paulo atinge escolas da rede pública

Estiagem histórica desafia gestores a encontrar soluções para lidar com a escassez de água no ambiente escolar

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Luis Moura/Folhapress
Vista da represa Jaguari-Jacareí onde o índice que mede o volume de água armazenada no Sistema Cantareira está em queda


O ano de 2014 trouxe um desafio especialmente árido para os gestores escolares de todo o Estado de São Paulo: o enfrentamento da escassez de água, resultado da maior estiagem dos últimos 70 anos na região. Apenas na rede municipal da capital paulista, foi registrado um total de 34 escolas com algum tipo de problema de desabastecimento em meados do mês de outubro. Desde então, a média é de duas escolas por dia fazendo algum tipo de notificação de irregularidades no abastecimento. Na rede estadual, embora não existam números oficiais de instituições de ensino afetadas, todas as delegacias regionais estão em alerta, também recebendo notificações e pedidos de auxílio para dar continuidade às atividades com as crianças e jovens. Caminhões-pipa da Sabesp, empresa estatal responsável pelo abastecimento, priorizam as escolas (além de hospitais e asilos), atendendo tanto a rede estadual quanto a municipal. No dia a dia, porém, até que o período de seca passe, o clima é de apreensão.

Do ponto de vista prático, os gestores se viram obrigados a observar com especial atenção suas escolhas no que se refere ao uso da água, alterando atividades cotidianas e, em alguns casos, planejando e realizando mudanças estruturais com o intuito de diminuir o consumo. “O uso racional e equilibrado da água deve ser empregado o quanto antes”, enfatiza Genaro Soria, responsável na Secretaria de Estado da Educação pelo Programa de Uso Racional da Água (PURA), que conta com a parceria da Sabesp e da Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP).

Algumas ações nesse sentido ganharam destaque na imprensa. A falta de água para o abastecimento da população de Itu – que enfrenta racionamento desde janeiro – é tão crítica que as diretorias de escolas chegaram a monitorar as idas dos alunos ao banheiro para evitar desperdício. Segundo a Prefeitura de Itu, as situações foram sanadas em poucos dias.

Mudança de hábitos
Em atividade desde 2008, o PURA oferece capacitação para os gestores da rede estadual de ensino, além de realizar a manutenção e modernização da estrutura física das escolas, com a instalação de hidrômetros e torneiras automáticas e manutenção de encanamentos. Soria ressalta que agir de maneira pontual apenas para sanar um desabastecimento emergencial pode até garantir a manutenção do funcionamento da unidade escolar, mas não evitará que dificuldades relacionadas a este recurso voltem a se repetir. “A partir do momento em que alunos, professores e funcionários recebem orientações (tais como retirar todo resto de comida de pratos e copos do refeitório antes de lavar; ou trocar a mangueira pela vassoura nas áreas do pátio e entrada), o desperdício diminui. A mudança dos hábitos de costume é a verdadeira chave do sucesso”, sugere.

Para Rita Rizzo de Araújo, gestora da Escola Novo Ângulo Novo Esquema (NANE), na capital paulista, é da escola a responsabilidade de gerar e multiplicar a consciên-
cia em relação ao uso da água. “Economizando de maneira consciente, os alunos podem adquirir hábitos de economia que levarão para suas casas e para outras áreas da vida futura – e que também serão mantidos ao longo do tempo na própria escola”, acredita.

Do ponto de vista prático, as principais ações adotadas na NANE para enfrentar a seca foram a regulagem de descargas e torneiras, a verificação da estrutura de encanamento e a decisão pela instalação de torneiras automáticas no segundo semestre de 2014. As funcionárias responsáveis pela limpeza receberam orientações para não utilizar mangueiras na limpeza das áreas externas e nem na hora de regar plantas (passando a usar regadores). Mas o foco do enfrentamento está, mesmo, na conscientização. “Nossos alunos até saíram às ruas fazendo uma campanha de conscientização pelo bairro, tudo dentro de uma proposta pedagógica e a partir do interesse das próprias crianças e jovens”, explica Rita Rizzo de Araújo.

Já na Escola Estadual Professora Benedita Garcia da Cruz, na cidade de Itaquaquecetuba (SP), o ciclo de economia começou em dezembro de 2013, quando alguns professores perceberam que as condições das instalações hidráulicas podiam estar levando ao desperdício. “Conversamos com o pessoal da manutenção e, realmente, era necessário fazer uma série de reparos”, explica a gestora Leni Nasser dos Santos Góes Garção. Em paralelo aos reparos, foram feitas rodas de conversas com alunos, funcionários e pais para a conscientização da necessidade de economizar. Professores e inspetores passaram por capacitações do PURA e os conhecimentos adquiridos se transformaram em atenção redobrada a todos os detalhes referentes ao consumo de água.

Na sala de aula, o assunto ganhou espaço em praticamente todas as áreas. “Os professores de geografia e matemática utilizavam a conta de água da escola como material”, explica a gestora Leni. Quando a crise apertou, em julho, a escola já tinha conseguido diminuir seu consumo em 94% (de 1.144 m3 para 64 m3). “Nós começamos com a parte da manutenção, mas não acredito que apenas isso seria suficiente. Foi com a conscientização e os detalhes do dia a dia, como a observação do método utilizado por cada criança para lavar a sua mão, que descobrimos o nosso caminho e conseguimos evitar situações extremas na crise. Foi um trabalho conjunto intenso, mas que valeu a pena”, finaliza Leni.

Limite na economia
Para a educadora e nutricionista Elza Corsi, do Instituto Avisa Lá, as medidas de redução de consumo são fundamentais para lidar com a crise, mas é importante ter clareza de seus limites. “Em ambientes coletivos é necessária uma atenção muito especial sobretudo com as práticas de higiene e limpeza. A lavagem das mãos, por exemplo, é um ato essencial e precisa ser realizado com todo cuidado. Ações como a instalação de torneiras automáticas podem ajudar muito a evitar desperdício. Mas não se pode de maneira nenhuma criar restrições que evitem que a lavagem ocorra adequadamente e quantas vezes for necessário”, aponta Elza Corsi. A educadora lembra que a utilização de álcool gel é uma medida que ajuda no combate a germes, mas não substitui o uso de água e sabonete. “O álcool sozinho não elimina totalmente os agentes nocivos, que podem voltar a proliferar, gerando quadros diarreicos e outras doenças”, completa.

A preparação da merenda é outro território em que é preciso dosar com muito cuidado as ações de economia. “A louça precisa estar limpa e os alimentos bem lavados. Essas são atividades que pedem um certo consumo de água, não tem jeito”, explica Elza Corsi. “Também não é possível simplesmente substituir a merenda por alimentos industrializados, mesmo que se acredite que estes têm o mesmo valor nutricional. A consequência seria termos crianças e jovens passando a adquirir hábitos alimentares menos saudáveis, que tendem a se reproduzir fora da escola. Desta maneira, uma ação emergencial de economia de água no preparo da merenda poderia se traduzir em prejuízo para a saúde desses alunos a longo prazo”, finaliza a educadora.

Escolas têm prioridade

Se mesmo com as ações de economia uma unidade escolar da rede municipal ou estadual de ensino percebe a iminência de um desabastecimento, seus gestores estão orientados a solicitar caminhões-pipa e, assim, manter a regularidade das aulas. As escolas estão dentre os serviços que têm prioridade neste tipo de pedido junto à Sabesp. 

* Reportagem publicada originalmente na edição 212 com o título “Enfrentando a crise”

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